"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



terça-feira, 2 de julho de 2013

EVANGÉLICOS DEIXAM BASE DO GOVERNO


Senadora Ana Amélia (PP-RS), presidindo o Senado, informou, às 15:51:
 
A Mesa recebeu do Senador Eduardo Lopes, Líder do Partido Republicano Brasileiro, o PRB, a seguinte comunicação:
 
Com meus cordiais cumprimentos, nos termos regimentais, comunico a V. Exª que o Partido Republicano Brasileiro (PRB) deixa de integrar, nesta data, o Bloco de Apoio ao Governo. Na oportunidade, apresenta sinceros agradecimentos à Presidência.

Marcelo Crivella (PRB-RJ) continua ou cai do Ministério da Pesca?  O PRB adere ao bloco União e Força, formado pelo PTB, PR e PSC.

TAREFA DE GINCANA - ENCONTRE UM CARTAZ NAS RUAS COM UM DOS CINCO PONTOS DO PLEBISCITO DA DILMA


Em mensagem encaminhada ao Congresso, a presidente Dilma Rousseff propõe nesta terça-feira (2) a discussão de cinco temas para o plebiscito sobre a reforma política.
 
a) a forma de financiamento das campanhas eleitorais, de modo a permitir uma avaliação do modelo atual que o povo possa comparar suas vantagens e desvantagens com relação ao financiamento exclusivamente público, que o povo possa fazer comparação semelhante com o modelo misto, em que os candidatos recebem recursos públicos e recursos de fontes privadas, com ou sem restrições; 
 
b) a definição do sistema eleitoral, em que se faça uma opção entre o sistema proporcional como é voto majoritário para a eleição de parlamentares, o voto em lista fechada ou flexível ou então o voto em dois turnos como propõem entidades da sociedade civil; 
 
c) continuidade ou não da existência de suplência nas eleições para o senado ; 
 
d) manutenção ou não da existência de coligação partidárias para a eleição de deputados e vereadores

e) o fim ou não do voto secreto no parlamento.
 
02 de julho de 2013
in coroneLeaks

TÓIN!!!


Na entrevista de ontem, Dilma Rousseff foi questionada se o seu governo é "padrão Fifa". "Não, é padrão Felipão", respondeu, em referência ao técnico da seleção campeã da Copa das Confederações.
 
O senador Aécio Neves (PSDB), pré-candidato a presidente, comentou a fala da petista.
"Se o Felipão tivesse governo padrão PT, não poderia escalar 11. Teria que escalar 39 jogadores", referindo-se ao total de ministérios.
 
02 de julho de 2013
in coroneLeaks

UM HOMEM SEM CORAGEM... SEM DIGNIDADE... UM EMBUSTEIRO!

http://4.bp.blogspot.com/-lMdmb-Jgneo/UdCU6mQ1bdI/AAAAAAABJUw/hDrrBUn_4xU/s455/lula+escondido+pela+persiana.jpg

02 de julho de 2013

MAIORES PARTIDOS DA BASE, PT E PMDB DIVERGEM SOBRE PROPOSTAS

Petistas priorizam financiamento público e PMDB, sistema de votação
 
Ainda sem uma posição formal, já que as bancadas começam a ser consultadas a partir de terça-feira, PT e PMDB têm prioridades distintas para incluir na proposta de plebiscito para a reforma política feita pela presidente Dilma Rousseff.
 
Enquanto o foco do PT é em relação ao financiamento de campanhas eleitorais e a validade das novas regras já para os eleitos em 2014, o PMDB defenderá a mudança do sistema eleitoral, com a adoção do chamado distritão (pelo qual são eleitos os que têm mais votos) e o parlamentarismo como sistema de governo. O PMDB propõe ainda que o plebiscito aconteça só no ano que vem, junto com a eleição, com as regras passando a valer mais adiante.
 
Entre a maioria dos deputados prevalece o ceticismo em relação à realização desse plebiscito. O PT defende o financiamento público exclusivo, mas alguns petistas admitem que já seria um avanço o fim das doações de pessoas jurídicas. Outro ponto considerado fundamental por deputados do PT é fixar um teto fixo para os gastos de campanhas.
 
O líder da bancada petista, José Guimarães (CE), afirmou que a orientação será fechada em conversas com a bancada e a direção nacional do PT:
 
— O Rui Falcão (presidente do PT) chega amanhã (hoje) e vamos combinar a orientação. Preferimos o financiamento público exclusivo das campanhas, mas podemos estudar uma proposta intermediária, como o fim das doações de empresas. A ideia é formar uma frente parlamentar ampla para uma reforma menos conservadora e mais popular. Os partidos de esquerda têm enorme responsabilidade neste momento — disse Guimarães, endossando a tese do Palácio do Planalto, de uma consulta enxuta, com quatro ou cinco perguntas.
 
Para o líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), a principal batalha é garantir que o plebiscito seja realizado com a eleição de 2014. Segundo Cunha, o PMDB ainda está debatendo, mas deverá enfatizar dois pontos da reforma política: voto distritão e mudança no sistema de governo, de presidencialismo para parlamentarismo.
 
— Não vamos focar no financiamento, ele deve entrar de qualquer jeito. Queremos discutir o sistema eleitoral, defendemos o distritão. E o parlamentarismo. Mas, a primeira batalha é fazer o plebiscito junto com as eleições de 2014.
 
Indagado sobre o fim da reeleição, Cunha disse que não será a prioridade do PMDB, mas que não tem nada contra a inclusão deste e de outros pontos defendidos por outros partidos. Por isso, defendem um maior número de perguntas. O vice-líder do PMDB, Marcelo de Castro (PI) propôs a coincidência das eleições e o fim da reeleição a partir de 2018.
 
O deputado Danilo Forte (PMDB-CE) é um dos céticos sobre a viabilidade do plebiscito, mas diz que o partido vai discutir a adoção do distritão. No PMDB, é grande a resistência a acabar com as doações de empresas nas campanhas.
— Acho que plebiscito para a reforma política é igual transposição do São Francisco. Vai ficar só no discurso. Essa veia populista de consultar a opinião pública pode ser um tiro pela culatra — disse Danilo Forte.
 
Ex-presidente do PT, o deputado federal Ricardo Berzoini (SP) disse que vem trabalhando junto a colegas para uma proposta intermediária de sistema eleitoral.
 
Embora seja a favor do voto em lista, ele entende que o Congresso poderia avançar em torno do sistema distrital misto (sistema alemão), com voto distrital e voto proporcional, mas na legenda. Também disse que o principal é alterar as regras do financiamento:
 
— Para o PT, o que é decisivo é afastar o dinheiro privado das campanhas. Criar um fundo público, campanhas com um teto fixo e modesto.
 
02 de julho de 2013
Isabel Braga - O Globo

DILMA "TRAMBIQUE" PROPÕE QUE PLEBISCITO AVALIE FIM DAS COLIGAÇÕES E VOTO SECRETO

Governo entrega ao Congresso temas para plebiscito sobre reforma política. Executivo sugere consulta popular com questões sobre financiamento público de campanha, sistema eleitoral, voto secreto no Parlamento, suplência no Senado e coligações partidárias
 
 
O vice-presidente da República, Michel Temer, e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, entregaram ao Congresso, na manhã desta terça-feira, 2, o ofício do Executivo com os cinco temas propostos para um possível plebiscito sobre a reforma política.
 
Os cinco temas sugeridos pelo governo para a realização da consulta popular são o financiamento público ou privado das campanhas eleitorais, o voto proporcional ou distrital, a continuidade ou não do voto secreto no Congresso, o fim da suplência para senador e o fim de coligações partidárias em eleições proporcionais (para vereador ou deputado).
 
Na segunda-feira, 1º, a presidente Dilma Rousseff disse que o Congresso poderá mudar a proposta de reforma política enviada pelo Planalto. “Enviamos nossa sugestão à Câmara e ao Senado no sentido de plebiscito, apontando em linhas gerais, as balizas que julgamos importantes. Isso não significa que outras balizas não podem aparecer”, declarou.
 
O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, considerou "respeitosa" a proposta do Executivo de plebiscito para a reforma política. Segundo ele, o governo sugeriu "três ou quatro itens" gerais para a consulta e deixou "a maior parte do tema para consideração dos parlamentares".
 
Ao lado do vice-presidente da República, Michel Temer, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, defendeu o plebiscito para reforma política e disse que a população tem totais condições de opinar sobre a questão. "É fundamental que o povo participe. O povo tem que se expressar, tem o direito de dizer aquilo que ele quer", disse o ministro.
 
Caso o plebiscito seja aprovado pelo Parlamento, Temer lembrou que haverá horário eleitoral para detalhar os itens à população em geral. "Haverá esclarecimento", afirmou.
 
Para Cardozo, não se pode menosprezar a capacidade da população em compreender os temas a serem propostos pelo plebiscito. "Às vezes ainda hoje se parte de um visão, ainda um pouco elitista, de que o povo não sabe votar. O povo sabe votar. Fornecida a informação, o povo tem condições, sim, de fixar as diretrizes para a realidade que ele acha melhor", comentou o ministro

02 de julho de 2013
Daiene Cardoso - O Estado de S. Paulo

O GOLPE DA CONSULTA POPULAR

O PT tenta imprimir verniz democrático à ideia, mas o objetivo de plebiscito é dar mais dinheiro ao partido e instituir o voto de cabresto
 
 Depois de ter de recuar da tentativa desesperada de convocar uma assembleia constituinte, o governo decidiu propor a realização de um plebiscito para fazer uma reforma política.

A diferença entre as propostas é que a primeira afrontava a democracia de forma explícita e a segunda é um golpe disfarçado. Ambas, porém, têm os mesmos propósitos: desviar o foco das manifestações e servir ao projeto de poder do PT.
 
Pelos planos do governo, a consulta popular ocorreria em agosto e teria o resultado homologado no início de outubro. Assim, as regras já valeriam para as eleições de 2Ò14. Se emplacar sua manobra, o PT terá os seguintes motivos para comemorar:
 
Será o partido cujo caixa receberá mais dinheiro público. Embutido na proposta de reforma política do governo está o obsessivo desejo do PT de impor o financiamento — exclusivamente — público de campanha. Pelo modelo, pessoas e empresas continuarão a poder fazer doações, mas para um fundo, sem escolher destinatários. O dinheiro será dividido conforme a votação do partido na eleição anterior. Se o sistema for adotado em 2014, com o quadro eleitoral mais provável. Dilma terá quase 70% do bolo: 67,59%.
 
 A candidatura de Marina Silva estará praticamente enterrada: pelas mesmas regras, a ex-senadora, que teve 20 milhões de votos em 2010. mas que agora tenta criar um novo partido, ficaria com ínfimo 0.16% do dinheiro público. Com a campanha inviabilizada, deixaria de ameaçar a liderança de Dilma. Aécio Neves (PSDB) teria direito a 21.77% do dinheiro e Eduardo Campos (PSB). a 6.56%.
 
 A institucionalização do voto de cabresto. O PT defende o voto em lista fechada para o Legislativo. Por esse método, o eleitor não vota em candidatos, mas na sigla. Traduzindo: os caciques petistas indicam os candidatos a deputado e depois chamam o povo para pagar a campanha. É muita cara de pau.
 
 À custa dos cofres públicos, Luiz Inácio Lula da Silva aparecerá na TV como garoto-propaganda do PT. O partido planeja aproveitar o tempo dos programas de televisão destinados à discussão das questões do plebiscito para fazer propaganda do governo e atacar adversários, com o ex-presidente no comando do show.
 
 Desde maio, o presidente do PT, Rui Falcão, tenta coletar assinaturas para apresentar esse mesmo projeto de reforma política no Congresso.
O argumento que colore os cartazes é que a reforma reduziria "a força do poder econômico" nas eleições, já que acabaria com as doações de bancos e empreiteiras — apontados como os vilões da corrupção. Ocorre que, como sabe muito bem o PT.
 
Lula é hoje o maior amigo das empreiteiras, em cujos jatos viaja e para cujos interesses faz um descarado lobby.
"O maior problema de corrupção eleitoral do Brasil vem de recursos que entram pelo caixa dois", lembra o professor de direito eleitoral Carlos Gonçalves Júnior, da PUC de São Paulo. Nenhum país adota o sistema defendido pelo PT.
 
A Dinamarca. a nação menos corrupta do mundo, não restringe o financiamento. mas fiscaliza o uso do dinheiro e pune quem o desvia — estas, sim, medidas efetivas de combate à roubalheira. Para levar ao Congresso a proposta apresentada por Falcão, o PT precisa de 1,4 milhão de assinaturas. Só conseguiu 120000. A ideia do plebiscito não passa, portanto, de uma tentativa de driblar a falta de apoio popular à iniciativa.
 
 Não fosse o oportunismo escancarado da proposta, a própria iniciativa do plebiscito já e" uma farsa. "Nesse tipo de processo, há um risco muito grande de o povo ser usado para legitimar as posições do plantonista no poder. Ditadores sempre se valem de plebiscitos", alerta Carlos Velloso, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal.
 
O fato de a reforma política ser um assunto complexo, com o qual a população não tem familiaridade, aumenta ainda mais o risco de a consulta popular ser manipulada a ponto de ganhar o lado que tiver contratado o marqueteiro mais competente. Por mais necessária que seja, e com isso concordam todos os partidos e todos os governos, a reforma foi um tema rarefeito nas manifestações.
Os brasileiros não clamam pela reforma política, mas pela reforma ética dos políticos.

02 de julho de 2013
Pieter Zalis - Veja

"SINAIS DE MUDANÇA"

Com recuperação nos EUA e indícios promissores na Europa, emergentes precisam mostrar boa condução da economia para atrair capitais
 

Tornou-se clichê, nos últimos anos, afirmar que os países emergentes seriam a fonte do crescimento econômico mundial. Estados Unidos, Europa e Japão, por seu turno, estariam presos a amarras estruturais, como a demografia desfavorável, e ao endividamento público que restou da crise.
 
Ainda que não existam motivos para revisar a tendência de longo prazo, os últimos meses revelaram sobressaltos nesse caminho. O cenário é de recuperação dos países desenvolvidos, EUA à frente.
 
Espera-se que o crescimento americano se aproxime de 2% neste ano e supere 3% em 2014. Os preços de imóveis começam a subir, o que reanima boa parte do sistema financeiro. O país também passa por um choque de produtividade e redução de custos, inclusive com energia mais barata.
 
Embora os problemas sejam maiores na Europa, as notícias recentes também têm sido favoráveis. Na semana passada, houve avanços para implantar uma supervisão financeira única. Abre-se o caminho, com isso, para uma união bancária maior, passo decisivo para superar a desconfiança no euro.
 
Há evidências, ainda, de tênue recuperação nos países mais afetados pela crise, como Espanha, Irlanda, Itália e Portugal. Depois de quase um ano de recessão, a previsão é de alguma expansão do PIB europeu no segundo semestre.
 
Parece estar chegando ao fim o pior momento da crise no mundo rico. Em si, trata-se de evidente boa notícia. O crescimento global será maior, supõe-se, o que beneficia a todos. Os estímulos que aumentaram a oferta de capitais tornam-se menos necessários. Como consequência, os juros, hoje perto de zero, voltarão a subir.
 
O desafio dos emergentes, beneficiários da fuga de capitais dos países ricos, é se ajustar à nova realidade. Brasil, Índia e China passam por um período de crescimento menor do que o esperado.
 
Em um ambiente de relativa escassez de recursos, bons fundamentos econômicos (como inflação baixa e contas públicas equilibradas) e coerência nas ações internas serão ainda mais essenciais.
 
Quanto a esses aspectos, o Brasil não atravessa bom momento. Reflexo disso, a aprovação da gestão econômica caiu, em menos de um mês, de 49% para 27%, segundo o Datafolha --e, para 44%, o desemprego vai crescer, ante 36% na pesquisa anterior. A avaliação é pior do que a do conjunto do governo da presidente Dilma Rousseff, que recuou de 57% para 30%.
 
No mesmo ponto de seu mandato, em junho de 2005, Lula tinha 36% de aprovação na área econômica --apesar de taxa de juros, desemprego e inflação mais elevados.
 
Para reverter esse quadro, é preciso restaurar a confiança na política econômica, o que demanda coragem para reavaliar a estratégia dos últimos anos. A insatisfação que se manifestou nas ruas oferece boa ocasião também para isso.

02 de julho de 2013
Editorial da Folha

LINHA DURA E ESQUERDISTA MODERADA POLARIZAM O CHILE

 
Um modelo de esquerda latino-americana moderada e o discurso do crescimento econômico devem ser as principais bandeiras polarizadoras de votos nas próximas eleições chilenas, segundo analistas.
 
Depois da vitória de Michelle Bachelet, da Concertação, nas primárias do último domingo, com 73% dos votos, e da consolidação da candidatura do ultraconservador Pablo Longueira (UDI), pela direita, o debate sobre os dois modelos a serem seguidos pelo Chile depois do pleito de novembro deve causar um racha nos partidos menores.
 
"Há uma radicalização à esquerda por parte de Bachelet, que terá de ser habilidosa para chamar o voto tanto da democracia cristã quanto dos socialistas", diz o analista político Guillermo Hollzman.
 
Já Longueira representa a escolha mais à direita possível entre os candidatos conservadores, tendo ganhado, inclusive, do preferido do presidente Sebastián Piñera, Andrés Allamande.

Editoria de Arte/Folhapress
 

"O prestígio do presidente está em baixa, e com isso o lugar que seria ocupado por um sucessor seu acaba sendo tomado por alguém que promete o mesmo desempenho econômico, mas linha mais dura com relação à segurança e à administração de crises", diz Fernando García-Naddaf, da Universidade Diego Portales.
 
Durante a gestão Piñera, o Chile alcançou invejáveis índices, com um crescimento de 4% e taxas de desemprego caindo consideravelmente. Tal desempenho, porém, não garantiu popularidade nem continuidade a Piñera, que hoje tem menos de 30% de aprovação popular.
 
Naddaf chama a atenção para o desempenho do candidato independente Marcel Claude, do partido Humanista. Com um discurso que pretende abarcar o clamor das ruas, Claude tem ganhado a preferência dos jovens e estudantes que desde 2011 têm saído às ruas por melhores condições de acesso à educação.
 
"É um azarão, correrá por fora, mas tem como roubar votos a Bachelet e fazer a crítica à sua atuação por meio da própria esquerda", diz Naddaf.
 
Quanto à estratégia da ex-presidente, o estudioso diz que tem buscado um modelo que seja uma combinação dos discursos de Rafael Correa e de Dilma Rousseff. "A identificação com uma esquerda mais responsável representada pela presidente do Brasil ela já possuía. Agora, quer atingir a nova classe média, mais ou menos o mesmo eleitorado que segura, no Equador, a gestão Correa", resume.
 
O Brasil, acrescenta, vem sendo modelo também para as recentes manifestações que ganharam as ruas de Santiago às vésperas da votação de domingo. "Causou muito boa impressão o fato de que Dilma apressou-se a fazer anúncios depois dos protestos", conclui Naddaf.

02 de julho de 2013
SYLVIA COLOMBO - Folha de São Paulo
DE BUENOS AIRES

"MARKETING PADRÃO FIFA"

 
No Brasil, hoje, poucas pessoas entendem tanto de como ganhar eleição quanto o jornalista --tornado marqueteiro-- João Santana. Seu retrospecto recente inclui a reeleição de Lula no pós-mensalão e a vitória dos desconhecidos Dilma Rousseff, em 2010, e Fernando Haddad, dois anos depois.
 
Diante dos apuros em que se encontram os dois "postes" que ajudou Lula a iluminar, Santana "redobra a aposta'', como disse ao Painel após o Datafolha apontar queda de 27 pontos na avaliação da presidente: "Dilma ganha no primeiro turno''.
 
São da lavra do marqueteiro todas as peças de comunicação usadas pela presidente neste ano para comemorar a redução na conta de luz e os dez anos do PT no poder e, agora, responder aos protestos de junho.
 
O otimismo do Brasil se descolando da Terra e alçando voo rumo ao espaço, levado ao ar no programa do PT em maio, em nada combina com as cenas de milhares de pessoas indo às ruas no mesmo país para reclamar contra tudo e contra todos.
 
Mas já ali, no texto do próprio João Santana, Dilma enunciava que não basta economia dinâmica'' sem educação, saúde e segurança de qualidade. "Aliás, todos os serviços públicos têm de estar à altura do novo Brasil.''
 
Lula dizia que o Brasil aprendeu a transformar o demorado em rápido, o impossível em possível''. De fato, como se veria logo em seguida.
 
Ao refazer sua aposta na vitória da presidente sem segundo turno, apesar do cenário hoje adverso, o marqueteiro do PT deve crer que, passada o que chamou de "catarse emocional'', as reivindicações das ruas serão canalizadas para algo racional como a fala de Dilma em maio.
 
Resta saber se, depois de 12 anos de PT no poder e com a economia não tão dinâmica, a cliente de Santana terá credibilidade para vender ao eleitor não os efeitos especiais de um blockbuster chamado "Brasil'', mas os tais serviços padrão Fifa'' que os criadores dos cartazes de rua batizaram de forma tão genial. E de graça.

02 de julho de 2013
Vera Magalhães, Folha de São Paulo

UM GOVERNO "PADRÃO TAITI"

 
Fabio Pozzebom ABr 010713


Dilma Rousseff continua em seu castelo, alheia à realidade. A única resposta que consegue formular ao clamor das ruas é um plebiscito que não resolve nada e, ao que tudo indica, não terá como prosperar no Congresso.

A presidente acha que seu governo é “padrão Felipão”. Mais adequado, porém, é classificá-lo como de “padrão Taiti”, a seleção que tomou 24 gols em três jogos na Copa das Confederações.
 
Os atos de governo da presidente são o retrato acabado da ineficiência, a exemplo da inócua reunião ministerial realizada ontem – a terceira desde que tomou posse. Dilma juntou 36 dos seus 39 ministros no Palácio do Planalto. Provavelmente, sequer o nome de todos os presentes ela sabia. Muitos ali estavam vendo a chefe pessoalmente pela segunda ou terceira vez. Seleção que presta não joga assim.
 
Como era de se esperar, a sessão plenária não produziu nada de importante, além de arremedos de frases de efeito sopradas pelo marqueteiro que a presidente destilou em rara entrevista à imprensa.
Ela anunciou que “não fará demagogia” e “não cortará cargos que não ocupa”. É a velha Dilma de sempre: pensamentos sem sentido, ações desconjuntadas, palavras ao vento e nenhuma ação que valha.
 
A presidente poderia largar de lado o blábláblá. Ninguém está propondo a ela que corte vento, mas simplesmente que tome as medidas certas. Um governo composto por 39 ministérios – algo só inferior ao Sri Lanka em todo o mundo – e 22 mil cargos de confiança – todos fartamente ocupados pelos apaniguados do poder – tem muita gordura para queimar.
 
Ao fim do governo Fernando Henrique, o país tinha 24 pastas e funcionava muitíssimo bem. Lula deu início ao inchaço, criando 11 ministérios. Dilma já espetou mais quatro órgãos na Esplanada. Tudo leva a crer que o governo funcionaria bem melhor com metade do tamanho que tem hoje.
 
Apenas na Presidência da República estão penduradas 14 secretarias e lotados algo como 4 mil comissionados. Para carregar esta máquina paquidérmica, o governo gasta R$ 192,8 bilhões por ano somente para pagar o salário de quase 1 milhão de servidores, mostrou O Globo ontem. Quando se consideram todas as despesas de custeio, o gasto anual do Executivo sobe para R$ 611 bilhões.
 
A execução orçamentária que interessa o governo petista não consegue fazer. Na atual gestão, os dispêndios com saúde, educação, segurança e mobilidade são, sistematicamente, menores que os do governo Lula. O caso mais gritante é o dos transportes, em que apenas 8% do orçado desde 2011 foi investido.
 
O Valor Econômico mostra hoje que, neste ano, foram gastos R$ 3 bilhões de um total de R$ 13 bilhões em obras pelo Dnit, frustrando a promessa feita pelo governo de que este seria “o ano” para os investimentos públicos no setor. Como se vê, com o PT o que era ruim pode ficar ainda pior.
 
Ontem, mais uma vez, Dilma sinalizou que pretende viabilizar investimentos e, para tanto, pensa em fazer “ajustes” nas contas do governo. Não disse como, mas na sua balofa e derrotada seleção parece que não será. Seu ministro da Fazenda, contudo, já indicou quem é que vai pagar a conta: o meu, o seu, o nosso dinheiro de contribuinte.
 
Em entrevista publicada por O Globo no domingo, Guido Mantega disse que pode aumentar impostos para bancar as novas despesas que vêm sendo criadas. Isso depois de o governo petista distribuir pencas de benesses tributárias para setores eleitos e conceder empréstimos em condições camaradas a empresas amigas. Deve ser porque o PT não tem lá muito apreço pela classe média, como vocalizou Marilena Chauí recentemente…
 
Dilma Rousseff pode continuar sonhando em ver sua equipe de governo jogando o futebol-arte que a seleção de Felipão pôs em campo na Copa das Confederações.
Mas, com um time formado por 39 cabeças de bagre, o mais provável é que ela continue perdendo de goleada, num padrão capaz de deixar o Taiti no chinelo.

02 de julho de 2013
Instituto Teotônio Vilela

"PLEBISCITO QUE O PT QUER É GOLPE!"

 
 
PLEBISCITO É GOLPE 
 
Carta ao Leitor de VEJA da edição que está nas bancas
 
O plebiscito proposto pelo governo e pelo PT é um golpismo por diversos motivos.
 
Primeiro porque, se nin­guém de bom-senso discorda da tese de que o Brasil precisa de uma reforma do sistema político, também não se encontra ninguém igualmente sensato que ache que isso deva ser feito via consulta popular.
Segundo, por­que a iniciativa é uma tentativa rasteira do PT e do governo de mudar de assunto, de lançar uma cortina de fumaça entre eles e os clamores populares. Se há uma coisa que os manifestantes têm demonstrado à exaustão é que os brasileiros estão cansados de golpes baixos e promessas vãs.
Terceiro, porque não se faz plebiscito para jogar nos ombros das pessoas o peso de decisões sobre o fun­cionamento de coisas complexas.
As pessoas não podem ser obrigadas a decidir exata­mente como as instituições devem funcio­nar. Elas querem simplesmente que as insti­tuições funcionem bem. que os funcionários públicos sejam honestos, imparciais e efi­cientes, que os políticos representem seus eleitores nas assembleias e no Congresso.
Uma reportagem da edição desta semana de VEJA revela que o PT e o governo não estão genuinamente interessados na consulta popular.
Eles querem mesmo é usar o tempo de televisão destinado à discussão das questões a ser propostas no plebiscito para colocar Lula fazendo propaganda da presidente Dilma Rousseff, a candidata do partido à reeleição em 2014.
Isso é inaceitável.
Os brasileiros foram às ruas exigir a re­forma dos políticos, não uma reforma políti­ca.
Com seus cânticos, suas faixas e carta­zes. as pessoas cobraram honestidade, trans­parência e eficiência dos políticos e das au­toridades de todos os níveis e partidos.
Elas exigiram, principalmente, o fim da corrup­ção.
Ora, não requer muito tirocínio concluir que esses anseios podem e precisam ser atendidos imediatamente, na vigência do atual sistema político.
Não há razão alguma para que os políticos e as autoridades não possam começar desde já a ser e parecer ho­nestos e funcionais.
É escárnio fingir que is­so só é possível depois de um plebiscito em que se vai exigir dos brasileiros uma opinião sobre tecnicalidades de funcionamento das engrenagens eleitorais.
Isso equivale a médi­cos perguntarem a familiares de um paciente de UTI se eles estão de acordo com os remé­dios perfundidos ou com a porcentagem de oxigênio no tubo traqueal.
Obviamente, eles não vão saber responder. Mas isso não toma menos justo seu direito de que o paciente tenha o tratamento adequado.
Assim deve ser em relação às institui­ções. Não se pode colocar como pré-requi­sito para a honestidade, eficiência e transpa­rência delas que as pessoas sejam experts em detalhes de seu funcionamento.
Exigir isso é iludir a plateia. E a plateia tem demonstrado com todo o vigor que se cansou de ser iludida.
 
02 de julho de 2013
Editorial da revista Veja
 

RESISTÊNCIA A PLEBISCITO DE DILMA "TRAMBIQUE" CRESCE NO CONGRESSO

 
Presidente envia proposta de consulta popular, mas parlamento não deve se empenhar


Depois de ver sua popularidade despencar, a presidente Dilma Rousseff, que reuniu ontem 36 de seus 39 ministros na Granja do Torto, envia hoje ao Congresso uma proposta de plebiscito para uma reforma política, com a ressalva de que os partidos e os políticos é que definirão o que será perguntado. Apesar da atenção aos partidos e da esperança manifestada de que as alterações possam ser implementadas para as eleições do ano que vem, uma reforma política que valha já em 2014 começa a se tornar um sonho cada vez mais distante.

Dos 513 deputados, cerca de 240 pertencem aos três partidos da oposição e aos quatro partidos da base governista cujas lideranças já se colocaram publicamente contra a convocação de uma consulta popular ainda este ano. O tema, no entanto, ainda divide outras bancadas, inclusive a do próprio PT.
 
Para realizar o plebiscito o Congresso precisa aprovar um projeto de decreto legislativo, por maioria simples — ou seja, metade mais um dos presentes na votação. Este grupo de partidos que já pronunciou contra a consulta popular este ano, por meio de seus líderes, reúne 239 votos na Câmara, um quórum bem próximo de 257, que é maioria absoluta dos deputados. Além dos três maiores partidos de oposição — PSDB, DEM e PPS —, são contra o plebiscito este ano o PMDB, PP, PTB e PSC.
 
Deputados e senadores não estão dispostos a dar andamento tão célere à proposta. Eles consideram que, com a ideia do plebiscito, a presidente jogou o problema para eles, deixando-os com a bomba na mão e livrando-se de críticas. Hoje o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha, colocará o tema em debate na sua bancada. O líder pretende incluir dez propostas para serem votadas em um plebiscito, entre elas a possibilidade de instituir o parlamentarismo, o fim da reeleição e o mandato de cinco anos para todos os eleitos, pondo fim ao mandato de oito anos para senador. O ponto que o partido não abre mão é que o plebiscito não afete as eleições do próximo ano.
 
— Esse plebiscito vai custar dois Maracanãs. É um desperdício! E se fizermos agora e depois dissermos que só vai valer depois de 2014 o povo entra aqui na Câmara e quebra tudo. E com razão — ironiza Cunha, referindo-se a uma estimativa de que o plebiscito custaria cerca de R$ 2 bilhões.
 
O próprio vice-presidente da República, Michel Temer, reconhece que dificilmente seu partido apoiará a medida. Ele e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, se reuniram durante todo o fim de semana para preparar os pontos que o governo pretende que sejam votados. Os consensos são que qualquer reforma que não trate de sistema de votação e de financiamento de campanha será inócua. Para o líder do PP, Arthur Lira (AL), é inviável votar a pauta este ano:
 
— O que não dá é para o Congresso pagar essa conta. Não dá para colocar agora uma matéria de uma complexidade dessas. Não há tempo de costurar uma proposta exequível — defende Lira.
 
A reunião de Dilma com os ministros começou às 17h e até o fechamento desta edição não havia acabado. A própria presidente assumiu pela primeira vez o papel de porta-voz da reunião, e afirmou que um dos temas do encontro era fazer uma discussão aprofundada sobre o que se espera do pacto proposto com os governadores: responsabilidade fiscal, combate à corrupção e melhorias em saúde, educação e transporte. Além disso, destacou que o centro da reunião era a reforma política. Ela voltou a elogiar as manifestações populares.

— Essas manifestações trouxeram mudanças importantes no quadro político brasileiro e devem ser entendidas corretamente para que a energia que vimos e as mensagens da rua sejam entendidas — afirmou Dilma, diferenciando o processo brasileiro do que acontece em outros países do mundo, principalmente da Primavera Árabe, que enfrenta governos ditatoriais.
 
Ao defender o plebiscito, Dilma afirmou que os governos devem dar ouvidos à população.
 
— É importante ouvir uma questão que é a busca não só de um governo voltado para o povo, mas de um governo que quer que o povo participe e que enseja a participação popular. Uma proposta de consulta popular tem o sentido de transferir para a população o direito de ser consultada. Não é só a classe política que tem de ser consultada. O povo também.
 
Dilma antecipou que vai sugerir apenas alguns tópicos que, acredita, devem fazer parte da consulta popular, como financiamento de campanha e sistema de votação — proporcional, distrital ou distrital misto.
 
A presidente afirmou que espera que as mudanças aprovadas pelo plebiscito possam valer para eleições de 2014, mas disse que não é possível saber se isso acontecerá.

— Do nosso ponto de vista, seria de todo oportuno, mas não temos como definir isso. Depende do prazo que der o TSE, e depende, em função desse prazo, do Senado e da Câmara. Não tenho governabilidade sobre essa questão.
 
Com o objetivo de se aproximar mais dos movimentos sociais, Dilma anunciou que pretende retomar as conferências nacionais, muito comuns na época do ex-presitambém chamou para a reunião de ontem seus líderes no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM); na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), e no Congresso, José Pimentel (PT-CE).
 
Sem cortes nos gastos sociais
 
A presidente informou que pedirá a seus auxiliares que acelerem a gestão e a execução de projetos que já estão em andamento. Ela não quis comentar os índices da pesquisa Datafolha.
 
— Nunca comentei pesquisa, nem em cima nem embaixo. Recebo a pesquisa pelo valor de face. É um retrato do momento e temos de respeitar. O pacto nas ruas tem de tornar qualquer dirigente político e qualquer governante mais acessível à discussão. Vocês vão me ver muito discutindo com vocês e também entrevistada.
 
Perguntada se considerava seu governo padrão Fifa, em termos de eficiência, ela contestou:
 
— Padrão Fifa, não. Meu governo é padrão Felipão — afirmou, em referência ao técnico da seleção brasileira que no domingo foi campeão da Copa das Confederações.
 
Ela também voltou a dizer que não cortará gastos sociais nem reduzirá o Bolsa Família. Sobre uma suposta reforma administrativa, a presidente afirmou que não falaria sobre o assunto, mas criticou aqueles que a atacam por conta do número de ministérios.
 
— Não farei demagogia de cortar cargos que eu não ocupo. Tentarei olhar de onde e em que setor é possível fazer ajustes. Não faço demagogia.dente Luiz Inácio Lula da Silva. Ela

02 de julho de 2013
Chico de Gois, Luiza Damé, Catarina Alencastro e Paulo Celso Pereira - O Globo

"CATARSE TEMPORÁRIA"

 
O marqueteiro João Santana atribui a queda de 27 pontos na popularidade de Dilma (sem contar os 8 pré-manifestações) a uma "catarse temporária", prevendo que a presidente renascerá das cinzas qual uma fênix e vencerá no primeiro turno em 2014. Possível quase tudo é, mas não será nada fácil.
 
Fernando Henrique e Lula também bateram no fundo do poço e voltaram à tona, em especial Lula, que afundou no mensalão em 2005, foi reeleito em 2006 e virou o presidente mais popular da história. Mas FHC tem inteligência política, Lula tem um faro extraordinário, e ambos tinham time. Faltam a Dilma bagagem, instrumental e equipe.
 
Não é com Mercadante na política, Mantega na economia e Gleisi na prateleira que a presidente vai pular a fogueira e superar a crise. Muito menos contrapondo o plebiscito da reforma política aos péssimos serviços à população e aos maus índices e presságios da economia.
 
O Datafolha confirma que o estrago não foi só em Dilma e pegou em cheio desde governadores, como o veterano Alckmin, a prefeitos, como o promissor Haddad, mas um dado sobressai: a pior avaliação dela é entre os mais jovens. Pode significar que eles estão jogando o PT no mesmo balaio dos demais partidos e de todo o resto. Fim do sonho.
 
Os maiores adversários de Dilma neste momento, aliás, são a perda do encanto e o pavor do PT e da base aliada diante da perspectiva de perda de poder --e de verbas, cargos, carros, viagens, secretárias...
 
E o maior aliado de Dilma é o tempo. Da "catarse temporária" até a eleição serão 15 meses, mais do que suficiente para reviravoltas, especialmente se nenhum candidato real, de carne e osso, ocupar o vácuo de liderança e de expectativas.
 
O tempo, porém, não é tudo. É preciso saber ocupá-lo. Há dúvidas se Dilma, convocando plebiscitos e reuniões ministeriais e compensando suas fragilidades com demonstrações de força, saberá.

02 de julho de 2013
Eliane Cantanhede, Folha de São Paulo

"NOSSA SENHORA DO PLANO B"

Dilma Rousseff tem pouco tempo e meios para fazer reforma útil e politicamente rentável para si
 

NÃO É ELEGANTE nem preciso dizer que Dilma Rousseff tornou-se o bode expiatório da crise, mas recaiu sobre a presidente a maioria das pragas e pedras lançadas nas ruas, pelo menos entre os políticos mais importantes.
 
A deselegância fica por conta da comparação zoológica; a imprecisão está em sugerir que Dilma não mereça também sua cota de malhação.
 
O povo bate talvez porque "l'État c'est elle", o "Estado é ela", porque consideramos presidentes como reis e rainhas da cocada preta, pois encarnam a ideia de "coisas do governo" ao lado de uma massa indiferenciada e inominada de "políticos", em geral parlamentares, os membros da "corte corrupta", nossa versão de Versalhes. Em suma, com dois anos e meio de governo do Executivo federal, Dilma paga também novas e velhas contas municipais, estaduais, parlamentares, embora não seja protestada especificiamente por suas principais dívidas.
 
Isto posto, o que Dilma fazer para se livrar do imenso mau olhado que em uma quinzena passou a receber do eleitorado?
 
Mesmo que tenha uma revelação damascena, que veja a luz na estrada estropiada da economia, Dilma não vai ganhar muito com isso. A princípio, melhorias na política econômica vão causar estragos na vida do eleitorado. Uma ínfima elite talvez perceba os benefícios da eventual virada. Mas boa parte dessa elite vai achar apenas que Dilma então não terá feito mais do que sua obrigação, e olhe lá.
 
"Saúde, educação e transporte" são projetos para décadas (umas duas), se houver projeto (não há) e consenso sobre obtenção e redivisão de recursos públicos (o dinheiro não está numa arca roubada por Versalhes).

De resto, tais assunto não dependem só (ou dependem pouco) de Dilma, que, no entanto, jamais deu bola para a educação primária, a escassez e desordem do SUS e para a privatização à matroca da saúde. Educação primária não é responsabilidade federal, mas, sem liderança presidencial, não vai.

Dilma pode inventar umas pirotecnias demagógicas, tais como essas do Congresso (royalties para educação, crimes hediondos etc.). Enxugar o ministério monstro seria útil, embora café pequeno, e pode ou não colar bem ("por que só agora?", o povo pode perguntar).

Reforma séria, que não é a política, demora tempo para projetar, negociar e implementar. Se a "voz das ruas" tivesse um megafone reconhecível, organização e liderança legítimas, poderia haver uma negociação séria, tentativa de aprendizado coletivo e deliberações a respeito do que é preciso fazer, pactos críveis. Por ora, não há.

Talvez Dilma e o PT tenham de lembrar aos movimentos sociais "cooptados" e povo miúdo que a vida deles melhorou um tico (investir na divisão social e política). "Cooptados", entre aspas: quando a gente concorda com o povo, "o Brasil acordou"; quando não concorda, ele é um idiota manipulado que apoia governos em troca de migalhas.

Mas não vai bastar, dada a presente ira. Aí que mora o perigo: invencionices, tal como a reforma política, tentativas de engenharia institucional que tendem a dar apenas num Frankenstein novo. Na falta de tempo, de ideias, de política, o governo pode ficar tentado a vir com mais mágicas e milagres.

02 de julho de 2013
Vinicius Torres Freire, Folha de São Paulo