"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



domingo, 16 de junho de 2013

DILMA E ALCKMIN LIDERAM AS PESQUISAS DO DATAFOLHA EM SÃO PAULO



A Folha de São Paulo publicou reportagem sobre a pesquisa que o Datafolha concluiu recentemente sobre a posição dos principais possíveis candidatos ao governo paulista. O governador Geraldo Alckmim, que disputa a reeleição, lidera por ampla margem, hora registrando 53% das intenções de voto, hora 50 pontos. Praticamente na mesma faixa percentual em que seu governo recebe aprovação popular, mais no interior do que na capital. Para a Folha de São Paulo, a explicação é a violência que vem ocorrendo de forma ameaçadora na cidade.
 
A pesquisa revelou uma surpresa: a boa colocação do presidente da Federação das Indústrias, Paulo Skaf, que se inscreveu no PMDB a convite do vice-presidente da República, Michel Temer, para concorrer ao Palácio dos Bandeirantes. Ele oscila entre 15 a 16%, é o segundo colocado, à frente do senador Aloiz io Mercadante, que registra 11 pontos e do ex-prefeito Gilberto Kassab, que tem entre 8 e 9%. O ministro Alexandre Padilha, do PT da mesma forma que Mercadante, está com 3%.
 
MARTA DE FORA

 O Datafolha não colocou a senadora Marta Suplicy entre as candidaturas prováveis ou possíveis. Foi uma pena. Porque com a inclusão da atual ministra da Cultura, estaria praticamente completo o leque de opções do PT. Isso porque o nome do senador Eduardo Suplicy sofre restrições dentro da própria legenda. O levantamento, entretanto, apresenta um dado curioso capaz de dar margem a uma análise interessante. A aprovação favorável de Geraldo Alckmim se dá inclusive entre os que, em São Paulo, aprovam o governo Dilma Rousseff no plano federal. Assinala a Folha de São Paulo que o índice favorável à administração estadual está registrada inclusive entre os 60% dos paulistas que aprovam o governo Dilma Rousseff.
 
O Datafolha não cruzou as superposições de voto entre Dilma, no plano federal, e Alckmim na área estadual. Mas pela aprovação conjunta de ambos, os fatos levam a uma convergência nãopartidária. O fenômeno abala um pouco pelo menos a tese do palanque comum nos estados entre os candidatos do PT e do PMDB, a combinação mais forte que, ao lado do PSB, compões a base aliada no universo parlamentar, portanto no Congresso Nacional. Mais uma vez, acentua-se a tendência de que a maior parte do eleitorado vota mais no candidato do que no partido. Não que o partido não tenha importância. Tem. A começar pela distribuição do tempo de propaganda política na televisão e no rádio. Porém é relativa, não se constitui em fator absoluto.
 
Tanto assim que, em São Paulo, o empresário Paulo Skaf, que nunca foi lançado candidato, ocupa o segundo lugar na pesquisa do Datafolha para o governo de São Paulo. Possivelmente vai concorrer pelo PMDB e, até o momento, ninguém do PT levantou qualquer restrição à agremiação aliada por essa disposição, por essa tendência, assumida é lógico por boa parte dos candidatos do partido à Câmara Federal e à Assembleia Legislativa. Pois, presumem, Paulo Skaf significa a aplicação de fortes recursos financeiros na campanha política de 2014, de modo geral. Podem estar enganados, o futuro dirá, mas que o pensamento leva à suposição tem lá sua lógica. Paulo Skaf quer disputar o pleito, de fato. A pesquisa do Datafolha deve tê-lo entusiasmado. Afinal 15 e 16 pontos não é fácil conseguir de saída.

A pesquisa apresenta a hipótese (apenas hipótese) de Lula vir a ser candidato a governador. Neste caso, a margem de Alckmim cai dez pontos. Ficaria com 42, Lula 26. Não que Alckmim seja mais forte nas urnas, mas porque todos sabem que Lula não disputará o governo estadual.

16 de junho de 2013
Pedro do Coutto

O HUMOR GENIAL DO DUKE

Charge O Tempo 16/06



16 de junho de 2013

NO PARANÁ, AO LADO DO LOBISTA-FUGITIVO, DILMA VOLTA A AFIRMA QUE A INFLAÇÃO ESTÁ SOB CONTROLE

 

Doença irreversível – Lobista de empreiteiros e dono do governo da companheira Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio da Silva continua fugindo da imprensa, pois só assim escapa de perguntas sobre escândalos de corrupção, começando pelo Rosegate.

Lula, que só aparece diante de plateias esquerdistas e compostas por aduladores amestrados, participou de evento em Pinhais, cidade da região metropolitana de Curitiba, ocasião em que novamente abusou da mitomania.

Ao lado de seu antecessor e mentor eleitoral, Dilma mais uma vez não se preocupou em balbuciar mentiras e voltou a afirmar que a inflação está sob controle. “Nós estamos controlando efetivamente a inflação. (…) Nós não iremos deixar a inflação ficar fora de controle. Quem apostar, quem duvidar que o governo brasileiro, que o meu governo vai deixar a inflação ficar fora de controle, vai perder e vai perder feio”, afirmou a presidente”, declarou a presidente.

A afirmação sobre o suposto controle da inflação é tão ridícula, que Dilma transformou-se em alvo de chistes na imprensa nacional. Até mesmo nos telejornais que passam regularmente no caixa do Palácio do Planalto os apresentadores sentem-se constrangidos diante da necessidade de noticiar o fato.

Como sempre destacamos, Dilma Rousseff pode declarar o que quiser, pois afinal ainda vivemos em uma democracia, mesmo que em tese. O que não se pode aceitar é que a presidente ignore a realidade dos fatos e tente enganar a parcela desavisada da população.

Para se ter ideia da extensão do absurdo que representa o discurso da presidente acerca da inflação, o setor de alimentos vem fazendo reajuste de preços de forma constante. No vácuo desse movimento está o fenômeno da percepção inflacionária, que leva diversos segmentos da economia ao temido aumento generalizado de preços.

Em conversa com o ucho.info, um empresário do setor de alimentos disse que somente nesta semana foi obrigado a alterar a tabela de preços dos produtos que fábrica. A explicação para esse preocupante aumento está na disparada da moeda norte-americana. Apesar de eventuais recuos do dólar, os preços dos produtos ficarão como estão.

16 de junho de 2013
ucho.info

NOTAS POLÍTICAS DO JORNALISTA ELIO GASPARI

"A página esquecida da cultura brasileira"
 
Morreu Jacob Gorender, tendo deixado seu magnífico “Combate nas trevas”, em que conta as ilusões armadas da esquerda brasileira nos anos 70. Com ele, foi-se um pedaço da memória da usina de livros e fascículos da editora Abril, produto da visão empresarial de Victor Civita.
 
“Seu” Victor achava que a história segundo a qual brasileiro não lê era uma lenda e decidiu lançar uma coleção intitulada “Gênios da literatura universal”. A cada semana, punha nas bancas de jornais um grande romance, acompanhado por um fascículo com a vida do autor.

Começou com “Os Irmãos Karamázov”, anunciando que a série teria 50 volumes. Deram-no por doido, pois, se o primeiro livro vendesse menos de 50 mil exemplares, a coleção iria a pique. Ele informou: “Vocês são contra, mas eu tenho 51% das ações, e isso será feito.” Dostoiévski vendeu 270 mil exemplares.
Seguiram-se os “Gênios da literatura brasileira”, “Os economistas” e os “Os pensadores”. Platão vendeu 250 mil exemplares. As coleções da Abril levaram para as bancas de jornais cerca de 12 milhões de livros, e ela tornou-se a maior editora de livros de filosofia do mundo.
 
Nesse empreendimento, estiveram o diretor da operação, Pedro Paulo Poppovic, e a rede de intelectuais por ele mobilizada. Nela, havia 300 professores que a ditadura deixara sem trabalho. Jacob Gorender traduzia filósofos alemães numa cela do presídio Tiradentes, e Pedro Paulo publicava seu trabalho com o nome da mulher, Idealina.

Libertado, tornou-se funcionário da Abril Cultural, trabalhando ao lado de uma jovem que gostava de teatro chamada Maria Adelaide Amaral. A coleção “Os pensadores” foi dirigida pelos filósofos José Américo Motta Pessanha (posto para fora da UFRJ), com o apoio de José Arthur Giannotti (cassado pela USP). A redação dos fascículos era dirigida por Ari Coelho, professor de Química expulso da Universidade de Brasília.
 
Poppovic calcula que a polícia visitou a Abril Cultural em pelo menos 15 ocasiões. Em alguns casos, os redatores valiam-se de uma rota de fuga. Ele lembra que, em nenhum momento, Civita perguntou-lhe quem trabalhava lá, nem o que a polícia queria.
 
Um dia, alguém resgatará a história do maior empreendimento cultural ocorrido durante a ditadura, com o mais absoluto sucesso.
 
 
A Fiocruz e a porta giratória da Axismed
 
O presidente da Fiocruz, doutor Paulo Gadelha, contesta a nota aqui publicada informando que a instituição entregou a diretoria executiva do seu plano de saúde a José Antonio Diniz de Oliveira, estranho aos quadros da fundação, que trabalhou na empresa Axismed. No cargo, ele teria transferido exatamente para a Axismed a gestão da FioSaúde.
 
Tem toda a razão. A Fiocruz ainda não assinou qualquer contrato com a Axismed. Fica aqui o reparo.
 
Na sua reunião de 22 de abril, a diretoria colegiada da FioSaúde deliberou sobre o “aceite da proposta da Axismed" para o programa de atenção a doentes crônicos e classificou ao caso o status de “concluído”. Na semana passada, o conselho da FioSaúde adiou para o fim do mês a decisão final sobre essa proposta.
 
No dia 22 de março, a FioSaúde divulgou uma apresentação de 45 páginas tratando dos seus serviços em termos gerais. Nela, um capítulo e uma tabela tinham o seguinte título: “Destaques do Plano de Trabalho 2013”. A fonte da tabela era a Axismed.
 
Cada capítulo tinha um provérbio como epígrafe. O do “Plano de Trabalho 2013”, saído da sabedoria chinesa, ensinava: “Nós até podemos escolher o que semear, mas necessariamente vamos colher o que plantamos.”
 
A Fiocruz disse que seu programa de visitas hospitalares não fora cancelado. No dia 5 passado, o diretor técnico da FioSaúde informou à sua equipe: “O programa ‘Visita Hospitalar’ foi de fato cancelado”.
 
 
Bom humor
 
O deputado Henrique Alves mal tinha assumido a Presidência da República na interinidade resultante da viagem da doutora Dilma a Portugal, e tocou o telefone. Era o vice-presidente Michel Temer, que estava em Paris. Alves foi rápido:
 
“Muito obrigado pelo telefonema, Temer, mas não me peça cargos para o PMDB.”
 
Paris é uma festa. Fica perto da Vandália, no leste da Alemanha, mas longe dos vândalos. Na semana passada, com o Centro de São Paulo conflagrado, lá estavam também o governador Geraldo Alckmin e o prefeito Fernando Haddad. Como diria a romancista Françoise Sagan, “é melhor chorar num Rolls-Royce do que rir num ônibus”.
 
 
Passe livre
 
 
O Movimento Passe Livre sustenta que o transporte público deve ser gratuito. É maluquice, mas o MPL do andar de cima, sustentado pela Viúva, existe e vai bem, obrigado.
 
Num cálculo paternal, há hoje pelo menos 15 mil maganos que não pagam transporte e têm motorista. Os governos simplesmente não sabem o tamanho de suas frotas.
 
Cada hierarca justifica a necessidade de ter carro e motorista. O que nenhum deles explica é por que na Corte Suprema dos Estados Unidos só o presidente do tribunal usufrui desse mimo.
 
Quando Lawrence Summers era o principal assessor econômico do companheiro Obama, queixou-se de que não tinha carro oficial. Continuou queixando-se, até ir embora.
 
 
Pedra cantada
 
Depois de vender o Hotel Glória, quando a administração do Maracanã privatizado ficar de pé, Eike Batista deverá colocar no mercado a IMX, sua empresa de eventos, na qual o estádio é a joia da coroa.
 
 
Registro
 
Na noite de quinta-feira, antes de a PM paulista ter provocado a batalha da Maria Antônia 2.0, os manifestantes que estavam diante da escadaria do Teatro Municipal cuidavam para que o trânsito da Rua Xavier de Toledo fluísse normalmente. Nenhum policial fazia esse serviço.
 
Pouco antes das 18h, quando a multidão engordou, quem parou os carros não foi qualquer jovem, muito menos punk com cabelo de moicano. Foi o doutor Plínio de Arruda Sampaio, de 82 anos, fundador do PT e militante do PSOL. Com a mão espalmada, ele parou um ônibus e ficou conversando. Pouco depois, foi para uma calçada.
 
Durante o bloqueio, os manifestantes abriram espaço para a passagem de três furgões da polícia.
 
 
Xenofobia
 
Em 1997, quando o tucanato contratou empresa de consultoria para pesquisar um modelo para o comércio internacional brasileiro em Brasília e nas embaixadas no exterior, houve algumas caras feias. Parecia estranho entregar a uma empresa internacional livros da diplomacia de Pindorama. Coisa de xenófobos que não entendiam o fenômeno da globalização. Anos depois, a mesma empresa entregou ao Ministério da Fazenda um estudo para a reestruturação do sistema financeiro nacional.
 
Agora se vê que a empresa centenária, dividida em duas, isoladas, ficou com dois braços. Um só opera com o governo americano, tendo se tornado um grande prestador de serviços de segurança, inclusive para a National Security Agency. Nela, trabalhava Edward Snowden, o jovem de 29 anos que detonou o grampo mundial do companheiro Obama.

16 de junho de 2013
Elio Gaspari, O Globo

MEU PROTESTO - É FOGO EM NÓS? FOGO NELES.



"São Paulo está sob intenso ataque,  numa guerra  suja e covarde, que a mídia assustada  chama de 'Protesto'” (Foto: Gabriela Batista)
"São Paulo está sob intenso ataque, numa guerra suja e covarde, que a mídia assustada chama de 'Protesto'” (Foto: Gabriela Batista)


MEU PROTESTO: É FOGO EM NÓS? FOGO NELES
 
Fogo deles se responde com fogo neles, é legítima defesa. São Paulo está sob intenso ataque, numa guerra suja e covarde, que a mídia assustada chama de “Protesto”, protesto uma pinoia; terrorismo. É fogo neles se mandarem fogo em nós. Reinaldo Azevedo procurou e achou: o Movimento Passe Livre (MPL) tem um site, com um site para São Paulo.
 
Está em nome da Associação Cultural Alquimídia. O MPL recebe dinheiro da Petrobrás e do Ministério da Cultura e tem incentivo da Lei Rouanet. Seu chefão, um tal de Thiago Skárnio, deve estar escarnecendo da gente por fazer um cruel movimento contra o povo, com dinheiro dos impostos ralados do couro do povo, já em carne viva.
 
É cada vez mais violento, incendiando e destruindo o transporte público no qual exigem viajar sem pagar, paralisando a cidade e prejudicando a massa trabalhadora que vive em São Paulo.
 
O MPL tem apoio de organizados quadros do PSTU, PCO, PSOL, setores do PT, UNE, PDZ (Partido Zé Dirceu), que não trabalham e vivem de mesada oficial, dando uma banana pra quem sua a camisa. E de estudantes riquinhos de escolas particulares de grife, já beneficiados pelo Passe Livre que desfrutam nos carros de luxo das mamães e dos papais. Não poucos, vão e voltam das manifestações com motoristas bem educados, que se mantém distantes da baderna.
 
A ação que parece ser interminável, é outra tentiva de desestabilizar Alckmin, criando “Um, dois, três, muitos Vietnãs” (em São Paulo), palavra de ordem de Régis Debray, guru do aposentado “foquismo”.
 
Buscam confronto violento com a PM para a produção de um cadáver jovem e heróico, cujo corpo possa ser carregado pelas ruas e conseguir repercussão mundial.
 
A PM não tem saída. Se não endurece, é “mole”, culpa do Alckmin; se endurece, é violenta, culpa do Alckmin.
 
Se me perguntassem “Que fazer”, como o livro-panfleto de Lênin, marquetero amador e pacifista que sou, recomendaria “É fogo em nós ? Fogo neles”. Como pacifista, desejo o rápido fim do confronto para que se estabeleça a “Pax Neílica”, com eles nas masmorras em prisão perpétua.
 
Como efeito colateral, deram um tiro no pé do brimo Haddad, que também despencou. Fujão, a tudo assistiu corajosamente de Paris em tempo real pela tv, como prometeu.
 
O pico da baderna aqui foi mais ou menos à 6 da tarde, com a queima de ônibus no Centrão, o que pelo fuso horário é 10 da noite em Paris. Atrapalhou seu frugal jantar, talvez no modesto Ritz da Place Vendôme.
 
Nessa mesma Paris que é refúgio de militantes petistas 5 Estrelas — o poeta Chiquê Buarquê du Holandá, festejado autor do verso “Voto no Lula porque estou acostumado” — asilaram-se os sapatinhos de solas vermelhas da Vovó Periguete Martaxa, quando foi Prefeita.
 
São Paulo enlameou e parou com uma inundação, ela sumiu com seus delicados pésinhos; granfina, foi flagrada relaxando e gozando em Paris. Paris é uma festa, já dizia Papa Hemingway.
 
Em outra eleição, o PT uniu-se ao PCC (Primeiro Comando da Capital), disciplinado e bem armado exército do crime organizado, formando o PTCC para paralisar São Paulo pelo terrorismo a cada subida do Alckmin nas pesquisas.
 
As pesquisas estão aí de novo. No Datafolha, Dilma caiu 8 pontos, de 65 para 57. O “país dos mais de 80%”, principal curral eleitoral do lulo-petismo-dilmismo (duvido que haja dilmismo, mas não há o que não haja) caiu para “o país dos 57%”, uma queda de 23 pontos — um pequeno passo para a Humanidade, um grande passo para o Brasil.
 
Aécio sobe de 10 para 14; 10 pra 14 são 40%. Alckmin ganha dos adversários no 1º turno em qualquer cenário e dá uma coça no Lula O Mudo, se ele se meter a ganhar o Estado de São Paulo, a Joia da Coroa. A baderna aparece aí de novo. Coincidência?
 
Se Dilma depois da queda está aos prantos ou nem aí pro Datafolha — está demais de aí; apareceu com a Bolsa Eletrodoméstico pra comprar mais votos — eu não estou nem aí pra ela; com todo respeito, quero que se exploda.
 
Me preocupa (sintaxe do livro didático “Nós pesca os peixe) é ver o capinha-preta Toffoli ameaçar que o Julgamento do Mensalão vai durar mais uns dois anos. Como adverti na coluna “Advertência (…)” não é impossível que os mensaleiros saiam livres, leves e soltos.
 
O novo Ministro Barroso, antes mesmo de vestir a capa-preta, declarou fora dos autos que o “O STF foi duro” (no Julgamento do Mensalão) e (representou) “Um ponto fora da curva”.
 
Com ele, o Julgamento seria “mole”, que sei muito bem o que é; e “um ponto dentro da curva”, que não tenho a menor ideia do seja.
 
Suspeito de que ele é um deles e nesses dois anos previstos pelo capinha -preta Toffoli, supostamente veríamos as sentenças mudadas, sem endurecimento nem ponto fora da curva. “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás” (Guevara).
 
Dilma caindo, Alckmin subindo , Aécio dando um salto de 40%, baderna nas ruas. Com 51 pontos de intenção de votos, Dilma pode vencer com folga. Se cair para 49, vamos começar a sentir o mau cheiro de “Lula-lá” em 2014.

16 de junho de 2013
Por Neil radical Ferreira, publicado no Diário do Comércio da Associação Comercial de São Paulo

"DONA DILMA POR MARES NUNCA DANTES NAVEGADOS"

 
A presidente Dilma Rousseff converteu o Velho do Restelo, uma das grandes figuras camonianas, um homem de "saber só de experiências feito", em um petista enrustido. Na descrição dilmiana, "esse velho ficava sentado na praia azarando" e repetindo, diante de toda experiência nova, uma frase agourenta: "Não vai dar certo". Era uma figura do contra, como os opositores da Constituição de 1988, do Proer (depois apontado ao mundo como exemplo pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva), do Plano Real, do pagamento da dívida pública e, naturalmente, da Lei de Responsabilidade Fiscal.
 
Não se sabe se a presidente leu Os Lusíadas ou se apenas ouviu a história, resumida toscamente, quando passou pela praia do Restelo, em sua recente viagem a Portugal. Se leu, entendeu mal, reduzindo o enredo e uma grande figura às dimensões de uma visão chinfrim, injusta em relação ao poeta e àquela personagem.
 
 
Camões descreve o velho com respeito e atribui-lhe um discurso bem articulado e com argumentos ponderáveis. A multidão está na praia para assistir ao início de mais uma expedição a um mundo quase desconhecido. A cena ganha movimento e vida com o destaque de algumas personagens, a mãe chorosa, a esposa desconsolada ("nosso amor, nosso vão contentamento,/ quereis que com as velas leve o vento?") e, finalmente, a figura de aparência veneranda, "postos em nós os olhos, meneando/ três vezes a cabeça, descontente,/ a voz pausada um pouco alevantando". Não era um tolo nem um letrado, mas um homem "cum saber só de experiências feito".
 
A peroração do velho ocupa as dez estrofes finais - 80 versos, portanto - do quarto canto do poema. Em nenhum momento ele dá como certo um fim trágico para os navegantes, embora aponte os perigos e lamente "o desprezo da vida". É outro o assunto da maior parte, a mais importante, de sua fala. Ele pergunta, em resumo, se vale a pena o esforço para conquistar mares e terras distantes e cheios de perigos em vez de proteger Portugal dos inimigos vizinhos e de explorar, mesmo com a guerra, as oportunidades mais próximas.
 
"Não tens junto comtigo o Ismaelita/ com quem sempre terás guerras sobejas?" Depois, referindo-se ao infiel: "Não tem cidades mil, terra infinita,/ se terras e riquezas mais desejas?" É um raciocínio estratégico. Não seria mais vantajoso proteger o reino da ameaça próxima e, se fosse o caso de ampliar os domínios portugueses, tentar a conquista das "cidades mil" e da "terra infinita" dos seguidores do Alcorão? Essa alternativa atenderia também a quem desejasse a glória da guerra e da vitória contra um adversário de respeito: "Não he elle por armas esforçado, se queres por victórias ser louvado?".
 
Em sua versão do episódio, a presidente Dilma Rousseff menciona a fala do velho sobre a motivação da vã glória. Mas passa longe, mais uma vez, do significado da peroração. As primeiras palavras têm um tom moralista. "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça desta vaidade a que chamamos fama! (...) Que mortes, que perigos, que tormentas/ que crueldades neles exp'rimentas!" Mas o discurso logo incorpora outras preocupações: "Dura inquietação da alma e da vida,/ fonte de desemparos e adultérios,/ sagaz consumidora conhecida/ de fazendas, de reinos e de impérios! (...) Chamam-te fama e glória soberana,/ nomes com que se o povo néscio engana".
 
Em linguagem menos poética: fama e glória têm custos e esses custos podem ser - e são com frequência - muito elevados. Os versos mencionam "fazendas" (patrimônio), "reinos e impérios". Adiante, a argumentação é ampliada, com a referência ao perigo dos ismaelitas e às possibilidades de conquistas em áreas mais próximas. Ao discutir a aventura em mares e reinos longínquos, o velho confronta a iniciativa mais ambiciosa e arriscada com uma política alternativa, mais prudente em sua opinião. Não se trata de mero pessimismo ou de mania de ser do contra. Sem forçar a interpretação, pode-se descrever o discurso do velho como um exercício no campo das decisões estratégicas e da alocação de recursos.
 
Com um saber derivado só da experiência, ele demonstra, no entanto, uma capacidade respeitável de refletir sobre os interesses do reino e sobre a necessidade de cálculo e de prudência. De nenhum modo Camões despreza esse tipo de sabedoria. No primeiro verso do canto quinto, a figura da praia ainda é lembrada como um "velho honrado".
 
Não há resposta direta ao discurso de advertência. A resposta indireta é o poema todo, como celebração da audácia e da glória dos navegadores, sintetizada na proeza de Vasco da Gama, e da grandeza de Portugal. Talvez os defensores da grande aventura marítima tivessem razão naquele momento. No longo prazo, no entanto, a história parece ter realçado a sabedoria do velho.
 
No mínimo, teria sido prudente conciliar a ousadia dos descobrimentos e da conquista dos mares com a modernização e o fortalecimento econômico do próprio reino. A Inglaterra, núcleo da revolução industrial no século 18, continuou sendo a grande potência europeia depois de perder as 13 colônias americanas.
 
Portugal perdeu o brilho muito antes da independência de suas últimas colônias na África. De certa forma, a história econômica portuguesa recomeçou com o ingresso na União Europeia e com o empuxo dos investimentos financiados pelo bloco.
 
No Brasil, a prudência do Velho do Restelo teria recomendado a combinação, há muito tempo, de rigor fiscal, metas de inflação mais baixas, modernização institucional e maior atenção à produtividade. Até a crise, o governo petista preferiu ver o País subir com a maré da prosperidade global. Depois, limitou-se a remendos e continuou dedicado a objetivos eleitorais. Mas política séria daria trabalho. Como escreveu outro poeta, o italiano Cesare Pavese, "lavorare stanca". 

16 de junho de 2013
Rolf Kuntz, O Estado de São Paulo

EM ATO EM SÃO PAULO, MANIFESTANTES CRITICAM DILMA E "BOLSA-ESTRUPO"

 


 
Com cartazes, carro de som e gritos coletivos, aproximadamente 700 pessoas se reuniram na frente da Catedral da Sé, no centro de São Paulo, na tarde deste sábado, 15, em protesto contra o projeto que prevê a criação do Estatuto do Nascituro, em tramitação na Câmara dos Deputados. Nascituro é o ser humano concebido, mas ainda não nascido, de acordo com o estatuto, que dá direitos ao embrião e cria incentivos com o objetivo de evitar abortos mesmo em casos que hoje são autorizados.
 
Em sua maioria mulheres, parte delas ligadas a movimentos feministas, os manifestantes portavam cartazes defendendo a descriminalização do aborto e criticando a pensão alimentícia que o estatuto propõe para mulheres que engravidarem em ato de violência sexual – o que vem sendo chamado de bolsa-estupro.
 


O microfone ficou aberto durante a maior parte do ato, a partir das 13h30, e, no discurso de várias mulheres, além de críticas à Igreja e à bancada evangélica, foram ouvidas cobranças à presidente Dilma Rousseff.
 
“Queremos um posicionamento da presidente Dilma, que é mulher. Ela não pode ficar calada. Presidenta, abra a boca. Diga o que você pensa sobre o projeto. Se é favor do nascituro ou se é a favor das mulheres. Se está do lado do estuprador ou da vítima. Queremos que os governantes se coloquem”, disse Paula Kaufmann, de 21 anos, integrante do coletivo Juntas, formado por jovens feministas. Ela levava um cartaz que dizia “Meu corpo minhas regras”.
 

 
Com um cartaz dizendo “Somos mulheres, não incubadoras”, Evelyn Nimtz, de 29 anos, disse que veio ao evento para defender a descriminalização do aborto e o direito de a mulher decidir se deve levar adiante ou não uma gravidez. “Queremos o apoio do governo caso eu decida abortar. Quero poder fazer em um hospital público e seguro”, disse, ao lado da amiga Isabele Bargmann, que carregava cartaz com a frase “Estuprador não é pai”.
 

 
Entre os vários gritos de guerra ouvidos na praça, cantados também pela minoria de homens que compareceu, estavam: “Estuprador é na prisão, com a bolsa-estupro ele vai para a certidão”, “Cadê o homem que engravidou? Por que o crime é da mulher que abortou?” e “Se o papa fosse mulher, o aborto seria legal. Seria legal e seguro”.
 
Às 16h, o movimento, que estava inteiro na praça, começou a circular por ruas próximas, mas voltou ao local menos de 30 minutos depois. A manifestação encerrou às 16h45. O protesto foi organizado no Facebook a partir de uma página publicada pelo movimento Machismo Nosso de Cada Dia. 17 mil pessoas haviam confirmado, nas redes sociais, presença no evento.
 

 
DISCUSSÃO. Durante o ato, havia cerca de 10 pessoas contrárias ao aborto em pé na entrada da Cadetral da Sé rezando. Uma discussão se formou depois que um homem que estava rezando colocou a mão sobre a cabeça de uma mulher. “Ele parecia querer me exorcizar. Foi uma agressão simbólica”, disse Giselle dos Anjos Santos, de 27 anos, historiadora. Lucas de Carvalho, de 33 anos, disse que estava apenas rezando por ela. “Não exorcizei porque não tenho esse poder. Estava rezando para que ela tivesse a paz de Cristo no coração dela”, disse Lucas, que estava com o filho.
 


 
Ao perceber a discussão, ainda que pacífica, entre Lucas e algumas amigas de Giselle, a maioria dos manifestantes – que se espalhava pela praça da Sé – resolveu se aproximar mais da igreja. “Vem, vem, vem para a escada, vem contra o estatuto”, gritaram os manifestantes. Algumas pessoas ficaram tensas, mas não houve agressão.
 
Depois de algum tempo dividindo as escadas, as pessoas que rezavam na entrada da igreja se uniram em uma roda de oração, ao final da qual se retiraram sob fortes vaias e mais cantos.



Uma das pessoas que se posicionavam contra o aborto era a escritora Mônica Lopes, de 47 anos. Ela carregava um banner com uma imagem de rosto de Jesus Cristo, com 1,5 m de altura. “Sou radicalmente contra o aborto. Eles vieram protestar na frente da igreja e eu vim proteger a minha fé”, disse Mônica, católica, que assistiu à missa que terminou ao meio-dia e resolveu ficar no local.



PASSE-LIVRE. Durante o ato, foram lembrados os protestos contra tarifa de transporte público municipal, que vêm sendo organizados pelo Movimento Passe Livre. O público aplaudiu muito cada menção às manifestações e foi convidado a comparecer à próxima, que está marcada para a segunda-feira, dia 17. Um dos cantos durante o ato parece com um ouvido nos protestos contra a tarifa:
“Vem para a rua, vem, contra o estatuto”. No caso, a palavra “estatuto” substituiu “aumento”.

16 de junho de 2013
Breno Pires - Estadão

"ENTENDER AS MANIFESTAÇÕES"

 
As manifestações de protesto contra o aumento da tarifa de transportes coletivos - que continuam a ter São Paulo como principal centro, mas se espalham por outras capitais - estão adquirindo características que exigem ao mesmo tempo sangue-frio para enfrentá-las e esforço de compreensão do que exatamente se passa, tanto por parte das autoridades como de todos os que de uma forma ou de outra são afetados por elas. Quando se pensava que iam dar uma trégua, depois de vários dias de agitação, elas prosseguiram com força na capital paulista na quinta-feira.
 
Foi a manifestação mais violenta - pela insistência dos seus integrantes em ocupar vias, como a Avenida Paulista, que as autoridades haviam decidido manter livres, e pela reação da Polícia Militar (PM), muito mais dura que nos dias anteriores. Os manifestantes saíram das imediações do Teatro Municipal, passaram pela Praça Roosevelt e, quando tomaram a Rua da Consolação começou o conflito com a PM.
 
Repetiu-se o cenário de dias anteriores, com a ação da polícia provocando a fúria dos manifestantes, com atos de vandalismo. Mas, com a PM dessa vez determinada a conter o protesto naquele ponto, atirando balas de borracha e bombas da gás lacrimogêneo, o conflito se agravou e mesmo quem nada tinha a ver com o protesto - pessoas que saíam do trabalham e mesmo alguns jornalistas que faziam a cobertura dos fatos - foi atingido. O número de feridos - 105 - foi muito mais elevado - 55 na Consolação e ruas próximas que os manifestantes alcançaram e 50 nas imediações da Paulista. E o de detidos chegou a 130.
 
Os confrontos não se agravaram apenas em São Paulo. Também no Rio de Janeiro, o protesto contra o aumento das passagens de ônibus recrudesceu, reunindo mais de 2 mil pessoas, que depredaram agências bancárias, atearam fogo em sacos de lixo, picharam prédio tombados, como o Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa, e apedrejaram o do Tribunal de Justiça. Duas pessoas ficaram feridas. Houve manifestações de menor importância também em Porto Alegre e, em dias anteriores, em Goiânia e Natal. E sexta-feira chegou a vez de Brasília, onde o protesto foi contra os gastos com obras para a Copa do Mundo. Os manifestantes atearam fogo em pneus em frente ao Estádio Mané Garrincha.
 
A facilidade com que os grupos que organizam os protestos conseguem mobilizar descontentes de todos os tipos pelas redes sociais dá o que pensar. O mesmo se pode dizer de depoimentos de alguns manifestantes. A exemplo de um estudante de psicologia da Unesp, ouvido pelo jornal O Globo, outros participantes dos protestos já estão levantando, ao lado do aumento das tarifas de transporte coletivo, problemas nas áreas de saúde e educação. Sem falar no descontentamento com as despesas bilionárias da Copa. Some-se a isso tudo o fato de normalmente os protestos contra tarifas serem menos violentos e muito mais breves.
 
Parece haver aí algo que ultrapassa as fronteiras partidárias e ainda não foi bem compreendido. E isso é fundamental para que as autoridades possam saber em que terreno estão pisando. Mas, independentemente desse entendimento, é fundamental que todos os que têm uma parcela de responsabilidade na questão, especialmente os que cuidam da segurança pública, mantenham o sangue-frio. A polícia precisa agir com muito rigor, porque, sobretudo, as grandes cidades como São Paulo e Rio não podem ser entregues ao descontrole da violência. Tudo deve ser feito, porém, para evitar excessos, até mesmo para não dar aos radicais o pretexto que querem para novos atos de vandalismo.
 
Nesse contexto, é de lamentar as atitudes nem sempre claras do prefeito Fernando Haddad, que ora se diz aberto ao diálogo com quem quer tarifa zero, ora diz que não recua do aumento, ora condena o vandalismo dos manifestantes, ora alega que tem havido excesso da PM. Quem está no poder tem de pagar o preço de atitudes nítidas, em especial em momentos de crise.

16 de junho de 2013
Editorial do Estadão
 
 

"INSATISFAÇÃO"

 
Nas décadas de 1960 e 1970, secundaristas e universitários lutaram bravamente contra uma ditadura e a favor de utopias sedutoras. Muitos morreram e foram torturados quase ainda crianças.
 
Nos anos 1980, novas gerações lutaram nas ruas pelas "diretas, já". E, nos 1990, milhares pintaram a cara pelo impeachment de Collor. Mais do que demolir um presidente indesejável, sonhavam edificar um país mais justo, mais decente.
 
A década de 2000 passou em branco. Inebriados pelo mito Lula e a miragem da esquerda pura e ética, os movimentos acomodaram-se e a estudantada recolheu-se à sala de aula. Utopias e sonhos coletivos cederam às ambições pessoais. O "cada um por si" venceu o "um por todos, todos por um".
 
As manifestações de agora começaram por 20 centavos a mais na passagem de ônibus em São Paulo e alastraram-se para Rio, Curitiba, Goiânia, Teresina e outras capitais. Coincidiram com os tambores de guerra dos índios e podem ser o fim da longa hibernação, um sinal para os Poderes da República. Basta de violência, de desvios, de impunidade.
 
É nesse clima que o país é informado de uma tal "Resistência Urbana - Frente de Movimentos e Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa". No Rio, fazem passeatas. Em Brasília, queimam pneus e fecham avenidas contra a farra dos estádios com dinheiro público.
 
E os protestos vão longe. Pela internet, o novo "Democracia não tem fronteiras" convoca estudantes e trabalhadores brasileiros para manifestações, terça-feira, em 30 cidades de 15 países.
 
Seria ingenuidade imaginar que tudo isso é uma enorme coincidência e que não há nenhuma conexão entre grupos e manifestações --ao menos uma mesma motivação.
 
O espectro da insatisfação ronda o Brasil. E pode explicar até a inexplicável violência de policiais --eles próprios são cidadãos irritados.

16 de julho de 2013
Eliane Cantanhede, Folha de São Paulo

"LEMBRAR POR LEMBRAR"


Pouca gente sabe que foi graças à classe teatral que se realizou a famosa Passeata dos Cem Mil
 
Li outro dia uma matéria acerca da luta da intelectualidade contra a ditadura militar e, nela, não havia qualquer referência ao Grupo Opinião, que teve papel relevante nessa luta.
 
Não vejo qualquer má-fé nessa omissão, mesmo porque o entrevistado, por sua idade, não poderia ter participado daquela luta, iniciada no mesmo ano do golpe, isto é, em 1964.
 
É público e notório que o primeiro espetáculo a contestar o regime militar foi o show "Opinião", escrito por Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e Armando Costa.
 
O espetáculo estreou em novembro daquele ano, oito meses depois do golpe, num teatro de arena improvisado, no shopping center da rua Siqueira Campos, em Copacabana. Dele nasceu o Grupo Opinião, que marcaria a vida teatral brasileira daquele período, entre outras razões por sua postura política.
 
O papel político que esse grupo desempenhou teve uma razão: o Grupo Opinião foi o novo nome do Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE (União Nacional de Estudantes), entidade essencialmente política, extinta por isso mesmo pelo golpe.
 
Funcionava na sede da UNE, na praia do Flamengo, incendiada por lacerdistas no dia do golpe. Parte dos membros do CPC era militante do Partido Comunista, que dava assistência à entidade. Essa ligação com o PC foi mantida pelo Grupo Opinião.
 
O êxito de bilheteria do show "Opinião" contribuiu para prestigiar o novo grupo teatral. Nos primeiros meses da ditadura, a ação da censura voltava-se mais para a imprensa em geral e só se voltou efetivamente para o teatro após a proibição de "O Berço do Herói", de Dias Gomes.
 
A partir daí, a ação da censura foi se ampliando, o que exigia, de outro lado, a mobilização da classe teatral. Isso foi feito principalmente pelo Grupo Opinião, cujo teatro se tornou o local das reuniões e manifestações de protesto contra a censura.
 
Após o show "Opinião", o grupo apresentou o espetáculo "Liberdade, Liberdade", de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, que era também uma montagem de textos e músicas, só que, neste caso, os textos eram citações de pensadores e estadistas, desde Sócrates a Voltaire e George Washington. Era difícil censurar tais figuras e, por isso mesmo, o meio escolhido pela repressão foi tentar tumultuar o espetáculo, com capangas armados.
 
Como essa tentativa foi abortada, lançaram mão, algum tempo depois, de um recurso mais drástico: puseram uma bomba na bilheteria que quase destrói o teatro inteiro. Depois disso, o público, assustado, afastou-se dali, dando-se início à falência do grupo teatral.
 
Mas isso foi um pouco mais tarde. Até ali, a classe teatral, mobilizada, passou dos manifestos e reuniões em teatros a manifestações de rua, com a presença de atores e atrizes de grande prestígio e popularidade, o que intimidava os censores. Nem por isso, conforme o caso, deixavam de mandar os policiais dissolver essas manifestações e até mesmo prender os manifestantes. Prenderam Norma Bengell.
 
Pouca gente sabe, por exemplo, que foi graças à classe teatral, com o apoio de intelectuais estudantes, que se realizou a famosa Passeata dos Cem Mil. Grupo radicais, ligados à UNE clandestina, insistiam em arrastar os manifestantes para conflitos de rua com a polícia.
 
Já o nosso grupo pretendia realizar uma manifestação de caráter massivo com o apoio da Igreja Católica e outras organizações sociais, que se opunham ao regime. A participação dessas entidades já estava sendo articulada pelo Partido Comunista e a esquerda católica.
 
Discutia-se isso no teatro Glaucio Gill, onde se haviam reunido, além da classe teatral, intelectuais de diferentes áreas. A dificuldade para chegar a um consenso decorria do fato de que a direção da UNE, na clandestinidade, não participava das discussões.
 
A muito custo, conseguiu-se um contato telefônico com Vladimir Palmeira e discutiu-se com ele a proposta em questão. Ele concordou com a proposta e deu seu apoio para a realização da manifestação pacífica e massiva.
 
A partir daí, começaram todos a mobilizar gente de diferentes setores da sociedade, inclusive sindicatos de trabalhadores, do que resultou a primeira grande manifestação de massa contra o regime militar. Uma manifestação que ficou para a história.

16 de junho de 2013
Ferreira Gullar, Folha de São Paulo

ECONOMIA BRASILEIRA: "EU DIRIA QUE ESTAMOS BIEN, PERO VAMOS MAL".

Recuperar a credibilidade da economia e controlar os preços só será possível com ajuste fiscal
 

Giambiagi: ‘Nota da S&P é resultado de problemas que se avolumam nas áreas fiscal e monetária’
Foto: Divulgação
Giambiagi: ‘Nota da S&P é resultado de problemas que se avolumam nas áreas fiscal e monetária’ Divulgação

O economista Fabio Giambiagi, especialista em contas públicas, define como "quadrilátero da incerteza" a condução da política econômica, sem metas claras para a inflação e o superávit primário. Na sua visão, recuperar a credibilidade da economia e controlar os preços só será possível com um ajuste fiscal rigoroso.
 
Como o sr. define a situação atual da economia?
Com uma expressão invertida de Carlos Menem, o ex-presidente argentino. Em 1991, no começo da convertibilidade, quando a população ainda não tinha se enamorado da regra de paridade de um para um, ele disse: “Estamos mal, pero vamos bien”, querendo dizer que depois as coisas melhorariam. Eu diria que “estamos bien, pero vamos mal”. Por que estamos bem? Os salários crescem, o desemprego está no piso histórico, a maioria das pessoas está satisfeita. Por que vamos mal? O déficit em conta corrente está aumentando em velocidade que assusta, a inflação só pode ser contida perto do teto de 6,5 %. Qualquer economista que tenha vivido outras crises projeta esse filme para a frente e não gosta do final.
 
O que é mais preocupante: o câmbio ou a inflação resistente e disseminada?
As duas coisas, pois são a expressão do mesmo problema: a incapacidade da oferta de reagir adequadamente aos estímulos da demanda. A pressão vem dos dois lados.
 
Como pode ser resolvida a crise de credibilidade apontada pela agência Standard & Poor's?
Não foi um meteorito que saiu do nada e irrompeu de repente. É consequência de uma série de problemas que se avolumam nas áreas fiscal e monetária. Ao longo de vários anos, o gasto público aumentou muito acima do PIB, o superávit primário foi corroído, o centro do regime de metas de inflação vem sendo ignorado desde 2010. Chegou a hora das consequências.
 
Como esta situação pode ser resolvida?
Com ações que recoloquem de pé o que foi desconstruído. Vivemos há anos na vigência do que eu chamo de “quadrilátero da incerteza”, no qual em vez de ter uma meta de inflação X e uma meta fiscal Y, temos uma meta de inflação entre X e W e uma meta fiscal entre Y e Z. É preciso recuperar a credibilidade das metas e ter uma meta de inflação que seja única e uma meta fiscal que seja respeitada. Hoje, vivemos como uma pessoa que pesa cem quilos e se propõe a emagrecer para “algo entre 70 e 98 quilos” fazendo exercícios “entre uma e seis vezes por semana”. Assim é difícil.
 
Qual é a sua receita para a economia voltar aos trilhos?
Há três medidas que o governo deveria adotar. Elevar os juros na intensidade requerida para sinalizar claramente que fará a inflação futura voltar a ser de 4,5% e não “alguma coisa entre 5,5% e 6%”. Adotar uma regra pela qual o conjunto das despesas do governo tenha crescimento limitado a uma certa taxa, por exemplo, metade do crescimento do PIB. E anunciar que, por ocasião do envio do projeto de orçamento de 2014 ao Congresso, em agosto, a meta de superávit primário para o ano que vem não virá mais com a possibilidade de adotar descontos.
 
A presidente Dilma deu vários sinais de que não concorda com a receita clássica de corte de gastos para ajudar no controle da inflação. Como se resolve essa equação?
Não se resolve. Querer curar desequilíbrios sem que as causas sejam atacadas é como querer emagrecer, mas deixando muito claro ao médico que não se pretende comer menos e muito menos fazer exercícios. É preciso controlar o gasto, se não a economia vai começar a sacolejar como uma panela de pressão. A despesa primária do governo central era de menos de 14% do PIB em 1991 e vai a caminho de 23% do PIB hoje.
 
Como o sr. vê essa discussão sobre o déficit nominal zero?
Estamos falando de um ajuste de 3% do PIB. Fazer isso requer planejamento, visão de longo prazo, persistência e uma enorme disposição e força de vontade para dizer “não” a nove de cada dez demandas. Esses não são atributos encontrados com grande abundância nos últimos anos. É difícil fazer ajuste quando estamos numa tendência de crescimento real do gasto corrente — nos primeiros quatro meses do ano, a um ritmo de 7%. Deveríamos evoluir do regime de metas de superávit primário para um regime de metas de déficit nominal, convergindo para o déficit zero. Temos hoje um déficit de metas, uma vez que a meta não é um número e sim uma banda e, o pior, é uma banda elástica. Temos de sinalizar aonde vamos e como chegaremos lá.
 
Qual é o seu cenário para os próximos dois anos, considerando que estamos em um ano pré-eleitoral e todas as decisões já têm relação com a política?
Meu cenário é que teremos um 2014 com mais do mesmo: um pouco de subida de juros, mas apenas o suficiente para que a inflação não estoure a meta; um pouco de controle do gasto, mas sem prejudicar a equação política; e mais déficit externo, mas ainda financiado por investimentos, entrada de capitais de curto prazo e talvez alguma perda de reservas. Já em 2015 teremos que chamar o Miguel Falabella para apresentar um novo “Sai de baixo", porque, qualquer que seja o presidente, enfrentará um dilema cruel: se não houver mudanças, os desequilíbrios serão crescentes e chegaremos a 2018 em condições nas quais prefiro não pensar. Se houver mudanças, terão de ser para valer e os ministérios vão ter que passar um ano vivendo a pão e água.

16 de junho de 2013
O Globo

BASE MENSALEIRA TENTA MINIMIZAR VAIAS A DILMA NO MANÉ GARRINCHA

Aliado minimiza vaia a Dilma e opositor vê insatisfação

A presidente Dilma Rousseff foi vaiada duas vezes na cerimônia de abertura da Copa das Confederações hoje, no estádio Mané Garrincha, em Brasília. O presidente da Fifa, Joseph Blatter, também alvo da manifestação, chegou a reclamar do público pelo microfone, pedindo "fair play". Para aliados da petista, houve erro da assessoria em expô-la diante de um público de classe média alta. Na oposição, o entendimento é de que o descontentamento com a presidente é crescente.
 
A vaia, alta e ouvida em todo o estádio, começou no momento em que os nomes de Blatter e Dilma foram anunciados para dar início ao torneio. O presidente da Fifa iniciou sua fala, em português, afirmando que havia ali uma reunião para uma "verdadeira festa do futebol no país pentacampeão". Agradeceu as autoridades brasileiras e citou Dilma, momento em que o público vaiou novamente. Blatter, então, reclamou do comportamento: "Amigos do futebol brasileiro, onde está o respeito e o fair play?".
 
Dilma ficou com o semblante fechado ao lado do presidente da Fifa e apenas cumpriu o protocolo, sem discursar. "Declaro oficialmente aberta a Copa das Confederações Fifa 2013", disse, visivelmente constrangida. Do outro lado dela estava também o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e do Comitê Organizador Local, José Maria Marin, com quem Dilma evitou manter qualquer contato público até então.
 
Aliados da presidente acreditam que a vaia se deveu às características do público. "Vaia de playboy não vale", disse o deputado Dr. Rosinha (PT-PR) por meio do Twitter. O senador Lindbergh Farias (PT-RJ) afirmou que a situação deveria ter sido evitada pela assessoria de Dilma. "Faltou avaliação política. Era um evento com ingresso caro, com classe média alta, classe A, não é essa a turma da Dilma e do Lula", afirmou Lindbergh. Presente no estádio, o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) minimizou o fato. "Político no estádio é sempre vaiado, porque o povo ali quer ver futebol", disse. Os petistas lembram ainda que na abertura dos Jogos Pan-americanos de 2007, no Rio de Janeiro, o então presidente Lula foi vaiado, mas isso não impediu a eleição de sua sucessora.
 
Na oposição, a manifestação do público foi "comemorada". "Essa vaia é um sentimento do País. A gente vê nas ruas que a situação é diferente de três anos atrás. Ali estava a classe média, mas as outras classes também estão sofrendo os efeitos da má administração do PT", afirmou Nilson Leitão (PSDB-MT), líder da minoria na Câmara. "A presidente conseguiu uma antipatia suprapartidária. Os fatores vão se acumulando, como a inflação, e isso pode levá-la a uma derrota", disse o líder do DEM na Câmara, Ronaldo Caiado (GO).
 
Festa e protesto
 
A vaia para a presidente aconteceu depois de o público ter demonstrado empolgação com o evento, distribuindo aplausos para voluntários e até para o hino japonês. A cerimônia de abertura da competição, dirigida pelo carnavalesco Paulo Barros, procurou vender a principal festa popular do País. Voluntários realizaram mosaicos no gramado, houve espaço para homenagem às oito seleções participantes e a conclusão com bonecos similares aos do Carnaval de Olinda disputando uma partida de futebol sob um campo formado em mosaico.
 
 
Do lado de fora, porém, o público que acessou o estádio presenciou um protesto reprimido com força pela Polícia Militar do Distrito Federal, estado governado pelo petista Agnelo Queiroz. Os manifestantes foram dispersados com bombas de efeito moral e disparos de bala de borracha. A PM usou também gás lacrimogêneo. Ao todo, 3 mil homens participaram da segurança do jogo.
 
 
O primeiro confronto ocorreu quando um grupo tentou acessar a área onde o protesto estava concentrado, em frente ao estádio. Houve tumulto e a PM soltou bombas de gás lacrimogêneo. Um jovem foi ferido na perna. Até as 15h30 já haviam sido presos 17 adultos e apreendidos 10 menores, de acordo com o advogado dos manifestantes, Gilson dos Santos.

  
BRENO COSTA - Folha de São Paulo
 

 
A presidente Dilma Rousseff foi vaiada por milhares de torcedores, por três vezes, antes do Brasil vencer o Japão por 3 a 0, na abertura da Copa das Confederações, no Mané Garrincha, estádio em que o governo do Distrito Federal gastou pouco mais de R$ 1,2 bilhão.
 
Dilma e o presidente da Fifa, Joseph Blatter, que estava ao seu lado e que também foi vaiado, ficaram visivelmente constrangidos.
 
Blatter chegou, inclusive, a explicitar esse incômodo, quando, ao discursar, perguntou para a torcida: "Onde está o respeito, onde está o fair play?". Foi novamente vaiado.
 
O primeiro apupo da torcida a Dilma veio quando o nome da presidente foi anunciado pelo sistema de som do estádio, antes da execução dos hinos nacionais de Brasil e Japão.
 
Depois, quando foi mencionada por Blatter em sua rápida fala, novas vaias. As últimas vieram quando a própria Dilma Rousseff começou a falar ao microfone para declarar oficialmente aberta a Copa das Confederações. Nessa última, parte da torcida passou a aplaudir a presidente.
 
Segundos antes de ser anunciada pelo sistema de som do estádio, e receber as primeiras vaias, ela foi bem acolhida pela torcida posicionada exatamente abaixo de seu camarote.
 
Durante a abertura dos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva também foi vaiado pelo público e não fez o discurso de abertura dos Jogos, tendo sido substituído pelo presidente do COB e do Co-Rio, Carlos Arthur Nuzman.

Yasuyoshi Chiba/AFP

16 de junho de 2013
EDUARDO BRESCIANI, DÉBORA ÁLVARES E RICARDO DELLA COLETTA - Agência Estado
 

A VAIA DE ESPANTAR NELSON RODRIGUES MOSTROU A DILMA A CARA DO BRASIL REAL

 
Ouça a vaia à laranja do Lula
http://migre.me/f2oTd




“Para Dilma Rousseff, mal começou a descoberta do Brasil real: foi só a primeira vaia”, avisou em 30 de abril a última frase do post sobre a punição sonora sofrida pela presidente em Campo Grande. Se tivesse ouvido a advertência, ela nem passaria perto de campos de futebol. Como só ouve marqueteiros e áulicos, que tentam promover a rainha uma supergerente de araque, apareceu no estádio Mané Garrincha, em Brasília, pronta para oferecer aos súditos uma chance de ovacioná-la. Deu no que deu.
 
Dilma desconfiou que deveria ter ficado em casa quando a multidão soube que estava por lá: a vaia começou. Intensificou-se quando o presidente da Fifa, Joseph Blatter, mencionou seu nome. E se tornou espessa, unânime, estrondosa, feroz quando o supercartola teve a má ideia de perguntar aos quase 70 mil torcedores onde estavam “o respeito e o fairplay”.
 
Também ele alvejado pela manifestação de descontentamento, Blatter só conseguiu elevar em incontáveis decibéis o som da hostilidade. Submetida  a uma vaia de espantar Nelson Rodrigues, Dilma achou melhor cancelar a leitura do discurso escrito por algum comparsa menos impiedoso com o idioma. Sempre vergastada por apupos devastadores, que ampliaram notavelmente a teia de vincos escavados na carranca, limitou-se a declarar aberta a Copa das Confederações.  .
 
Se a primeira vaia ninguém esquece, a segunda pode ser especialmente dolorosa. Num coro ininterrupto, dezenas de milhares de brasileiros mostraram a cara do país real, destruíram monumentos ao embuste esculpidos por pesquisas encomendadas, ressuscitaram a verdade assassinada e comunicaram a Dilma que a insônia crônica chegou.
 
Ela vai atravessar a madrugada deste domingo (e muitas outras) remoendo as lembranças do péssimo sábado. E tratará de pulverizar os demais compromissos que assumiu como presidente do País do Futebol. Falar coisas ininteligíveis para plateias amestradas não provoca efeitos colaterais nem tem contra-indicações. Sabujos só sabem bater palmas.
 
A Seleção ganhou do Japão, a torcida perdeu de vez a companhia da Primeira Torcedora. (E de Lula, claro: ainda traumatizado pela vaia do Maracanã no Pan-2007, ele acabou de ver pela TV o que o espera caso resolvga estacionar num estádio o palanque ambulante). Para o Brasil que presta, o sábado foi muito animador.
 
É cedo para saber se o time de Felipão vencerá a Copa das Confederações. Mas os farsantes no poder nunca mais esquecerão a derrota desmoralizante, definitiva, irreversível. E logo aprenderão que é só o começo.

16 de junho de 2013
Augusto Nunes - Veja
 

INFLAÇÃO DE DILMA DE CADA DIA. CONSUMIDOR SENTE NO BOLSO ALTA DE 40%

A inflação nossa de cada dia. Consumidor sente no bolso alta de até 40% em 12 meses, taxa superior aos 6,5% oficiais
 
 

A estudante Victória conta que gasto com unhas subiu de R$ 30 para R$ 45 desde 2012; de acordo com IBGE, serviço teve alta acumulada de 12% em 12 meses
Foto: Givaldo Barbosa
A estudante Victória conta que gasto com unhas subiu de R$ 30 para R$ 45 desde 2012; de acordo com IBGE, serviço teve alta acumulada de 12% em 12 meses Givaldo Barbosa
 
Escaldados com a memória da desordem financeira que a inflação do passado causou em suas vidas, os brasileiros estão sentindo de novo o peso da alta de preços de bens e serviços. A percepção dos consumidores, muitas vezes, é de que os reajustes vão muito além dos registrados pelos índices oficiais. Enquanto a inflação média chegou a 6,5% no acumulado em 12 meses completados em maio, famílias ouvidas pelo GLOBO relataram que suas despesas mensais subiram até 40% no mesmo período.
 
Marcelo e Natássia Coutinho formam, com a filha de 2 anos, uma típica família de classe média. Obrigado a almoçar fora de casa durante a semana, o psicólogo viu subir de R$ 20 para R$ 30 o valor médio do prato. A família também percebeu alta de 25% nas compras de supermercado. Com gasolina, o gasto do casal saltou de R$ 960 para R$ 1.120 por mês. No total, a inflação dos Coutinho é de 23% em 12 meses.
 
— O que a gente tem feito é aumentar o controle, trocando a marca dos produtos para poupar — afirmou Coutinho, que economiza para ir uma vez por ano aos EUA fazer compras por lá.
 
Diante da alta dos preços, a publicitária Brina Martins adiou para o ano que vem a matrícula do filho de 2 anos na escola. Com a nova lei do empregado doméstico, cuja regulamentação ainda vai passar pelos plenários do Senado e da Câmara, pensou até em demitir a babá, mas fez as contas e decidiu manter a despesa. Sua inflação, bem acima dos 6,5% oficiais do IPCA, chega a 40%.
 
— A minha impressão é de que tudo aumentou. É como se o meu poder de compra tivesse sofrido um revés — disse Brina, que agora pensa duas vezes antes de levar para casa, por exemplo, uma peça de vestuário.
 
Dependendo da família, os gastos com serviços de beleza e produtos de estética também explodiram. A advogada Ivoneide Carvalho vai ao salão duas vezes por semana para fazer as unhas e tratar o cabelo. Em um ano, disse que a conta subiu de R$ 300 para R$ 500. Com a compra de outros artigos, como cremes e maquiagem, a despesa passou de R$ 400 para R$ 500. Ela também adquire medicamentos para problemas como pressão alta e observou que, nas compras na farmácia, houve uma alta de 13%.
 
— O que eu sinto é uma falta de parâmetro das empresas para reajustar os preços.
 
‘Cada um percebe a inflação de modo diferente’
 
Já a estudante Victória Albuquerque Câmara, de 21 anos, passou a pagar R$ 45 para fazer as unhas, serviço que, em 2012, custava R$ 30. Pelos dados do IBGE, a inflação dos serviços de manicure foi de 12,94% emum ano.
 
— Até fazer um lanche ficou mais caro. Tenho saído menos — observou a estudante.
 
O economista da FGV André Braz explicou que o consumidor enxerga inflação mais alta que os índices oficiais porque os produtos básicos, dos quais ele não pode abrir mão, como alimentos, estão mais caros. Esse grupo sacrifica sobretudo as famílias mais pobres. Braz ressaltou que as famílias com renda mensal de até dois salários mínimos e meio destinam 30% do orçamento à alimentação, que ficou 13,5% mais cara em 12 meses e 101,65% em uma década.
 
— Se os alimentos são os vilões da inflação, e o pobre compromete 30% da renda com eles, com certeza a percepção da alta de preços está ali. Isso também depende da composição da família — se tem criança, idoso — e do nível de renda. Cada um percebe a inflação de forma diferente.
 
Casado e com dois filhos pequenos, o analista de contas Alexander Marlon Gomes usa o salário de R$ 1,1 mil para sustentar a casa e tem feito malabarismo para manter as contas em dia. Segundo ele, enquanto a sua renda aumentou 5,6% desde 2012, os gastos totais subiram nada menos que 33,3%. Uma das altas mais severas foi justamente a da comida — o gasto com as compras de supermercado subiu 60%, de R$ 250 para R$ 400 por mês.
 
— Tudo subiu. A caixa de ovos, que, no ano passado, custava R$ 1,85, hoje não sai por menos de R$ 4,85. Arroz, açúcar, sabão em pó, leite, tudo está mais caro — constatou Gomes.
 
Também foi na alimentação que a dona de casa Joseneide Nunes sentiu o maior impacto. Em um ano, o pacote de arroz passou de R$ 9 para R$ 13, e o de feijão, de R$ 3 para R$ 6, conta. A saída é pesquisar e aproveitar as promoções. Já a técnica em enfermagem Denise Ferreira disse estar há cinco anos sem reajuste salarial.
 
— O problema é que as empresas aproveitam uma alta para repassar aos preços e quando deveria voltar ao normal, por exemplo, com o fim de uma seca, não reduzem os valores.
 
Diante de altas tão expressivas, o diretor de preços do Walmart Brasil, Eduardo Britez, admite que reajustar é um desafio. Segundo ele, além de negociar com os fornecedores comprando em larga escala, a empresa corta custos por meio do uso racional de papel, impressora e energia, além de trabalhar para melhorar a eficiência dos trabalhadores e a sua própria. A rede tem um time de 400 pesquisadores monitorando o mercado para entender o comportamento dos preços na concorrência, afirma.
 
— Como o custo de aquisição não é muito diferente do dos outros varejistas, precisamos ter uma estratégia. Desde 2011, fizemos uma mudança grande, com negociação com fornecedores, para reduzir valores, para que o consumidor não precise ficar caçando ofertas.
 
Adriana Karina Muniz Ricci, diretora comercial da Lord Perfumaria, diz que, no setor de produtos e serviços de beleza, o desafio agora é driblar a alta do dólar. Tanto no salão de beleza quanto na loja, 90% dos itens são importados.
 
— Em agosto, os fornecedores vão importar produtos e, com base no dólar, a alta será ditada. Nosso empenho é para fazer no máximo um reajuste por ano, que pode ser para cima ou para baixo.

16 de junho de 2013
Cristiane Bonfanti - O Globo