"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



segunda-feira, 11 de junho de 2012

MINISTRO RUSSO DIZ QUE ANNAN ESTÁ PARALISADO PELA AÇÃO DOS QUE QUEREM A INTERVENÇÃO MILITAR NA SÍRIA

 

O chanceler russo Sergey Lavrov manifestou preocupação sobre “a reação de alguns atores de fora” os quais, disse ele, “apoiam grupos armados da oposição e, ao mesmo tempo exigem que a comunidade internacional dê passos decisivos para mudar o regime na Síria.”

O ministro disse que “para justificar uma intervenção militar, continuam a falar dos refugiados que saem da Síria. Mas ninguém sabe dos que estão sitiados dentro da Síria. É o que já se viu na antiga Yugoslávia. Alguém pensou nos refugiados sitiados na Sérvia e na Eslovênia (Croácia)?” – perguntou Lavrov, acrescentando:

“Segundo estimativas recentes, há cerca de um milhão de refugiados do Iraque e meio milhão de refugiados palestinos, hoje, na Síria. E não vejo ninguém preocupado com eles ou falando deles.”
Para o ministro russo, “atores externos provocam a oposição síria para que continue a ação militar. Assim, vão construindo ali cenário semelhante ao que construíram na Líbia.”

“O principal motivo pelo qual o plano de paz de Annan está paralisado é a ação dos que apoiam a intervenção militar externa na Síria, que impede a implementação do plano” – continuou Lavrov.
Lavrov disse que alguns atores “não gostam” da estabilidade que o plano pode gerar imediatamente. Querem manter a comunidade internacional indignada, e iniciar ofensiva total para intervirem na Síria.”

Lavrov repetiu, mais uma vez, que “a Rússia jamais concordará com o uso da força, no Conselho de Segurança da ONU.” Disse que esse tipo de intervenção levaria a “consequências severas para todo o Oriente Médio.”

Assinalou que o governo sírio é responsável pela segurança dos cidadãos e pelo respeito aos direitos humanos, além de ser responsável por tudo que está acontecendo no país.

Tragédias como a de Houla e outros inúmeros atos de violência são resultado do confronto, hoje ativamente estimulado por atores externos. Também manifestou preocupação sobre a segurança de professores e especialistas russos que foram atacados em Damasco.

Sobre a cobertura jornalística, o ministro das Relações Exteriores da Rússia disse que “bloquear canais oficiais e privados na Síria e impedi-los de transmitir não é ação que deponha a favor da liberdade de expressão.” Lembrou os ataques aéreos contra as instalações de transmissão de televisão em Belgrado, na Sérvia, e em Trípoli, na Líbia. “É indispensável que os atores responsáveis por esses ataques respeitem os direitos da comunidade internacional, de receber informação limpa – seja qual for a informação.”

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REUNIÃO EM MOSCOU

Moscou propôs uma conferência internacional sobre a crise síria, da qual participem todos os principais atores internacionais.
A Rússia manifestou esperança de que todos os atores internacionais consigam influenciar o desenrolar dos eventos na Síria, na saída de uma sessão da ONU na qual o secretário-geral dissera que o presidente sírio perdera a legitimidade.

“A conferência deve ser feita sob a autoridade da ONU” – disse Lavrov, e acrescentou que a discussão global não deve ser evento único. “A Rússia está gravemente preocupada com a presença crescente, na Síria, de terroristas internacionais e de extremistas”.
Com alguns países ocidentais já falando de impedir o Irã de participar da conferência sobre a Síria, Lavrov disse que banir Teerã “seria atitude, no mínimo, irrefletida.”

Para o ministro russo, são partes ativas e “integrais” do processo o Qatar, a Arábia Saudita, o Líbano, a Jordânia, o Iraque, a Turquia, o Irã, a Liga Árabe, a União Europeia e a Organização de Cooperação Islâmica, dentre outras.
Também Lavrov repetiu a jornalistas que “não haverá autorização do Conselho de Segurança da ONU para intervenção militar na Síria.”
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11 de junho de 2012
Rick Rozoff (Worldpress)

A INDIGNAÇÃO DOS ABUSADOS

 

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O BELO EXEMPLO DO PRESIDENTE URUGUAIO E DOS GOVERNANTES ESCANDINAVOS

Tenho assistido no canal 239 da Sky, às segundas-feiras, 22 hs, um seriado dinamarquês intitulado, The Killing. Uma trama espetacular, sem intervalo comercial, uma hora total de apresentação a cada capítulo.

Refiro-me a esta série, que foi várias vezes premiada no mundo, tendo em vista a comparação do presidente uruguaio com os políticos da Escandinávia, local da social-democracia.
Em princípio não ouvimos qualquer comentário daquela região em termos políticos, e sabemos do alto nível de vida que a população sueca, dinamarquesa e norueguesa desfrutam.

Pois este seriado mostra a austeridade e a simplicidade de seus dirigentes, primeiros-ministros, presidentes, governantes, enfim, um pessoal que vive em casas confortáveis sem luxo, sem carro do governo, sem verbas extras que engordam artificialmente salários, mas de acordo com o salário pago e que chega a ser modesto!

As imagens dos países citados não apresentam mansões, edifícios espetaculares, mas o transporte coletivo é primoroso, o atendimento à saúde é irrepreensível, a educação modelo para o mundo.
Por que esta diferença com a América Latina, por exemplo? O que faz o poder subir à cabeça de nossos mandatários e se julgarem superior a tudo e todos?
Por que se acham que podem ficar impunes aos crimes que cometem ou apóiam?


O presidente uruguaio é o exemplo clássico do sujeito de esquerda que tinha um discurso enquanto revolucionário e tem o mesmo agora no mais alto comando do país, inclusive quanto ao seu comportamento despojado, modelo de homem público, coerência, determinação e… patriotismo! Notaram que nossos presidentes muito pouco visitam ou recebem o José Mujica? Por quê?

Sim, existem ainda políticos honestos no planeta, mas eles não estão no Brasil, lamentavelmente, mas os desonestos transformaram este país em mina a céu aberto onde podem nos explorar e enriquecer às custas de nosso trabalho, demonstrando o desprezo que sentem pelo povo e de sua Pátria!

Por outro lado, acredito que somente a Educação poderia mudar este estado de diferenças que nossos políticos se apregoam em comparação à população, esta falta de compromisso social, esta falta de probidade, sensatez, decência e honestidade e, evidentemente, caráter!

MINISTROS DO SUPREMO DEVERIAM FAZER CONCURSO PARA ENTRAR NO TRIBUNAL

 

Eu só acredito no concurso de provas — feito com seriedade — como condição para ingresso em qualquer cargo, seja da magistratura ou não. Até os títulos podem ser obtidos através dos costumeiros tráficos de influência.

Na prática, torna-se uma balela o “notório saber jurídico” nos termos previstos na Constituição da República. É uma maneira camuflada de protecionismo aos repulsivos puxa-sacos de todas as épocas e latitudes. Há um ministro — o penúltimo nomeado — que não demonstrou mérito intelectual sequer para iniciar carreira na judicatura. Foi reprovado em dois concursos de ingresso na magistratura paulista.

Ademais, sendo exigida a aprovação em concurso, o nomeado não fica a dever favores a quem quer que seja. O ex-torneiro mecânico não mais poderia proclamar ter sido vítima de ingratidão e chamar beneficiário da nomeação de “complexado”.

O ministro Marco Aurélio nunca se submeteu a concurso público. Como início da vida pública foi nomeado graciosamente para procurador do Trabalho na ex-capital do País. Prevalecendo-se dessa condição, chegou a juiz do Tribunal do Trabalho do Rio de Janeiro pelo chamado quinto constitucional.

Daí, também por influência política, ascendeu ao cargo de ministro do Superior Tribunal do Trabalho. Até que bafejado pelos mistérios da ventura, o primo chegou à presidência da República, e pôde mimoseá-lo com a curul do Supremo Tribunal Federal.
É esse regime de privilégios que os bobos chamam de democrático!

Hugo Gomes de Almeida
11 de junho de 2012

UM POUCO DA PARADA GAY EM SÃO PAULO - 2012. O FIM, COM POLÍICIA E LIMPEZA, EM BLOCO

O ESFORÇO PARA REVIVER O PASSADO


José Dirceu usa a camisa do estudante morto como bandeira - reprodução do Acervo Digital de Veja
2 de outubro de 1968. A pouco mais de dois meses da edição do Ato Institucional número 5, a Rua Maria Antônia, no centro de São Paulo, ardeu. A briga envolveu 3 mil estudantes da Universidade Mackenzie, ninho do Comando de Caça aos Comunistas, e 2,5 mil da Faculdade de Filosofia da USP, onde estava abrigada a sede da proscrita União Estadual do Estudantes. Começou quando alunos do Mackenzie atiraram ovos contra os colegas da USP que pediam dinheiro para atos de resistência à ditadura militar. Só terminou dois dias depois com um saldo trágico: a morte do secundarista José Guimarães.

Um jovem chamado José Dirceu, presidente da UEE na ilegalidade, liderava os estudantes do prédio da Filosofia. "As violências da direita serão respondidas com a violência do povo e dos estudantes", bradava, organizando os colegas para o confronto.

Na segunda tarde do confronto, um tiro de grosso calibre transfixou o crânio de José Guimarães. Foi a senha para que a briga se transformasse numa das maiores manifestações de protesto da história. Cerca de 800 alunos da Filosofia saíram em passeata pelo centro de São Paulo. Ao final, eram cerca de 4 mil. Pelo menos quatro veículos foram incendiados. Para animar os colegas, José Dirceu desfraldou a camisa ensanguentada de José Guimarães como bandeira do movimento.

Sábado, 9 de junho de 2012. Diante de uma platéia composta por estudantes da União da Juventude Socialista, o mesmo José Dirceu, reencarnando o líder estudantil de 44 anos atrás, conclamou o povo e os estudantes a voltarem às ruas para algo bem menos nobre: pressionar o STF por sua absolvição no julgamento do Mensalão. A verve era a mesma de quase cinco décadas. A causa, no entanto, nem de longe lembrava a dos tempos distantes que precederam o AI-5.

Entre o líder estudantil José Dirceu e o "chefe de quadrilha" dos mensaleiros, como descrito pelo Procurador-Geral da República, há um hiato importante na história. O primeiro se insurgia contra o recrudescimento da censura, a restrição das liberdades individuais, as provocações da direita raivosa -- e lutava feito um leão pela reinstitucionalização do País.
O segundo, imbui-se apenas dele mesmo -- de seus feitos ao tempo em que governava o País e articulava a pornográfica aliança do governo petista com o pior do rebotalho congressual. Agora, luta avidamente contra as Instituições brasileiras.

Com a mesma retórica de antes, embora sem a mesma motivação, Dirceu pode provocar um efeito semelhante à conflagração dos estudantes de 68 durante os dias de julgamento do Mensalão. Caso a UJS, a UNE e outras entidades do neopeleguismo estudantil sigam suas palavras de ordem, é bem provável que a Praça dos Três Poderes se transforme numa espécie de Rua Maria Antônia em agosto próximo.
Pode-se bem imaginar o que uma conclamação dessa natureza produzirá como efeito na militância paga e até entre a massa de manobra crédula que ainda se dispõe a confundir um processo criminal com processo político. A falácia, que vem sendo alimentada pela malha de blogs pagos pelo governo, ainda encontra seguidores. Não se sabe ainda se eles são capazes de atirar pedras ou se ficarão adstritos aos twitaços e flashmobs.

Os espaços amplos da Esplanada dos Ministérios criaram em Brasília uma tradição de enfrentamento entre jovens abduzidos por movimentos políticos -- legítimos, diga-se -- e a polícia. Foi assim em novembro de 87, quando uma multidão fora de controle confrontou a tropa de choque num movimento espontâneo que ficou conhecido como "Badernaço" contra o Plano Real. Sobraram bombas de efeito moral e tiros de bala de borracha para todos os lados.

Em algumas dessas oportunidades, a onda de protesto foi deflagrada por adolescentes sem causa como os que integravam grupos de punks, por exemplo. A confrontação não passou de uma afronta clara, meio inconsequente, meio lúdica, mas absolutamente sem nenhuma consequência para a História e para a institucionalidade.
Foram batalhas campais sem sentido que não produziram legado. Muito diferente da briga da Maria Antônia contra a ditadura e das manifestações pacíficas dos caras-pintadas, que lograram criar a condição política necessária para a deposição de Fernando Collor de Mello.

O importante, aqui, não é discutir a qualidade ou a legitimidade dessas manifestações. É notar que elas ocorrem, com ou sem uma motivação nobre, com ou sem um ânimo político justificável. Basta que sejam convocadas, como faz agora, na condição de réu, o ex-militante José Dirceu. E o fez para dar seguimento a um processo que já se iniciou há alguns meses, que tem como objetivo criar todo tipo de constrangimento para o Supremo Tribunal Federal. Esta é apenas mais uma etapa da estratégia que começou pela tentativa de desmoralizar o Procurador-Geral da República, o ministro Gilmar Mendes e comprometer o tribunal constitucional que, já é possível antever, tem todos os elementos para enviar José Dirceu e seus 40 comparsas para uma boa temporada na cadeia.

A estratégia, até o momento, tem se revelado desastrosa. Desde que foi deflagrada, teve o condão de levar o STF a definir uma data para o julgamento; acirrou os brios de antigos desafetos da Corte e uniu-os diante das investidas atrevidas de Lula; expôs a avidez com que os réus tentam se apropriar das condicionantes políticas do processo; e irritou profundamente até os julgadores mais garantistas, que tendiam a votar pela absolvição.

Resta saber em que medida o José Dirceu da Rua Maria Antônia conseguirá insuflar a militância em favor do José Dirceu do Mensalão. Ou quanta gente ainda se disporia a enfrentar a polícia e jogar pedras na fachada do Supremo por uma causa tão ruim. Sobretudo porque lhe falta uma camisa manchada de sangue, falta um José Guimarães, um mártir entre os que, depois de duelos históricos pelo soerguimento da democracia há quase cinquenta anos, decidiram agora cavar trincheiras contra a aplicação do Código Penal.
11 de junho de 2012
Fábio Pannunzio

CPI DISCUTE CONVOCAÇÃO DE CAVENDISH NA QUINTA




A semana será sonora na CPI do Cachoeira. Julgando-se vítimas de uma orquestração da imprensa, da PF, do Ministério Público e dos respectivos rivais políticos, os governadores Marconi Perillo (GO) e Agnelo Queiroz (DF) terão a oportunidade de levar a boca ao trombone. O tucano depõe nesta terça (12). O petista, na quarta (13).

Na quinta (14), a CPI fará mais uma de suas sessões administrativas. Nesse encontro, cada membro da comissão tocará corneta por seus requerimentos. O líder tucano Alvaro Dias (PR), por exemplo, cobrará do colega Vital do Rêgo (PMDB-PB), presidente da CPI, um compromisso assumido há coisa de duas semanas.
Alvaro protolou na mesa da CPI pedidos de “preferência” para a votação dos requerimentos de convocação e de quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Fernando Cavendish. Vital comprometera-se a atendê-lo. Disse que, na primeira janela de despachos administrativos, levaria o dono da Delta ao parapeito.
Mantida a palavra, vai-se saber qual é o tamanho da infantaria do governador pemedebê Sérgio Cabral (Rio) na CPI. Quem estiver com Cabral dirá “não” aos requerimentos anti-Cavendish.
Noutra frente, o relator petista da CPI, Odair Cunha (MG), planeja requerer a votação de um pedido de abertura das contas e dos dados fiscais e telefônicos do tucano Perillo. Não são negligenciáveis as chances de que uma investida anule a outra.
De resto, entre os inúmeros requerimentos pendentes de apreciação há uma dezena de pedidos de convocação de Luiz Antonio Pagot, o radioativo ex-diretor do Dnit. Em entrevistas, Pagot ligou o ventilador. Soprou na direção das arcas de José Serra e de Dilma Rousseff. Colocou-se “à disposição” da CPI. Quer falar. Logo, logo a platéia saberá quantos desejam ouvi-lo.
josias de souza, noticias uol
11 de junho de 2012
 
 

JOSÉ DIRCEU, O INSENSATO




Se depender de José Dirceu, ex-chefe da Casa Civil de parte do primeiro governo Lula, o bicho vai pegar antes, durante e, se necessário, depois do julgamento do processo do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Nunca antes na história recente do país convocou-se o povo para pressionar um tribunal. Pois bem: Dirceu começou a fazê-lo.
Rapaz ousado!
Mais certo seria chamá-lo de temerário, imprudente, perigoso, atrevido, insolente, afoito, demente, precipitado, desaforado, petulante, desajuizado, incauto, arrogante, desvairado, impulsivo, arrebatado, insensato – e mais o quê? Pense. E acrescente aí.
Quem se diz democrata respeita a independência dos poderes da República. Pode discordar de decisões da Justiça? É claro que sim. E até criticá-las com indignação.
Mas ao fim e ao cabo só lhe resta acatá-las. Diga-me: que democrata de verdade insufla o povo para que constranja a Justiça a decidir como ele deseja?

De passagem por Brasília, em conversa com um amigo há um mês, Dirceu pareceu abatido e certo de que será condenado por ter chefiado “uma sofisticada organização criminosa” que tentou se apoderar de uma fatia do aparelho do Estado, segundo denúncia do Procurador Geral da República aceita pelo STF.
Não revelou ao amigo que cogitara exilar-se em Cuba ou na Venezuela. Uma vez condenado, viajaria denunciando a injustiça de que fora vítima.
Arquivou a ideia. Concluiu que seria difícil convencer os ouvintes de que era um perseguido político no país governado por seu próprio partido há quase dez anos.
Mas surpreendeu o amigo ao revelar que os chamados “movimentos sociais” não assistiriam inertes a sua eventual condenação. Diz-se informado de que reagiriam por meio de manifestações de rua.
Não descartou a hipótese de que tais manifestações acabassem antecipadas. Tudo dependeria da data do julgamento. AQUI
 
11 de junho de 2012
ricardo noblat

A ARTE DE COMER SEM PAGAR - PARTE 2


Comecei a escrever A arte de comer sem pagar – 1 na sexta-feira entre os feriados. Tentei engatar, no final, a idéia de que a China exporta tembém o seu modelo econômico concentrador e monopolista e isso predispõe o Ocidente para outras distorções e crises, mas logo vi que seriam idéias demais para espaço de menos.

Domingo o artigo de Pedro Malan para O Estado de S. Paulo (aqui) veio me ajudar.
A frase do ex-presidente do Conselho de Ministro da Fazenda da União Européia com que ele abre seu texto explica tudo:

"Não é que as lideranças políticas europeias não saibam o que fazer; o que elas não sabem é como se reeleger, depois de tentarem fazer o que precisa ser feito".
Retomo, então, de onde parei no artigo anterior:

A China não exporta só o seu desemprego e o seu padrão de remuneração do trabalho. Desde que o processo começou (e já lá vão uns bons 30 anos desde o início da globalização como função da revolução da informática) ela vem exportando também o seu modelo econômico concentrador e monopolista, uma vez que, para competir com a escala de produção dos seus monopólios servidos por quase escravos, só criando monopólios servidos por quase escravos do lado de cá também, via o tsunami de fusões e aquisições que, ha décadas, vêm inflando desmedidamente o setor financeiro.


Isso inicia um processo de causação circular cumulativo, outro conceito de que Malan trata em seu artigo (ainda que em outro contexto).
As empresas tornam-se “grandes demais para quebrar” e os governos, diante da ameaça de crise social como função do desemprego que seria criado pela falência de uma delas (ou até de banimento da democracia por eleitores revoltados, como acontece agora na periferia da Europa), entram com as operações de resgate financeiro (com emissão de moeda), o que acaba realimentando a irrresponsabilidade dos gestores dessas empresas (moral hazard) e preparando o terreno para novas crises.

Esse conluio cada vez mais íntimo entre governos e empresas privadas das quais eles vão se tornando, cada vez mais, sócios-proprietários, vai rebaixando a função fiscalizadora de uns sobre as outras ficando os assalariados/consumidores cada vez mais órfãos na outra ponta.

E com isso o mundo inteiro vai se tornando cada vez mais parecido com a China anti-democrática onde, se não ha o problema de se reeleger depois de tomar medidas impopulares, há o de evitar a qualquer custo explosões como a de Tianamen, em 1989, que ocorrem em países sem canais democráticos se a pressão sobre o assalariado/consumidor passar do limite.


O Partido Comunista Chinês, tornado “capitalista selvagem” montado no seu poder ilimitado, corrompe-se cada vez mais e, para comprar mais longevidade no poder, cava buracos financeiros que, depois, precisam ser tapados com “enxurradas de obras”, que são os equivalentes dos resgates financeiros para preservar empregos do Ocidente ou às “enxurradas de crédito” para manter o crescimento em voga no Brasil do PT. É assim que eles têm construído aquelas cidades inteiras onde não mora ninguém que fazem o mundo se perguntar até quando esse tipo de expediente pode aguentar.

Com o que, voltamos ao ponto de partida: debater “ortodoxias” e “heterodoxias” pode ser um esporte atraente para a Academia mas, na vida real, todo mudo sabe o que precisa ser feito; o problema é como manter-se no poder depois de faze-lo. Ou, se a empurração com a barriga for suficientemente longe, como manter-se democrático num ambiente de concentração crescente da riqueza e dissolução das fronteiras entre o público e o privado.
Ou seja, essas crises começam e acabam, a cada volta dos processos de causação circular cumulativos que as vão agravando cada vez mais, com a compra de poder politico (e/ou de poder econômico) com dinheiro alheio.

fernaslm
11 de julho ded 2012

A ARTE DE COMER SEM PAGAR - PARTE 1

 

Plus ça change, plus c’est la même chose.

Quanto mais a coisa muda, mais ela é a mesma coisa.
Na origem a coisa deita raízes na grande encruzilhada “responsabilidade individual" ou “igualdade” que, respectivamente, nas revoluções americana (1776) e francesa (1789) abriu as duas correntes ideológicas que até hoje dividem a humanidade. Mas o sentido da versão moderna dessa discussão é cada vez mais cruamente prático.

“Austeridade x crescimento” (hoje); “ortodoxos x heterodoxos” (anos 90); “monetaristas x estruturalistas” (anos 30); tudo são só arranjos diferentes da mesma musiquinha com que os eternos donos do poder distraem a platéia enquanto se exercitam na velha arte, de que nunca deixaram de ser os mestres, de passar adiante os micos que fabricam.
Na prática, traduz-se assim:

Na hora dos bonus: a cada um segundo o seu esforço e a sua capacidade ou a cada um segundo a sua “necessidade” (caso em que alguém de carne e osso, em nome do povo e da moral, decretará que ela é mínima e se arrogará o direito de decidir o que sera feito do excedente)?

Na hora dos onus: a cada um segundo a sua responsabilidade ou a todos indiscriminadamente, incluindo quem não participou da festa que gerou a conta a ser resgatada?


Qualquer que seja a resposta é certo que a conta não desaparecerá por milagre. Tudo que se pode mudar é a escolha de quem terá de pagá-la.
E aí – a História está de prova – a coisa varia pouco. Quem SEMPRE acaba pagando é quem não participou da festa.
Veja-se as variações em torno da crise da hora.
Nos Estados Unidos “a saída” foram as operações-gigantes de resgate de bancos e fundos “grandes demais para quebrar”, feitas à custa de emissão de moeda sem lastro.
Moeda sem quê?

É o seguinte:
Sendo ele o padrão mundial, imprimir mais dólares de papel representando a mesma riqueza (ou uma riqueza menor como, em geral, é o caso nessas horas) é decretar a redução, dólar por dólar, do valor de tudo que cada indivíduo ao redor do globo conquistou com o seu próprio suor.

Foi assim que você, eu, todos nós fomos constrangidos a pagar um pedaço da conta da festa do clube do bilhão la de Wall Street que, graças a isso, nunca teve de parar. Transferido o onus cá pra fora, lá dentro segue, impávida, a festança dos super bônus.

É a mesma coisa que a Europa falida quer fazer mas a Alemanha que não participou da festa ainda não deixa. É a mesma coisa que Brasília sempre fez com o Brasil, com exceção do interregno acidental de Fernando Henrique Cardoso e sua Lei de Responsabilidade Fiscal.

E a China? Quem paga as contas da grande festa da China?
Como lá tudo é do mesmo dono, a corda dá a impressão de ser mais elastica. “Eu não te pago e você não me cobra e fica tudo em casa”.

Mas há uma ponta do sistema que está fincada além da Grande Muralha. E esta não é tão flexivel.
O dinheiro nada mais é, em última instância, que uma representação da quantidade de trabalho embutido num bem.

O remnibi não é um valor internacional. Mas o trabalho hoje é.
A China passa o seu mico – financia o oceânico rombo das suas contas – “emitindo” desvalorização do trabalho em escala planetária.

Exporta o seu desemprego; mata direitos trabalhistas e massacra salários pelo mundo afora. E se apropria da diferença (superávit comercial) com que compra longevidade para o reinado dos príncipes e barões do Partido Comunista Chinês.

fernaslm
11 de junho de 2012

A EPIDEMIA DO VÍCIO

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Designers de jogos de computadores testam seus produtos até torná-los viciantes


Sugestão do Leitor

Caro leitor, neste espaço, você pode participar da produção de conteúdo em conjunto com a equipe do Opinião e Notícia. Sugira temas para pautas preenchendo os campos abaixo. Participe!

Jornalista britânico argumenta que a vida moderna está superestimulando as funções mais primitivas das pessoas, que encorajam a perda de controle

Obesa, descontrolada, viciada em jogos, pílulas, pornografia, e apetrechos tecnológicos, a humanidade moderna se depara com tentações para as quais é mal equipada para resistir. Damian Thompson, um jornalista britânico que parou de beber após 14 anos de alcoolismo, produziu um relato informativo e divertido do que ele retrata como uma epidemia do vício.

A sua principal mensagem em The Fix é que os viciados não sofrem de uma doença. Ele argumenta que o comportamento do dependente é essencialmente voluntário: uma desordem cerebral química pode influenciar o dependente a fazer más escolhas, que, apesar da má qualidade, são escolhas.
O ambiente também intensifica a tentação: o autor cita a epidemia de vício em heroína entre tropas norte-americanas na guerra do Vietnã. A maioria dos soldados descartou o hábito ao voltar para casa.

O livro – escrito em um estilo ágil que camufla a sua profundidade – presta uma atenção especial à química cerebral. Um conjunto de circuitos mentais diz às pessoas para consumirem o máximo possível: a comida que está aqui hoje pode ter desaparecido amanhã. Outras partes mais sofisticadas permitem que elas se restrinjam.
A vida moderna, argumenta Thompson, está confundindo as partes inteligentes e superestimulando as funções mais primitivas que encorajam a perda de controle. A dopamina – o neurotransmissor associado ao desejo – desempenha um papel importante: Thompson a chama de “droga mestra”. Ela contribui para que as pessoas continuem a desejar coisas que já não lhes dão prazer.

As empresas miram em tais fraquezas, utilizando-se de tecnologia alimentícia para criar combinações de gordura, sal e açúcar. Designers de jogos de computadores testam seus produtos para torná-los viciantes.

Ou seja, tanto a necessidade de manipular sentimentos quanto a habilidade para fazê-los cresceram de modo colossal. Inovações produzem vícios baratos, fortes e insalubres fortemente vinculados ao que outrora eram atividades prazerosas ligadas a metas evolucionárias (nutrição, socialização e reprodução).

Hoje em dia eles estimulam as pessoas muito além da satisfação de suas necessidades biológicas. Condicionados pela evolução para procurar prazer onde sabemos que podemos encontrá-lo, nos encontramos agora em um ambiente que “nos bombardeia com recompensas de que nossos corpos não precisam e que não ajudam em nada a garantir nossa sobrevivência como espécie”.
Reagir a isso, o autor argumenta, vai requerer que as pessoas recuperem a vigilância que seus ancestrais caçadores-coletores já tiveram em relação a riscos letais. Mas será que as pessoas estão dispostas a abandonar os seus vícios?

The Fix. Por Damian Thompson. Collins
11 de junho de 2012

CANDIDATO EGÍPCIO: UM NOVO LULA?


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Shafiq foi primeiro-ministro no governo Mubarak (Fonte: Reprodução/AFP)
Ahmed Shafik se compara ao ex-presidente brasileiro em comercial de campanha
O ex-primeiro-ministro do governo do presidente deposto Hosni Mubarak e atual candidato à presidência do Egito, Ahmed Shafik, vem utilizando imagens de Lula em um comercial de sua campanha eleitoral, enaltecendo e se comparando ao ex-presidente brasileiro.
Ahmed Shafik é considerado o candidato preferido do conselho militar que administra o Egito desde a queda de Mubarak, em fevereiro do ano passado. Ele disputa o segundo turno das eleições presidenciais nos dias 16 e 17 de junho com Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana.

A origem do candidato

A campanha de Shafik utiliza várias imagens congeladas de Lula em seu comercial, além de um texto em áudio afirmando que o ex-presidente “transformou o Brasil de forma significativa, ganhando o respeito do mundo inteiro e conduzindo a economia a níveis impressionantes”.

A origem humilde e a trajetória de Lula também são ressaltados a fim de mostrar que a origem de um candidato não deve ser um impedimento para seu futuro político. Tudo isso para lembrar o passado militar de Shafik.

O narrador do comercial afirma ainda: “‘não importa se ele é um tenente-general [cargo que Shafik ocupou no Exército egípcio], um médico, um embaixador ou um cientista nuclear. Nós queremos apenas um cidadão sincero. Não precisamos concordar com sua importância, mas sim elegê-lo e acreditar nele e que ele acredita no Egito”.

 
11 de junho de 2012

CAI A CÚPULA DO BNB

Denúncia da imprensa força Dilma a trocar cúpula do BNB

Dilma deve trocar cúpula do Banco do Nordeste. PF suspeita de desvios no valor de R$ 100 mi

A presidente Dilma Rousseff deverá promover mudanças na diretoria do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), após suspeitas levantadas pela Polícia Federal de que um esquema de fraudes em operações de crédito desviou R$ 100 milhões da instituição.


No sábado, o presidente do banco, Jurandir Santiago, demitiu seu chefe de gabinete, Robério Gress do Vale, suspeito de comandar o suposto esquema, revelado pela revista "Época" anteontem.

Segundo interlocutores de Dilma, serão afastados diretores indicados por PT e PMDB.

Hoje, o conselho de administração do BNB, que conta com dois representantes do Ministério da Fazenda, vai analisar a auditoria interna realizada para investigar operações do banco.

Essa investigação, segundo a revista, apontou que uma empresa de cunhados de Vale obteve R$ 12 milhões em créditos fraudulentos.

A suposta fraude teria se concentrado entre o final de 2009 e o início de 2011.

Em nota, o banco informa que, em julho de 2011, ao tomar conhecimento dos indícios de fraude, abriu sindicância e, desde então, já afastou funcionários.

A Folha não localizou o assessor demitido. A assessoria do banco não respondeu à reportagem.

11 de junho de 2012
(CATIA SEABRA e JOSÉ ERNESTO CREDENDIO)
 Folha de São Paulo

EM OITO ANOS DE PETISMO BRASIL JÁ TORROU QUASE R$ 2 BI NO HAITI

Brasil já gastou quase R$ 2 bi no Haiti. Valor da operação militar é mais de seis vezes o que foi destinado à Força Nacional pelo governo federal. Quantia equivale a dois anos de recursos utilizados no principal programa de segurança pública da União
O que começou como uma operação emergencial de seis meses, com um custo previsto de R$ 150 milhões, completou no início deste mês oito anos de duração, a um preço de quase R$ 2 bilhões.

A operação militar do Brasil no Haiti, iniciada em 1º de junho de 2004 como parte do plano do governo Lula para obter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, consumiu até agora mais de seis vezes o que foi gasto pelo governo federal com a Força Nacional brasileira entre 2006 e 2012.

Além disso, equivale a cerca de dois anos de gastos do principal programa de segurança pública da União, o Pronasci.

O valor de R$ 1,97 bilhão, já descontada a inflação do período, foi obtido pela Folha por meio da Lei de Acesso à Informação junto ao Ministério da Defesa.

A conta total é ainda maior, pois o ministério alegou não dispor de informações sobre auxílios, indenizações e outros benefícios previstos numa lei, criada após a entrada do Brasil no Haiti, que trata da remuneração de militares que atuam em missões internacionais de paz. Mais de 16 mil militares brasileiros estiveram no país desde 2004.

Segundo o levantamento, uma boa parte do dinheiro gasto pelo Brasil no Haiti foi dirigida à modernização de equipamentos. O Brasil adquiriu veículos (R$ 162,3 milhões), explosivos e munições (R$ 24,3 milhões), armamentos (R$ 22 milhões) e embarcações e equipamentos para navios (R$ 18,1 milhões).

Uma parte dos gastos do Brasil no Haiti é reembolsada pela ONU, responsável pela missão de paz. Até outubro de 2010, foram R$ R$ 328 milhões, ou apenas 25% do total (o ministério não repassou números atualizados).

Em nota, o ministério afirmou à Folha que os gastos estimulam a indústria militar brasileira. "A aquisição de material moderno para equipar os militares brasileiros permite, além da eficiência no emprego da tropa, fomentar a indústria de defesa brasileira e projetar o Brasil internacionalmente."

Um dos generais que lideraram a missão no Haiti disse, sob garantia de não ser identificado, que o Brasil "já devia ter pensado em sair" do país caribenho.

O oficial reconhece que o Brasil não vai retirar suas tropas "tão cedo" e por uma razão política: a missão é usada como cartão de visitas do Brasil no exterior, como um exemplo de sucesso.

RETIRADA

O volume de gastos e a extensão da missão brasileira no Haiti também têm pouca ressonância no Congresso.

A Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado dedicou neste ano quatro sessões para discutir a entrada de haitianos em território brasileiro, mas nenhuma para a missão militar.

No último dia 26 de abril, quando o ministro da Defesa, Celso Amorim, compareceu à comissão, a palavra Haiti sequer foi mencionada. Na comissão, não se cogita a retirada das tropas brasileiras.

"A posição nossa [da comissão] é de que, enquanto for preciso, e isso depende do Haiti e da ONU, nós vamos continuar lá", disse o senador Cristovam Buarque (PDT-DF). "Os custos que eu vejo são muito menores do que os custos para o Brasil se afirmar como um país que não volta as costas para outro país em necessidade", disse.

Integrante da comissão, a senadora Vanessa Grazziotin (PC do B-AM), não tem posição definida sobre uma saída imediata. "Conversei muito com os haitianos que vieram para o Brasil, e eles têm respeito pelo nosso país, viramos referência", disse.

Cerca de 6 mil haitianos entraram no Brasil ilegalmente desde 2010 pelas fronteiras do Acre e do Amazonas, segundo a senadora.

11 de junho de 2012
RUBENS VALENTE - Folha de São Paulo

NÓS E OS OUTROS

 
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“Só no Brasil” — eis aí três palavras que todo brasileiro costuma ouvir, 365 dias por ano, a respeito de coisas que só acontecem por aqui, geralmente muito ruins, e que são desconhecidas no resto do mundo.

Em geral começam como uma discreta trapaça no uso do dinheiro público, depois se transformam num hábito nacional e, no fim, acabam virando um maciço conto do vigário aplicado o tempo todo pelos governos — que, como viciados em drogas, não conseguem mais viver sem ele. É o que acontece, entre tantos outros pecados exóticos, com a “publicidade oficial”.

Qualquer cidadão sabe muito bem do que se trata — são esses anúncios que governantes de todos os níveis, da alta administração federal a remotas prefeituras do interior, pagam (com dinheiro do orçamento, é claro) para publicar em jornais e revistas, no rádio e na televisão. Dizem, ali, quanto são bondosos, eficazes e trabalhadores — e mostram as obras de seus governos, reais ou imaginárias, como se estivessem fazendo um imenso favor à população que pagou por elas.

No ano passado, só o governo federal gastou mais de 3 bilhões de reais em “comunicação”
A maioria dessa publicidade, para não dizer toda, trata o contribuinte como um perfeito bobo alegre, pronto a acreditar em qualquer coisa que lhe dizem.
Ainda recentemente, em São Paulo, o cidadão podia ver na TV, pago com o seu dinheiro, um anúncio do governo do estado que começava com a imagem de uma vaca, filmada de ré; a câmera se deslocava, então, para mostrar o que deveria ser uma rija lavradora, entregue à sua labuta de tirar, às 5 da manhã, o leite nosso de todo dia.
Mas o que aparece é uma graça de garota, com umas botas de cano alto que poderiam ter saído de uma loja Hermes, jeans de grife e sob a luz do meio-dia, com as mãos a distância segurando as tetas do bicho. Ela diz, aí, que sua grande alegria na vida é saber que o leite tirado com o seu trabalho é distribuído pelo governo para crianças pobres etc.

A única coisa real, no anúncio todo, é a vaca. Não há inocente aqui; todos os políticos, sem nenhuma exceção, fazem o mesmo quando estão no governo. Nesse assunto, ninguém critica ninguém, no conforto geral de saber que delitos coletivos nunca são realmente condenados.
É assim que permanece viva, cada vez mais, a publicidade oficial — uma aberração só vista no Brasil. Dá para imaginar o governo da Itália, por exemplo, gastando fortunas na mídia para dizer “Itália — um país para todos”? Ou algo assim: “Prefeitura de Londres — antes não tinha, agora tem”? Não dá. O funcionário que sugerisse uma coisa dessas seria provavelmente encaminhado a uma instituição psiquiátrica.

Neste momento, com a campanha eleitoral, a coisa pega fogo. No ano passado, só o governo federal gastou mais de 3 bilhões de reais em “comunicação”, entre publicidade e patrocínios. Juntando a isso estados e prefeituras, o volume de gastos entra em mares nunca dantes navegados.
Os políticos alegam que é pouco, diante do total de quase 90 bilhões aplicados no mercado publicitário brasileiro em 2011. Pode ser, mas o dinheiro não é deles — é do cidadão, e está sendo jogado no lixo para pagar os elogios que fazem a si próprios.
Sua desculpa é que os governantes têm o dever de “informar a população” e “prestar contas” de como estão aplicando o orçamento. É uma piada. Não informam coisa nenhuma, e, na hora de prestar contas de verdade, fazem justamente o contrário: desligam a chave geral para deixar tudo o mais escuro possível.

Os órgãos de comunicação, sem dúvida, se beneficiam da publicidade oficial; nenhum deles é uma santa casa de misericórdia, e todos têm de pagar suas despesas. Mas a imprensa de verdade vive do apoio do seu público e dos anúncios privados que ele atrai, e não de verbas publicitárias do governo. Seu único mandamento, nessa história toda, é manter a própria independência.
E os que não mantiverem? Problema deles. Veículos que, em troca de anúncios, só publicam o que interessa ao governo, e escondem tudo o que não interessa, têm de resolver isso com os seus leitores, ouvintes e espectadores; se eles desconfiarem que estão sendo enganados, podem ir embora.

O certo, no fim de todas as contas, é que o governo não deveria pagar um único tostão para a mídia publicar sua propaganda. Eis aí mais uma coisa que nos separa, por exemplo, de um país como a Alemanha, onde publicidade oficial não existe. É que a Alemanha, coitada, é apenas a Alemanha. Já o Brasil é o Brasil — aqui há dinheiro de sobra para o governo jogar pela janela. Somos um país onde a população é riquíssima.

J.R. Guzzo
11 de junho de 2012
Fonte: Veja