"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



domingo, 24 de junho de 2012

CASTA! BRASIL CARCOMIDO 2





O Ministério Público entrou na Justiça contra o alto custo da assistência médica prestada aos senadores. Alega que há distorções nos valores pagos.

Um senador chegou a gastar R$ 740 mil num convênio.


O benefício é vitalício e não há limite para as despesas médicas de senador em exercício e dependentes. O MP aponta falta de critérios nos procedimentos cobertos, dando margem a gastos abusivos.

Um senador ganhou reembolso de R$ 78 mil pela colocação de 22 coroas de porcelana.

Ilimar Franco, O Globo

24 de junho de 2012
camuflados

MANUAL DO TWITER DO PARTIDO CHAVISTA PSUV VAZA NA INTERNET E REVELA QUE GOEBBELS É O INSPIRADOR DOS CHAVISTAS!

Um blogueiro venezuelano de oposição vazou com exclusividade no blog Zonatwive, o Manual do Twitter do PSUV o partido chavista. Ao pesquisar mais a fundo o blogueiro chegou até a Comissão de Agitação e Propaganda dos chavistas e se surpreendeu ao encontrar lá a citação das lições de Joseph Goebbels, chefe da propaganda do nazismo.
Transcrevo no original em espanhol o texto do blogueiro venezuelano com link ao final para ler tudo:
Goebbels, guru do chavismo

Volando con mi escoba, conseguí en el internet un manual de twitter del PSUV. Al analizar el presente manual, el cual presumo es del año 2010. Aparentemente, en dicho manual se utiliza como ejemplo un ciudadano llamado “Ignacio Capote”, cuyo perfil en twitter es @ignaciocapote y quien tiene la particularidad de que todos los que siguen su cuenta, a la vez siguen a Cuba debates. Podemos observar que en el manual se utilizan una palabras que no son del uso común nuestro país, ejemplo “almohadilla”. Lo que demostraría claramente, la ideologización de los militantes del PSUV por factores externos, por no decir cubanos. Vean el manual, y saquen Uds. sus propias conclusiones. Agrego al manual, un artículo de la comisión de Comunicación, Propaganda y Agitación directamente tomada del Site del PSUV.
Al buscar, temas de propaganda para entender el objeto de la Comisión de Comunicación, Propaganda y Agitación. Encontré como referencia, algunos principios de la propaganda Nazi, propuesta por Joseph Goebbels que demuestran las formas como los alemanes lograron distorsionar la realidad. Seguramente, en aquellos tiempos no había aquel “iluminado” que les quería hacer decir: “Primero Dios y después mi Comandante” … Sátrapas!!! hasta la próxima. HACER clic AQUÍ para leer y ver las FOTOS
23 de junho de 2012
in aluizio amorim

GOVERNO DA DILMA NÃO FALA MAIS EM GOLPE

AFIRMA QUE "NÃO TOMARÁ MEDIDAS QUE PREJUDIQUEM O POVO IRMÃO DO PARAGUAI"
O Itamaraty vermelhão: hora de mudar de cor pelo bem do Brasil.
O governo da dona Dilma baixou a bola e já não fala mais em "golpe". Convocou o embaixador brasileiro no Paraguai apenas para "consultas". E afirma que não tomará "medidas que prejudiquem o povo irmão do Paraguai".
 
Nestas alturas a nota do Itamaraty, completamente aparelhado pelo PT, é ridícula, haja vista que Dilma e seus sequazes passaram a sexta-feira ameançado o novo governo paraguaio e insuflando a revolta dos partidários do presidente destituído legalmente de acordo com o que rege a Constituição daquele país.
Tanto é que no entardecer deste sábado - em que pese a instigação de parte da grande imprensa e seus jornalistas comunistas - o presidente Federico Franco participou de uma missa que reuniu mais de mil pessoas na praça da Catedral em Assunção, num clima de completa normalidade.
 
De quebra ainda obteve o explícito apoio do Vaticano, da Alemanha e da Espanha que foram os primeiros a reconhecer o novo Governo.
Com o advento do PT ao poder, a diplomacia brasileira tradicionalmente respeitada e competente, passou a ser utilizada como um "aparelho do PT", protagonizando trapalhadas como a que se viu no episódio de Honduras.
Desta feita, contrariando ao mais elementar manual de diplomacia, o governo brasileiro sob o jugo do PT, mais uma vez pisou feito na bola, quando deveria ser contido e protocolar, exercendo a diplomacia em suas declarações, justo num momento de crise de um país vizinho como o qual o Brasil mantém estreita relação, o que não se viu até sexta-feira e na imprensa deste sábado.
Eis a íntegra da nota do Itamaraty que está sendo publicada nos sites noticiosos brasileiros:

"O Governo brasileiro condena o rito sumário de destituição do mandatário do Paraguai, decidido em 22 de junho último, em que não foi adequadamente assegurado o amplo direito de defesa. O Brasil considera que o procedimento adotado compromete pilar fundamental da democracia, condição essencial para a integração regional.

Medidas a serem aplicadas em decorrência da ruptura da ordem democrática no Paraguai estão sendo avaliadas com os parceiros do MERCOSUL e da UNASUL, à luz de compromissos no âmbito regional com a democracia.

O Governo brasileiro ressalta que não tomará medidas que prejudiquem o povo irmão do Paraguai.

O Brasil reafirma que a democracia foi conquistada com esforço e sacrifício pelos países da região e deve ser defendida sem hesitação.

O Embaixador do Brasil em Assunção está sendo chamado a Brasília para consultas."
 
24 de junho de 2012
in aluizio amorim

BRINCANDO COM A VERDADE...



Para mim, a televisão é muito instrutiva. Quando alguém a liga, corro à estante e pego um bom livro para ler.
(Groucho Marx)

24 DE JUNHO DE 2012

LUGO REAPARECE E FALA NO "MICROFONE ABERTO" DA TV PÚBLICA PARAGUAIA


 
Nesta madrugada, o presidente deposto Fernando Lugo, do Paraguai, falou aos seus seguidores no microfone aberto instalado defronte à TV pública, em Assunção. Disse que aceitou o julgamento para evitar violência no país. Justamente ele que não conseguiu, nos últimos anos, impedir o massacre ocorrido em função da sua falta de comandao, onde morreram seis policiais e onze sem-terra.
 
24 de junho de 2012
 

sábado, 23 de junho de 2012

A VINGANÇA MALIGNA DE MALUF

 

Perto das imagens que estavam ontem na primeira página dos principais jornais do País, o fato de o PT de Lula ter ido buscar o apoio do PP de Paulo Maluf à candidatura do ex-ministro da Educação Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo chega a ser uma trivialidade. O chocante, pela abjeção, foi o líder petista se dobrar à exigência de quem ele já chamou de "ave de rapina" e "símbolo da pouca-vergonha nacional", indo à sua casa em companhia de Haddad, e posar em obscena confraternização, para que se consumasse o apalavrado negócio eleitoral.

Contrafeito de início, Lula logo silenciou os vagidos íntimos de desconforto que poderiam estragar os registros de sua rendição e cumpriu o seu papel com a naturalidade necessária, diante dos fotógrafos chamados a documentar o momento humilhante: ria e gesticulava como se estivesse com um velho amigo, enquanto o anfitrião, paternal, afagava o candidato com cara de tacho. Da mesma vez em que, já lá se vão quase 20 anos, colocou Maluf nas "nuvens de ladrões" que ameaçavam o Brasil, Lula disse que ele não passava de "um bobo alegre, um bobo da corte, um bufão". Nunca antes - e talvez nunca depois - o petista terá errado tanto numa avaliação.

Criatura do regime militar, desde então com uma falta de escrúpulos que o capacitaria a fazer o diabo para satisfazer as suas ambições de poder, prestígio e riqueza, Maluf aprendeu a esconder sob um histrionismo não raro grotesco a sua verdadeira identidade de homem que calculava. As voltas que o País deu o empurraram para fora do proscênio - menos, evidentemente, no palco policial -, mas ele soube esperar a ocasião de mostrar ao petista quem era o bobo alegre.
A sua vingança, como diria o inesquecível Chico Anísio, foi maligna. Colocou de joelhos não o Lula que desceu do Planalto para se jogar nos braços do povo embevecido, deixando lá em cima a sucessora que tirara do nada eleitoral, mas o Lula recém-saído de um câncer e cuja proverbial intuição política parece ter-se esvanecido.

Nos jardins malufistas da seleta Rua Costa Rica, anteontem, o campeão brasileiro de popularidade capitulava diante não só de sua bête noire de tempos idos, mas principalmente da patologia da sua maior obsessão: desmantelar o reduto tucano em São Paulo, primeiro na capital, na disputa deste ano, depois no Estado, em 2014, para impor a hegemonia petista ao País com a reeleição da presidente Dilma ou - por que não? - a volta dele próprio ao Planalto, "se a Dilma não quiser". Lula não é o único a acreditar que, em política, pecado é perder. Mas foi o único a dizer, em defesa das alianças profanas que fechou na Presidência, que, se viesse a fazer política no Brasil, Jesus teria de se aliar a Judas.

Não se trata, portanto, de ficar espantado com a disposição de Lula de levar a limites extravagantes o credo de que os fins justificam os meios. O que chama a atenção é a sua confiança nos superpoderes de que se acha detentor, graças aos quais, imagina, conseguirá dar a volta por cima na hora da verdade, elegendo Haddad e sufocando a memória da indecência a que se submeteu.
Não parece passar por sua cabeça que um número talvez decisivo de eleitores possa preferir outros candidatos, não pelo confronto de méritos com o petista, mas por repulsa à genuflexão de seu patrono perante a figura que representa o que a política brasileira tem de pior.

Lula talvez não se dê conta de que a maioria das pessoas não é como ele: respeita quem se respeita e despreza os que se aviltam, ainda mais para ganhar uma eleição. Ele tampouco se lembrou de que, em São Paulo - berço do PT -, curvar-se a Maluf tem uma carga simbólica incomparavelmente mais pesada do que adular até mesmo um Sarney, por exemplo.

Não se iluda o ex-presidente com o recuo da companheira de chapa do candidato, a ex-prefeita Luiza Erundina, do PSB. Ontem ela desistiu da candidatura a vice, como dera a entender na véspera ao dizer que "não aceitava" a aliança com Maluf. Razões outras que não o zelo pela própria biografia podem tê-la compelido, no entanto, a continuar apoiando Haddad. Já os eleitores de esquerda são livres para recusar-lhe o voto pela intolerável companhia.

O Estado de S.Paulo
23 de junho de 2012

O INÍCIO DE UMA NOVA ESTAÇÃO PARA O MUNDO CIVILIZADO

 

A ideia de que uma só obra pode mudar a história começou a preocupar, ainda jovem, o hoje consagrado crítico literário, historiador e professor da Universidade de Harvard Stephen Greenblatt. Ele é um expoente do new historicism (novo historicismo) e vai à próxima Flip debater Shakespeare (leia texto abaixo). Greenblatt procurava leituras para as férias de verão no sebo da Universidade de Yale e se sentiu atraído pelo erotismo da capa de um volume de poesia com o preço desejável de US$ 0.10. O verão que passou mergulhado em Da Natureza, o longo poema escrito 2 mil anos antes pelo romano Lucrécio, inspirou A Virada - O Nascimento do Mundo Moderno, o livro de Greenblatt contemplado com o último Prêmio Pulitzer e o National Book Award de 2011, lançado agora no Brasil.

A Virada narra a redescoberta, em 1417, do poema de Lucrécio dado como perdido por mil anos. O livro é um tratado visionário sobre a natureza de tudo e foi encontrado num monastério alemão pelo italiano Poggio Bracciolini, então recém-demitido como secretário de um papa corrupto e deposto.

Bracciolini, erudito à caça de obras perdidas da era clássica, no estilo dos humanistas da época, salvou Da Natureza do esquecimento, mandando seu copista reproduzir o livro, que logo se espalhou pela Europa. O efeito dessa decisão tomada antes mesmo de Bracciolini compreender a importância do que tinha nas mãos, se fez sentir, narra Greenblatt, muito além da escuridão do monastério, através da Renascença - e apontou para a modernidade.

Há 2 mil anos, Lucrécio descreveu em Da Natureza um mundo formado por um número infinito de átomos, um mundo sem Deus, onde a busca do prazer deve se dar na Terra pelo homem. Era uma tentativa de nos liberar do medo da morte, interpretou, desde o início, o estudante Greenblatt.

Mas Lucrécio abre o poema com um belíssimo hino a uma deusa, Vênus:
Ó mãe dos Enéadas, prazer dos homens e dos deuses, ó Vênus criadora,
que por sob os astros errantes povoas o navegado mar e as terras férteis em searas, por teu intermédio se concebe todo o gênero de seres vivos e, nascendo, contempla a luz do sol: por isso de ti fogem os ventos, ó deusa
Greenblatt não vê incongruência nesses versos. "Lucrécio queria se apegar ao poder da imaginação como força erótica", diz ele.

Por que decidiu mergulhar na história da perda e recuperação do poema Da Natureza?
Não conhecia a história quando encontrei o livro por acaso, com 18 ou 19 anos. Mas, como passei minha vida profissional estudando a Renascença, me tornei interessado no que chamo de mobilidade cultural. O que acontece quando as coisas são deslocadas e precisam interagir com novo ambiente? Esse é tema recorrente da Renascença e ótimo exemplo é História de Uma Viagem Feita na Terra do Brasil, do Jean de Léry, em 1578. É um livro maravilhoso sobre um encontro em que uma cultura é forçada a interagir com outra, totalmente estrangeira.

Temos exemplos dessa mobilidade em Shakespeare, que quase nunca criava uma trama do nada, adaptava narrativas clássicas.
A recuperação de Lucrécio é emblemática desse tema, da obra fazendo uma reentrada em nova cultura.
O senhor nota que a primeira versão do poema que encontrou tinha uma tradução apenas correta e acredita que mesmo as obras mal traduzidas retêm seu impacto, quando descobertas em outro contexto.

Sim, acredito nisso. Uma antiga fonte de frustração para mim é não poder ler originais em línguas que não domino, especialmente o grego clássico. Mas isso não me impede de sentir a força da Ilíada e da Odisseia. Muito depois de ler a primeira tradução de Da Natureza, consegui ler o original em latim e aí o poder do poema cresceu para mim. Eu tive de ler Os Lusíadas em inglês, sei que não senti o mesmo como se dominasse o português, mas fui tocado pelo poema de Camões e entendo sua importância. Afinal, a tradução repousa sobre a convicção de que algo vai ser transmitido.
A virada do título se refere, na verdade, a múltiplas viradas e começa com a noção epicurista de clinamen, exposta por Lucrécio.

Sim, e você tem em português a palavra declinar, que usa a raiz latina para a virada. Eu destacaria pelo menos três viradas. Para Lucrécio, o Universo é um mundo material, onde não há deuses ou causas misteriosas. O que existe é o acaso e a incerteza com o fato de que os átomos se movimentam a qualquer momento e é impossível localizá-los.
Só a física quântica do século 20 retornou a essa questão, que era considerada uma ideia ridícula, tanto quando Lucrécio escreveu, quanto depois, na Renascença. A segunda virada acontece com os acontecimentos inesperados que levam à redescoberta do livro por Poggio Bracciolini. E a virada maior se dá na mudança lenta do mundo medieval para a modernidade. O conteúdo do livro, que era estrangeiro e até bizarro na Renascença, foi instrumental na evolução para a modernidade.

E como o senhor distingue a progressão dessa mudança, entre a Renascença e o mundo moderno?
Para mim, há o distúrbio fundamental da Renascença, nesse dia do inverno alemão, há 600 anos, quando alguém encontra um manuscrito do tempo de Cícero e Júlio Cesar. Aquela era se define em parte pela redescoberta dos clássicos. Essa foi a tarefa a que se dedicou Poggio Bracciolini, um homem que servia à corte de um papa corrupto, e sua empreitada é a quintessência do Renascimento.

Todo o ser nasce. A natureza experimenta incessantemente. Se uma criatura é capaz de se reproduzir e encontrar alimento, pode estender a vida de sua espécie. E será extinta quando o ambiente se tornar hostil. Lucrécio entendia a extinção das espécies há 2 mil anos, algo viria a violar os preceitos do cristianismo. Esta era uma noção radicalmente moderna, e não podia ser aceita na Renascença.

Por falar em espécies, não acha estranho ler um poema de 2 mil anos, ligar a TV, no século 21, e ouvir um conservador como Rick Santorum, que foi candidato sério a presidente, falando do assunto?
(Risos) É verdade, os Estados Unidos são de uma piedade incomum no mundo contemporâneo. Acredito que haja vários motivos pelos quais os americanos se agarram tanto ao fundamentalismo e me pergunto se um deles não tem a ver com uma reação a deslocamentos provocados pela tecnologia. Uma pesquisa de opinião recente mostrou que 75% dos pastores protestantes acreditam que Adão e Eva são personagens literais.

Como você pode acreditar nisso e ao mesmo tempo acreditar nos últimos 200 anos da ciência? A alternativa da imaginação oferecida por Lucrécio continua encontrando grande resistência no nosso tempo. E veja que ele não estava reagindo ao cristianismo, reagia ao culto de Diana e Apolo. Nossos atletas, quando marcam um gol, olham para os céus, como se alguém lá em cima tivesse chutado. Esse tipo de pensamento mágico traz conforto.
Foi frustrante não encontrar mais fatos sobre a vida de Lucrécio, já que nada emergiu após a recuperação do manuscrito, no século 15?

Não havia informação confiável. O relato de seu tormento erótico após tomar uma "poção do amor" e o suposto suicídio aos 44 anos, feito por São Jerônimo, em 94 a.C., veio de um polemista interessado em lançar luz negativa sobre um filósofo pagão. Sabemos mais sobre Cícero e Ovídio. Compensei essa lacuna mergulhando sobre a vida de Bracciolini, sobre quem conhecemos bastante.

O senhor escreve que Shakespeare foi só uma faceta espetacular de um movimento cultural mais amplo, que incluiu Rafael, Montaigne, Cervantes, dezenas de artistas e escritores. Mas lembra que Da Natureza se reflete na arte primeiro.

É o que é mais interessante, na minha perspectiva. O poema volta ao mundo em 1417, num momento em que suas proposições eram profundamente inaceitáveis. E por quê? O poema poderia ter desaparecido, mas como sobreviveu? Porque foi abraçado por intelectuais, cientistas, mas, acima de tudo, inicialmente por artistas. Ele aparece na Primavera de Botticelli.

Nas obras do excepcionalmente estranho Piero di Cosimo, de Florença. Foi acolhido nos Ensaios de Montaigne, que cita diretamente Da Natureza em mais de cem passagens, ainda que discorde de Lucrécio. É fascinante notar essa aceitação estética do poema, que não depende da tolerância a suas ideias. É uma apreensão de significado que precede em muito o momento, no século 17, quando Galileu se volta para os átomos ou outros cientistas cujo trabalho depois vai desaguar em Isaac Newton.
E isso mostra como a arte tem o poder de antecipar a nossa compreensão do mundo?

Sim, esquecemos como a arte faz avançar ideias que o presente ainda não pode aceitar. Os artistas que compreenderam Lucrécio sabiam que a arte não se opõe à ciência. Lucrécio produziu um dos grandes textos visionários sobre esse encontro. Hoje, podemos olhar para ele e pensar como devemos curar essa divisão entre o artista e o cientista.
Lúcia Guimarães - O Estado de S.Paulo
23 de junho de 2012

O SUMIÇO DO VÍDEO MOSTROU QUE, PARA DILMA, FALAR INGLÊS É FALAR BRASILEIRO SÍLABA POR SÍLABA

 

A presidente Dilma Rousseff anuncia à plateia a próxima atração da Rio+20: um vídeo “com uma mensagem da Estação Espacial Internacional, cortesia da NASA, Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço”, recita com um papel na mão.
Olha para a direita. O vídeo não aparece. Olha para a esquerda. Nada. Olha para a frente e para baixo. Coça os dois lados do rosto, logo abaixo das pálpebras. Confere outra vez. O vídeo continua sumido. Olha desconfiada para Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, sentado à sua direita.

A cara de brava avisa que vai dar um pito no companheiro sul-coreano. Ou pelo menos chamá-lo de “meu querido”. Resolve dar uma última chance a Ki-moon. “E o vídeo?”, pergunta. O tom de voz é parecido com o que fazia José Sérgio Gabrielli chorar.
A expressão confusa do visitante informa que o suspeito não entende coisa alguma em português, nem imagina o que enfureceu a presidente do Brasil. Então, Dilma decide interrogá-lo em inglês: “VI-DE-Ô”. Para sorte do desavisado forasteiro, o vídeo aparece antes que a inquisidora parta para as vias de fato.

O vídeo sobre o sumiço do vídeo comprova que, para o neurônio solitário, falar inglês é falar brasileiro sílaba por sílaba.



23 de junho de 2012
Augusto Nunes

"WASHINGTON POST": NÃO VALEU A PENA GASTAR MILHÕES COM RIO + 20

Imprensa americana critica resultados da Rio +20. Para o 'Washington Post', não vale a pena gastar milhões em cúpula mundial sobre mudanças climáticas

Os jornais americanos reagiram ao encerramento da Rio+20 com omissão completa ou crítica dura ao seus resultados. O New York Times e o Wall Street Journal seguiram a primeira linha. O Washington Post afirmou não valer a pena gastar tantos milhões de dólares em reunião cúpula mundial sobre mudança do clima.
Veja também:
Na Califórnia, o Estado mais consciente sobre a questão ambiental, o Los Angeles Times foi um dos raros jornais americanos a se concentrar no lado positivo do encontro no Rio de Janeiro. O LATimes destacou o compromisso de aporte de US$ 513 bilhões em planos para levar tratamento de águas, obras sanitárias e energia aos países mais pobres, sem a degradação do meio ambiente.
O Post, entretanto, mostrou-se implacável na análise dos resultados em reportagem escrita de Washington, com base na avaliação de especialistas locais.
O texto diz ter a conferência "produzido uma declaração não-vinculativa", com compromissos modestos dos líderes mundiais. "As propostas apresentadas no início, como a de prover acesso universal à energia e de dobrar os recursos renováveis até 2030, foram deixadas no chão da sala."
A reportagem cita a conclusão da diretora de política Internacional do Pew Environment Group, Susan Lieberman, que considerou positiva a atenção da Rio +20 para os oceanos. Mas, de forma geral, sua leitura sobre o evento do Rio de Janeiro foi negativa. "Não sei se eles devem fazer isso (uma nova conferência da ONU sobre mudança climática) de novo e não sei se precisaremos de outra de novo", afirmou Susan ao Post.
Se não saiu nas páginas do NYTimes de ontem, o tema foi pelo menos explorado pelos seus blogs. O de Taylor Barnes, dedicado a questões de Energia e Meio Ambiente, expôs o "palco colorido" proporcionado por personalidades políticas e ambientalistas presentes no Rio de Janeiro.
O texto assinalou as ausências do presidente dos EUA, Barack Obama, e da chanceler alemã, Angela Merkel. Mas ressaltou ter o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, tirado vantagens de sua presença, assim como as lideranças indígenas brasileiras contrárias à construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará.
23 de abril de 2012
Denise Chrispim Marin - Correspondente em Washington

DE ONDE AFINAL, VEIO O DINHEIRO DA QUADRILHA "ALOPRADA" DE LULA?

 
Escândalo dos 'aloprados' do PT ainda não foi totalmente esclarecido. Trapaça eleitoral resultou na denúncia contra um grupo de petistas rasos. Apesar das evidências, não se descobriu de onde veio o dinheiro, muito menos quem foi o mandante da operação

Pressão - O delegado Edmilson Bruno, que prendeu os “aloprados”, disse que o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, telefonou para a delegacia e perguntou se o nome do presidente Lula havia sido citado pelos presos
Pressão - O delegado Edmilson Bruno, que prendeu os “aloprados”, disse que o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, telefonou para a delegacia e perguntou se o nome do presidente Lula havia sido citado pelos presos (Tuca Vieira/ Folhapress; Dida Sampaio/ AE)
dinheiro! que dinheiro?   Surpreendidos pela polícia, os petistas tiveram um ataque de amnésia: esqueceram o nome dos mentores da trama e a origem do dinheiro

Na semana passada, a Justiça Federal abriu processo contra nove envolvidos no escândalo dos aloprados, aquele em que petistas foram presos em São Paulo, às vésperas das eleições de 2006, quando se preparavam para comprar um dossiê fajuto que serviria para enredar políticos do PSDB com a máfia que fraudava licitações no Ministério da Saúde. A decisão sugere que mais uma jogada rasteira de petistas interessados em se perpetuar no poder à base de práticas escusas — entre as quais o mensalão desponta como exemplo mais degradante — será, depois de seis anos, finalmente punida. Ledo engano.

Os aloprados levados às barras dos tribunais são militantes de baixo escalão e meros tarefeiros a serviço de próceres do partido. Eles vão responder a um processo manco, que não esclarece duas das principais dúvidas relacionadas ao caso: quem encomendou a trapaça eleitoral e de onde saiu o dinheiro que financiaria a operação.

Se essas questões não forem explicadas, restará a certeza de que compensa investir no vergonhoso vale-tudo que impera na política brasileira. Afinal, como castigo, só uma arraia-miúda do PT ficará pelo caminho.

Os aloprados — como foram batizados pelo ex-presidente Lula depois de descobertos pela Polícia Federal — agiram em setembro de 2006 numa tentativa de implicar o tucano José Serra, ex-ministro da Saúde e então candidato ao governo de São Paulo, com a quadrilha que desviava recursos públicos direcionados para a compra de ambulâncias.

Os petistas portavam 1,7 milhão de reais para comprar papéis falsos destinados a macular a imagem do tucano. À frente da ação figuravam assessores próximos de Lula e do atual ministro da Educação, Aloizio Mercadante, que à época disputavam, respectivamente, a reeleição presidencial e o governo paulista. Essa operação para atingir os adversários foi um dos muitos tiros no pé disparados pelo partido, talvez o mais exemplar deles.

Em vez de ajudar o PT, o caso, ao ser revelado, contribuiu para que Lula fosse obrigado a disputar um segundo turno contra Geraldo Alckmin. Já Mercadante foi derrotado por Serra. As urnas foram as únicas penalidades impostas aos dois petistas. O caso, porém, é mais um a reforçar a suspeita de que órgãos de investigação têm sido usados com fins meramente políticos — principalmente para livrar cardeais do PT de embaraços com a Justiça.

A PF concluiu o inquérito sobre o escândalo, ainda em 2006, com o indiciamento de sete pessoas. Não conseguiu apontar os mandantes do crime nem a origem do dinheiro que pagaria o dossiê fajuto.

Apesar de sobrarem evidências sobre a participação de integrantes do comitê central de campanha de Lula, o personagem mais graúdo entre os indiciados foi Aloizio Mercadante.

Os policiais concluíram que Mercadante seria o principal beneficiário do dossiê, que atingia seu rival direto na eleição de 2006. O indiciamento do petista foi derrubado posteriormente pelo Supremo Tribunal Federal.

Restaram, então, só os militantes usados pelo partido para transportar a mala com notas de real e dólar e executar o plano. Os cérebros da empreitada ficaram de fora. No auge do episódio, a Polícia Federal foi acusada de montar uma operação limpeza para apagar os indícios que poderiam levar aos petistas graúdos.

Coube a um dos delegados que participaram da investigação, Edmilson Bruno, denunciar a trama. Em depoimento ao Ministério Público, ele acusou alguns de seus principais superiores hierárquicos de ter feito pressão para impedir que o caso chegasse ao núcleo da campanha de Lula. Responsável pela apreensão do dinheiro num hotel vizinho ao Aeroporto de Congonhas, o delegado revelou que até o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, tinha se empenhado pessoalmente no caso, indagando se os presos haviam citado o nome do presidente Lula.

Tuca Vieira/ Folhapress; Dida Sampaio/ AE
Pressão - O delegado Edmilson Bruno, que prendeu os “aloprados”, disse que o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, telefonou para a delegacia e perguntou se o nome do presidente Lula havia sido citado pelos presos
Pressão - O delegado Edmilson Bruno, que prendeu os “aloprados”, disse que o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, telefonou para a delegacia e perguntou se o nome do presidente Lula havia sido citado pelos presos

A investigação da Polícia Federal deixou mais lacunas que certezas. Seguir o caminho do dinheiro, procedimento básico em investigações desse tipo, foi uma das medidas deixadas de lado.

Graças a informações enviadas pelo FBI, a polícia federal americana, os agentes brasileiros souberam que os dólares que faziam parte da dinheirama apreendida foram impressos em Miami, circularam pela Alemanha e foram parar numa casa de câmbio do Rio de Janeiro. Lá, foram comprados por pessoas humildes, os conhecidos laranjas.

A investigação parou por aí. Não se conseguiu sequer descobrir a mando de quem estavam esses laranjas. Já a origem dos reais nunca deixou o terreno das hipóteses, embora existissem duas pistas consistentes dentro do próprio inquérito. A primeira é que uma parte do dinheiro foi sacada em três bancos de São Paulo, provavelmente pela mesma pessoa.

Essa conclusão foi possível após os agentes perceberem nas planilhas da quebra de sigilo telefônico que um mesmo celular, em nome de Ana Paula Cardoso Vieira, era usado para falar com vários envolvidos no escândalo. Ana Paula, na verdade, era Hamilton Lacerda, um dos aloprados petistas encarregados de executar a operação (o CPF da verdadeira Ana Paula foi usado pelo bando para habilitar o aparelho). No dia da prisão, Hamilton "Ana Paula" Lacerda teria passado por três bancos diferentes.

"Tentamos várias formas de identificar a origem do dinheiro e não conseguimos", justifica-se o delegado federal Diógenes Curado, responsável pela conclusão do inquérito.

A outra suspeita, de que parte do dinheiro tinha origem na Bancoop, cooperativa controlada por grão-petistas e usada em outros rolos financeiros do partido, também foi deixada de lado. Tão logo foi concluído pela PF, o inquérito seguiu para o Ministério Público Federal. Os procuradores poderiam ter solicitado diligências para sanar as deficiências da investigação original, mas os avanços foram pífios. A abertura de processo na semana passada sugere o pleno funcionamento das instituições e alimenta a esperança de punição aos culpados.

Na prática, porém, fica a impressão de que, mais uma vez, tudo vai terminar na conta de um bando de inconsequentes — ou aloprados, como preferem alguns.



Rodrigo Rangel e Otávio Cabral - Veja
Colaborou Hugo Marques
23 de junho de 2012

"RADIOGRAFIA DA INEFICIÊNCIA" (DE DILMA)

Editorial do Estadão

Incapaz de planejar e de tocar projetos, o governo federal só conseguiu um bom nível de execução em pouco mais de metade - 54% - das 92 ações prioritárias incluídas no orçamento do ano passado, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU). O novo relatório sobre as contas governamentais, entregue ao presidente do Senado na terça-feira, vale como um atestado de incompetência gerencial. A execução de um quinto das ações foi considerada fraca ou muito fraca.

A de outros 26%, apenas razoável. Apontada muitas vezes como administradora severa e eficiente - uma fama inexplicável, quando se considera seu desempenho no governo central -, a presidente Dilma Rousseff completou seu primeiro ano de mandato com resultados muito pobres.


O quadro continua ruim, quando se deixa de lado o número de ações e se examinam os valores aplicados nos vários programas e projetos. No orçamento de 2011 foram autorizados R$ 17,3 bilhões para o conjunto de prioridades. Foram empenhados R$ 14,5 bilhões, 84% do total. Mas só foram efetivamente liquidados R$ 10,3 bilhões, 59,5% do valor previsto para o ano. Sobraram dos empenhos R$ 4,3 bilhões de restos a pagar transferidos para os anos seguintes.

O relatório chama a atenção para o atraso na execução de grande parte das obras de infraestrutura e para o consequente aumento de custos. Os problemas decorrem não só de falhas na preparação e na condução dos projetos, mas também da lentidão nas decisões. O autor do parecer, ministro José Múcio Monteiro, alerta para os riscos da indefinição quanto às concessões do setor de eletricidade com vencimento previsto para 2015. Esses contratos representam 18% de toda a geração de energia elétrica e 84% da rede básica de transmissão e envolvem 37 das 63 distribuidoras de energia.

Há problemas de atrasos em todos os setores, mas o quadro é especialmente preocupante quando se trata de energia e de transportes. Neste setor, falta a conclusão dos planos aeroviário, portuário e hidroviário. Sem avanço nesse trabalho, não haverá como consolidar o planejamento das várias modalidades.

Várias das grandes obras foram incluídas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), lançado em 2007 e com execução muito atrasada, embora já tenha sido inaugurada oficialmente sua segunda fase. Previa-se inicialmente para 2014 a conclusão das obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e da ferrovia de alta velocidade, mas o prazo dos dois projetos foi ampliado até 2019. "Esses atrasos não são isolados nem restritos aos grandes empreendimentos. No eixo Transportes, a diferença média entre os prazos repactuados no PAC 2 e os prazos estimados ao final do PAC 1 é de 437 dias por ação", comenta o autor do parecer.

A falta de capacidade de administrar grandes obras e projetos complexos caracteriza, segundo ele, tanto o governo federal quanto as administrações estaduais e municipais e até as empresas privadas, "responsáveis pela execução de grande parte das obras do PAC". A baixa qualidade dos projetos básicos também prejudica o rendimento dos investimentos, forçando revisões durante as obras, e, portanto, o cronograma e os custos.

O relator acentua a necessidade de melhoras no acompanhamento dos projetos e na avaliação dos resultados. Isso vale não só para as obras financiadas pelo setor público, mas também para o uso dos benefícios fiscais concedidos ao setor privado. A renúncia fiscal aumentou 30% em 2011 e chegou a R$ 187,3 bilhões, mas faltam, segundo o relatório, prestações de contas satisfatórias e indicadores para avaliação do uso desses recursos.

Diante disso, o relator sugeriu à Casa Civil dois cuidados na elaboração dos projetos de lei e de medidas provisórias para concessão ou ampliação de benefícios tributários: identificação do órgão gestor da política e especificação de objetivos, indicadores e critérios de avaliação de resultados.

A presidente Dilma Rousseff assumiu o governo prometendo elevar a qualidade do gasto público e a eficiência da administração federal. Pouco fez para cumprir essa promessa, até agora. Refletir sobre a análise e o parecer do TCU sobre o exercício de 2011 talvez a estimule a cuidar mais seriamente do assunto.

O Estado de S.Paulo
23 de junho de 2012

O FICTÍCIO AUMENTO DE RENDA DO BRASLEIROI

 

Temos assistido nos últimos anos o anúncio, pelas administrações Lula e Dilma, de que o Programa Bolsa Família supostamente aumentou a renda do povo brasileiro. Tal anúncio vem embalado no constante crescimento da capacidade de consumo das classes “C” e “D” e aumentando sobremaneira o mercado consumido de nosso país. Mas até onde esse fato é realmente uma verdade verificável?

Tal assertiva é, no mínimo, uma falácia. Isso porque o Programa Bolsa Família é um programa de transferência de renda, ou seja, a renda é transferida de um setor produtivo para um setor, até então, não-produtivo. Em regra, esses programas visam induzir o desenvolvimento em setores deficitários da economia e costumam ser temporários, visto que não devem servir de muleta ao setor produtivo.

Outro fator a ser considerado é que se formos medir de maneira real e criteriosa programas de transferência de renda iremos perceber que esses, de forma direta, reduzem a renda da sociedade no curto prazo. Até podem vir a gerar renda no médio e longo prazo, mas no curto prazo reduzem a renda da sociedade.
Um exemplo típico é um casal com um filho adolescente: ao decidirem dar uma mesada ao filho os pais transferem parte de sua renda ao jovem. A renda do jovem não soma a dos pais para o cálculo da renda familiar, ao contrário, ao se realizar esse cálculo esse valor deverá ser reduzido da renda total da família.

O Bolsa Família não aumentou a renda do povo brasileiro e, em alguns casos, pode estar servindo, inclusive, como fator de redução ao atuar como agente inflacionário ao expandir, de forma descontrolada, o mercado de crédito
 
Quando as pessoas percebem isso o governo defende a transferência de renda afirmando que o aumento do consumo está provocando um circulo virtuoso ao país por meio do consumo nas classes que não estavam no mercado até então. Nova falácia e, ainda por cima, perigosa. Na realidade, essa vaidade governamental pode vir a se converter em um pesadelo futuro para a equipe econômica

A grande questão nesse caso é o fato de que boa parte do público do Bolsa Família é um público que não tinha como comprovar renda e que, após esse programa passou poder a fazê-lo. Com a estabilização da economia oriunda do Plano Real possibilitando com que se torne possível financiamentos de médio e longo prazo para a aquisição de bens de consumo esse público veio com força ao mercado adquirir bens aos quais não tinham acesso.

O grande problema embutido nisso é que toda espécie de financiamento é uma forma de alavancagem econômica. A pessoa capta no mercado um capital que não possui para pagar com um capital que possui expectativa de realizar no futuro – para utilizar um termo contábil. Contudo, a falta de planejamento financeiro, aliado as enormes possibilidades de crédito pode colaborar para que se crie um cenário de perspectivas perigosas no futuro.

Outro fator desconsiderado é o fato que a expansão do mercado de crédito e o conseqüente aumento do consumo provoca um aumento na demanda em relação à oferta fazendo com que os produtos encareçam gerando inflação. Dessa forma, é essencial que se monitore o mercado de forma permanente para que não se crie condições para que a inflação se descontrole em algum setor.

Utilizar a expansão do crédito como argumento de aumento de renda da população em decorrência do Bolsa Família é agir de forma completamente sem critério, visto que a relação existente entre um fato e outro não é vinculado, especificamente a renda. Programas de Transferência de Renda podem ter eficácia em determinadas condições e situações, todavia os mesmos devem ser sempre por tempo limitado e com objetivos claros a ser alcançados, caso contrário se convertem apenas em assistencialismo oficial com objetivos meramente políticos sem qualquer objetivo de desenvolvimento.

Espero haver evidenciado que, diferente do que se vem sendo alardeado pelo Governo, o Bolsa Família não aumentou a renda do povo brasileiro e, em alguns casos, pode estar servindo, inclusive, como fator de redução ao atuar como agente inflacionário ao expandir, de forma descontrolada, o mercado de crédito.

Sandro Schmitz
23 de junho de 2012

SEGURANÇA OU INCOMPETÊNCIA?



Carlos Alberto Sardenberg

James Bond já surfou ondas de três metros para alcançar praias inimigas. Assim, por que um terrorista não poderia voar de asa-delta da Pedra da Gávea até o Riocentro, descer lá armado de bazucas e eliminar meia dúzia de chefes de estado?
Vai daí, o Exército proibiu voos de asa-delta em todo o espaço aéreo da cidade durante a Rio+20.
Com segurança não se brinca, dizem.

Reparem, porém: o sujeito teria que trazer a arma de algum lugar, circular pela cidade, carregar a coisa até a Pedra, voar e descer no Riocentro, tudo isso sem ser percebido e interceptado. Ninguém desconfiaria. E com todos aqueles soldados e policiais, brasileiros e estrangeiros, que estão na cidade e, concentrados, no local da conferência? Só se fossem muito incompetentes, não é mesmo?
Mas proibindo todos os voos, em todo o Rio, qualquer um que passar de asa-delta torna-se suspeito. Fica fácil para a segurança. E atrapalha a vida de quem gosta de asa-delta.

Dirão que esse é um aspecto menor e que, afinal, o pessoal pode ficar uns dias sem voar, em nome da segurança que garanta um bom evento no Rio.

O problema é que esse tipo de comportamento se aplica a todo o evento. Não há qualquer esforço ou qualquer planejamento para garantir a segurança e, ao mesmo tempo, causar o menor dano possível aos moradores e visitantes.

Não está vetada apenas a asa-delta. O espaço aéreo foi fechado. Até os inocentes voos da Ponte Aérea sofrem restrição. Será que não conseguem detectar uma aeronave suspeita, voando fora das rotas?
Só para lembrar: todo mês de setembro tem a assembleia geral da ONU em Nova York, para onde se dirigem mais de 100 chefes de estado. Sabem o que acontece com o tráfego aéreo? Nada. Continua tudo normal nos três aeroportos.

Dirão: lá tem mais aeroportos e mais pistas, de modo que fica mais fácil. Falso. Lá também há muito mais voos por hora. A resposta é outra: mais equipamento, mais engenharia, mais eficiência e empenho de não torrar a paciência dos moradores.

Outra: as comitivas não podem ficar presas no trânsito carioca, claro. Saída simples: fecham-se vias ou pistas, que se tornam seletivas para os carros credenciados. Assim, o não credenciado fica horas e horas no trânsito, tendo ali ao lado pistas e vias vazias, apenas vez ou outra ocupadas por uma comitiva. Será que não existe engenharia melhor?

E, pensando bem, quem precisa mesmo de segurança extrema? Hilary Clinton certamente é um alvo, mas, com todo respeito, o chefe de estado de Tuvalu? Na verdade, nem precisa ser chefe de estado. Autoridades menores gostam do aparato de segurança. Polícia e Exército também gostam de exibir seu aparato.

Na Rio+20, nem a presidente Dilma vai de carro a álcool
Experimente passar um tempinho ali no Forte Copacabana, por exemplo, onde há exposição e reuniões. A autoridade vai deixar o local. Aparecem seguranças com terno preto, mesmo quando são mulheres, e soldados com metralhadora. Motos param o trânsito, fecham a rua, afastam as pessoas. Surgem os carrões, pelo menos três: um da segurança, o da autoridade, outro da segurança. Param abruptamente, abrem-se as portas, gritaria nos celulares.
Chega o tal, sempre acompanhado, e todos vão entrando rapidamente nos veículos, como se estivessem fugindo. Então, o grande espetáculo: as portas batendo em sequência, as motos arrancam, os carros partem em velocidade. Todos os seguranças com expressão de que estão tirando alguém de um atentado.

E ali olhando, com expressão de paciência obrigada, um homem de bermuda tomando sorvete, a mulher ao lado de um carrinho de bebê, garotos esperando com pranchas, que, aliás, ainda não foram proibidas. Não devem ter visto o filme do James Bond.

Grandes eventos valorizam as cidades. Mas também exibem suas carências. Falta de equipamentos e de planejamento cobram um custo da cidade e, sobretudo, de seus moradores.

Sem contar as contradições: a Rio+20 provoca aumento de emissão de poluentes só com os enormes congestionamentos. E terem utilizado geradores a diesel no Riocentro é inacreditável. E o etanol?
Na Rio 92, o governo brasileiro encontrou a melhor maneira de fazer propaganda de uma energia renovável bem nacional: os carros oferecidos às autoridades eram todos movidos a etanol.

De lá para cá, a tecnologia do etanol só melhorou. A produção de cana tornou-se mais eficiente e sustentável, inclusive com a progressiva eliminação do penoso corte manual, as usinas são mais produtivas, o etanol gera mais energia, sendo, pois, mais econômico, e, ponto forte, o motor flex é um marco tecnológico. Também se começou a produzir energia a partir do bagaço da cana. Mas na Rio+20, nem a presidente Dilma vai de carro a álcool.

PREÇO

Parece que um minuto e meio de televisão vale mais que uma Erundina.

Carlos Alberto Sardenberg
Fonte: O Globo, 21/06/2012

HULA GARU


Com a idade, fica cada vez mais difícil encontrar autor ou leitura que fascine. Já não consigo encontrar em um livro o deslumbramento com que li Fédon, o Quixote ou as Viagens de Gulliver. Verdade que nos últimos 2.300 anos não surgiu um novo Platão, faz meio milênio que não surge um novo Cervantes e pelo menos uns quatro séculos que não ocorre um novo Swift. Nosso século não produziu ainda outro Orwell ou Fernando Pessoa. José Hernández morreu há mais de 100 anos e ainda não surgiu no continente poeta que se lhe equipare. Nietzsche morreu com o século passado e a humanidade ainda não o repôs.

Enfim, o século recém está começando. Mas tendo a desconfiar que tão cedo não teremos gênios de tal porte. Olho em torno, e não vejo nada de mais importante na área da literatura ou poesia. Ou nosso século é estéril, ou talvez necessitemos de um bom distanciamento no tempo para reconhecer o gênio.

O gênio, de modo geral, tem consciência de seu gênio. No prólogo a Novelas Ejemplares, Cervantes faz seu auto-retrato. Nesta confissão de um homem machucado pela vida, lamenta seus dentes, "ni menudos ni crecidos, porque no tiene sino seis y son mal acondicionados y peor puestos, porque no tienen correspondencia los unos con los otros". Também glorifica a mão perdida em Lepanto, "herida que, aunque parece fea, él la tiene por hermosa, por haberla cobrado en la más memorable y alta ocasión que vieron los pasados siglos ni esperan ver los venideros". Ali está o homem, mutilado pela vida, mas inteiro e orgulhoso de seus feitos. Mais tarde, ciente da grandeza de sua obra, Cervantes dirá de Cervantes:

"tú, que en la naval dura palestra
perdiste el movimiento de la mano
izquierda, para gloria de la diestra!"

Swift, que curiosamente é mais conhecido no Brasil como um autor de histórinhas infantis, não foi exatamente um homem benquisto pelos seus contemporâneos. Deão de Saint Patrick, em Dublin, Irlanda, escreveu anonimamente a maior parte de suas obras. Diz a lenda que sua obra maior, As Viagens de Gulliver, teria sido jogada de uma carruagem pela janela adentro do editor. Mas seu estilo era inconfundível. Para que se tenha uma idéia do humor do deão e de seu conflito com a própria época, bastaria citar esta reflexão sua: "Quando um verdadeiro gênio aparece no mundo, podeis conhecê-lo por este sinal: todos os cretinos se aliam contra ele".

Pessoa se revela em um de seus ensaios, Heróstrato:

“A avassaladora produção literária tornará a seleção igualmente avassaladora, pela reação. A verdadeira produção abundante de livros bem escritos fará com que muitos livros antigos pareçam menos bons do que quando se destacam de um pano de fundo de nada. (...) A competição entre os mortos é mais terrível do que a competição entre os vivos; os mortos são mais numerosos”.

Aqui o homem já diz ao que vem. Quando afirmava que o gênio é o mais comum dos homens, tão comum a ponto de passar despercebido em sua época, obviamente falava de si mesmo. Hostil à celebridade, Pessoa morreu quase inédito e considerava ser editado uma ofensa à genialidade.

Depois de ler estes autores – e outros menores mas nem por isso menos importantes – fica difícil encontrar pensamento novo na literatura contemporânea. Existem é claro reflexões sobre os dias que correm, que não poderiam ter sido feitas por quem não os viveu. Mas muitas vezes os homens do passado demonstram mais conhecimento do presente que nossos coetâneos.

Em minha idade, o mesmo está acontecendo com as demais artes, particularmente com o cinema. Fui iniciado com Chaplin, Bergman, Louis Malle, Fellini, Kurosawa, Peckinpah, cineastas personalíssimos, cujas obras eram sempre esperadas com sofreguidão. Hoje, está difícil encontrar quem os substitua. Depois destes, vi obras interessantes, dessas que jamais encherão várias salas ao mesmo tempo.

Sempre me comovem La Strada e Noites de Cabíria, de Fellini. Como aliás quase todos seus filmes. Adoro Bas Fond, do Kurosawa (vi o filme em Paris, não sei qual o título brasileiro), como também seus demais filmes. Curto muito também o Buñuel, particularmente O Anjo Exterminador. Falando nisso, alguém viu J'irais comme un cheval fou, do Arrabal? Vale a pena. Pelo que sei, não passou no Brasil.

O dileto entre os diletos, que vejo e revejo com prazer, é A Festa de Babete, de Gabriel Axe. Certamente, o mais belo e sensível filme que já vi. Mexeu muito comigo também The Map of Human Heart, de Vicent Ward, que creio que não passou no Brasil. No fundo, a busca de uma filha pelo pai, um esquimó que, por circunstâncias da vida, tornou-se fotógrafo em um bombardeiro inglês durante a Segunda Guerra. Comovente.

Mash, de Robert Altman e A Vida de Brian, de Terry Jones, até hoje me fazem rir, particularmente este último. É a mais ferina sátira já feito pelo cinema ao cristianismo. Palombella Rossa, de Nanni Moretti, ataca os comunistas. (Só passou no Brasil quase clandestinamente, em um festival no Rio). Louve-se o engenho do cineasta: consegue fazer um filme dinâmico e divertido que se passa praticamente o tempo todo dentro de uma piscina.

Morri de rir vendo East Side Story, produção alemã da romena Dana Ranga. (Passou em um cinema escondido nos confins de São Paulo. Quando fui ver, tinha apenas três espectadores). Outro filme belíssimo que vi foi Lepota Poroka (em francês, La Beauté du Peché), do iugoslavo Zivko Nikolic, com uma atriz divina, Mira Furlan. Uma moça que vivia nas montanhas da Iugoslávia, vai trabalhar em uma colônia de nudismo na costa montenegrina. O conflito cultural é inevitável.

Em Estocolmo, lá por 71, vi outro belo filme que jamais deu as caras por aqui, The Bus, do turco Tunç Okan. Um grupo de imigrantes turcos clandestinos é jogado dentro de um ônibus, que é abandonado em plena T-Centralen, a estação central do metrô de Estocolmo. Foi o primeiro filme que vi sobre a condição do imigrante na Europa.

Ultimamente, os melhores que vi foram Adeus Lênin, do alemão Wolfgang Becker, e Slogans, do romeno Gjergj Xhuvani, uma sinistra comédia situada nos dias da ditadura de Nicolae Ceaucescu. Muito Além do Jardim, de Hal Ashby é outro filme importante. Nos remete imediatamente a nosso Primeiro Magistrado, o Supremo Apedeuta.

Fora isto, tenho vivido relativamente longe do cinema. Difícil encontrar algo novo nesta idade, dizia. De qualquer forma, com alguma paciência, sempre se cata alguma obra-prima perdida na televisão. Foi o que aconteceu nesta madrugada. Vi Hula Garu (Um Paraíso Havaiano), comovente surpresa do cinema japonês, filme do qual jamais havia ouvido falar, dirigido por Sang-il Lee.

O relato é inverossímil. Estamos em 1965, na pequena cidade mineira de Iwaki, no Japão. Ante a iminência do fechamento das minas, a Joban Coan Mining Company resolve construir um Centro Havaiano. Sob protesto dos moradores, é colocado um anúncio convidando moças que desejem aprender hula, a dança típica do Havaí. O encarregado Yoshimoto convida a senhorita Madoka Hirayama para dar aulas às interessadas.

Reação violenta da comunidade, que acha que todo mundo deve mourejar nas minas e que corpo de baile é coisa de prostitutas. Contra tudo e contra todos, Madoka insiste em seu projeto e vence. Acaba tendo a adesão dos mineiros. Suas garotas provam que se pode criar um mundo onde se pode trabalhar e ao mesmo sorrir.

A história é inverossímil, afirmei. No entanto, as resenhas do filme me informam que o relato é verídico. Que o Parque Havaiano Joban foi inaugurado em 15 de janeiro de 1966. Esperava-se um público de 1000 pessoas durante a semana e umas 3000 nos fins-de-semana e dias de festa. A realidade é que o empreendimento se converteu num sucesso que atraiu 1,5 milhão de pessoas no ano. Em 1990, trocou o nome para Spa Resort Hawaiians e continua evoluindo, embora se mantenha como manancial termal integrado na estrutura social da região.

Madoka Hirayama teria hoje mais de 70 anos e ensinou 318 bailarinas. A demonstração mais cabal de que a grande arte enobrece e é capaz de comover uma aldeia de mineiros, que só viam na vida um sentido, a extração de carvão.

Lindo e comovente. Recomendo vivamente.


23 de junjho de 2012
janer cristaldo

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Fonte: Brazil No Corrupt

23 de junho de 2012