Com a idade, fica cada vez mais difícil encontrar
autor ou leitura que fascine. Já não consigo encontrar em um livro o
deslumbramento com que li Fédon, o Quixote ou as Viagens de
Gulliver. Verdade que nos últimos 2.300 anos não surgiu um novo Platão, faz
meio milênio que não surge um novo Cervantes e pelo menos uns quatro séculos que
não ocorre um novo Swift. Nosso século não produziu ainda outro Orwell ou
Fernando Pessoa. José Hernández morreu há mais de 100 anos e ainda não surgiu no
continente poeta que se lhe equipare. Nietzsche morreu com o século passado e a
humanidade ainda não o repôs.
Enfim, o século recém está começando. Mas
tendo a desconfiar que tão cedo não teremos gênios de tal porte. Olho em torno,
e não vejo nada de mais importante na área da literatura ou poesia. Ou nosso
século é estéril, ou talvez necessitemos de um bom distanciamento no tempo para
reconhecer o gênio.
O gênio, de modo geral, tem consciência de seu gênio.
No prólogo a Novelas Ejemplares, Cervantes faz seu auto-retrato. Nesta
confissão de um homem machucado pela vida, lamenta seus dentes, "ni menudos ni
crecidos, porque no tiene sino seis y son mal acondicionados y peor puestos,
porque no tienen correspondencia los unos con los otros". Também glorifica a mão
perdida em Lepanto, "herida que, aunque parece fea, él la tiene por hermosa, por
haberla cobrado en la más memorable y alta ocasión que vieron los pasados siglos
ni esperan ver los venideros". Ali está o homem, mutilado pela vida, mas inteiro
e orgulhoso de seus feitos. Mais tarde, ciente da grandeza de sua obra,
Cervantes dirá de Cervantes:
"tú, que en la naval dura
palestra
perdiste el movimiento de la mano
izquierda, para gloria de la
diestra!"
Swift, que curiosamente é mais conhecido no Brasil como um
autor de histórinhas infantis, não foi exatamente um homem benquisto pelos seus
contemporâneos. Deão de Saint Patrick, em Dublin, Irlanda, escreveu anonimamente
a maior parte de suas obras. Diz a lenda que sua obra maior, As Viagens de
Gulliver, teria sido jogada de uma carruagem pela janela adentro do editor.
Mas seu estilo era inconfundível. Para que se tenha uma idéia do humor do deão e
de seu conflito com a própria época, bastaria citar esta reflexão sua: "Quando
um verdadeiro gênio aparece no mundo, podeis conhecê-lo por este sinal: todos os
cretinos se aliam contra ele".
Pessoa se revela em um de seus ensaios,
Heróstrato:
“A avassaladora produção literária tornará a seleção
igualmente avassaladora, pela reação. A verdadeira produção abundante de livros
bem escritos fará com que muitos livros antigos pareçam menos bons do que quando
se destacam de um pano de fundo de nada. (...) A competição entre os mortos é
mais terrível do que a competição entre os vivos; os mortos são mais numerosos”.
Aqui o homem já diz ao que vem. Quando afirmava que o gênio é o mais
comum dos homens, tão comum a ponto de passar despercebido em sua época,
obviamente falava de si mesmo. Hostil à celebridade, Pessoa morreu quase inédito
e considerava ser editado uma ofensa à genialidade.
Depois de ler estes
autores – e outros menores mas nem por isso menos importantes – fica difícil
encontrar pensamento novo na literatura contemporânea. Existem é claro reflexões
sobre os dias que correm, que não poderiam ter sido feitas por quem não os
viveu. Mas muitas vezes os homens do passado demonstram mais conhecimento do
presente que nossos coetâneos.
Em minha idade, o mesmo está acontecendo
com as demais artes, particularmente com o cinema. Fui iniciado com Chaplin,
Bergman, Louis Malle, Fellini, Kurosawa, Peckinpah, cineastas personalíssimos,
cujas obras eram sempre esperadas com sofreguidão. Hoje, está difícil encontrar
quem os substitua. Depois destes, vi obras interessantes, dessas que jamais
encherão várias salas ao mesmo tempo.
Sempre me comovem La Strada
e Noites de Cabíria, de Fellini. Como aliás quase todos seus filmes.
Adoro Bas Fond, do Kurosawa (vi o filme em Paris, não sei qual o título
brasileiro), como também seus demais filmes. Curto muito também o Buñuel,
particularmente O Anjo Exterminador. Falando nisso, alguém viu J'irais
comme un cheval fou, do Arrabal? Vale a pena. Pelo que sei, não passou no
Brasil.
O dileto entre os diletos, que vejo e revejo com prazer, é A
Festa de Babete, de Gabriel Axe. Certamente, o mais belo e sensível filme
que já vi. Mexeu muito comigo também The Map of Human Heart, de Vicent
Ward, que creio que não passou no Brasil. No fundo, a busca de uma filha pelo
pai, um esquimó que, por circunstâncias da vida, tornou-se fotógrafo em um
bombardeiro inglês durante a Segunda Guerra. Comovente.
Mash, de
Robert Altman e A Vida de Brian, de Terry Jones, até hoje me fazem rir,
particularmente este último. É a mais ferina sátira já feito pelo cinema ao
cristianismo. Palombella Rossa, de Nanni Moretti, ataca os comunistas.
(Só passou no Brasil quase clandestinamente, em um festival no Rio). Louve-se o
engenho do cineasta: consegue fazer um filme dinâmico e divertido que se passa
praticamente o tempo todo dentro de uma piscina.
Morri de rir vendo
East Side Story, produção alemã da romena Dana Ranga. (Passou em um
cinema escondido nos confins de São Paulo. Quando fui ver, tinha apenas três
espectadores). Outro filme belíssimo que vi foi Lepota Poroka (em
francês, La Beauté du Peché), do iugoslavo Zivko Nikolic, com uma atriz
divina, Mira Furlan. Uma moça que vivia nas montanhas da Iugoslávia, vai
trabalhar em uma colônia de nudismo na costa montenegrina. O conflito cultural é
inevitável.
Em Estocolmo, lá por 71, vi outro belo filme que jamais deu
as caras por aqui, The Bus, do turco Tunç Okan. Um grupo de imigrantes
turcos clandestinos é jogado dentro de um ônibus, que é abandonado em plena
T-Centralen, a estação central do metrô de Estocolmo. Foi o primeiro filme que
vi sobre a condição do imigrante na Europa.
Ultimamente, os melhores que
vi foram Adeus Lênin, do alemão Wolfgang Becker, e Slogans, do romeno
Gjergj Xhuvani, uma sinistra comédia situada nos dias da ditadura de Nicolae
Ceaucescu. Muito Além do Jardim, de Hal Ashby é outro filme importante.
Nos remete imediatamente a nosso Primeiro Magistrado, o Supremo
Apedeuta.
Fora isto, tenho vivido relativamente longe do cinema. Difícil
encontrar algo novo nesta idade, dizia. De qualquer forma, com alguma paciência,
sempre se cata alguma obra-prima perdida na televisão. Foi o que aconteceu nesta
madrugada. Vi Hula Garu (Um Paraíso Havaiano), comovente surpresa do
cinema japonês, filme do qual jamais havia ouvido falar, dirigido por Sang-il
Lee.
O relato é inverossímil. Estamos em 1965, na pequena cidade mineira
de Iwaki, no Japão. Ante a iminência do fechamento das minas, a Joban Coan
Mining Company resolve construir um Centro Havaiano. Sob protesto dos moradores,
é colocado um anúncio convidando moças que desejem aprender hula, a dança típica
do Havaí. O encarregado Yoshimoto convida a senhorita Madoka Hirayama para dar
aulas às interessadas.
Reação violenta da comunidade, que acha que todo
mundo deve mourejar nas minas e que corpo de baile é coisa de prostitutas.
Contra tudo e contra todos, Madoka insiste em seu projeto e vence. Acaba tendo a
adesão dos mineiros. Suas garotas provam que se pode criar um mundo onde se pode
trabalhar e ao mesmo sorrir.
A história é inverossímil, afirmei. No
entanto, as resenhas do filme me informam que o relato é verídico. Que o Parque
Havaiano Joban foi inaugurado em 15 de janeiro de 1966. Esperava-se um público
de 1000 pessoas durante a semana e umas 3000 nos fins-de-semana e dias de festa.
A realidade é que o empreendimento se converteu num sucesso que atraiu 1,5
milhão de pessoas no ano. Em 1990, trocou o nome para Spa Resort Hawaiians e
continua evoluindo, embora se mantenha como manancial termal integrado na
estrutura social da região.
Madoka Hirayama teria hoje mais de 70 anos e
ensinou 318 bailarinas. A demonstração mais cabal de que a grande arte enobrece
e é capaz de comover uma aldeia de mineiros, que só viam na vida um sentido, a
extração de carvão.
Lindo e comovente. Recomendo vivamente.
23 de junjho de 2012
janer cristaldo