"A verdade será sempre um escândalo". (In Adriano, M. Yourcenar)

"Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo... Depois de ter colhido em suas mãos poderosas cada indivíduo e de moldá-los a seu gosto, o soberno estende seus braços sobre toda a sociedade... Não quebra as vontades, mas as amolece, submete e dirige... Raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede que se nasça; não tiraniza, incomoda, oprime, extingue, abestalha e reduz enfim cada nação a não ser mais que um rebanho de animais tímidos, do qual o governo é o pastor. (...)
A imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."
Alexis de Tocqueville (1805-1859)



terça-feira, 28 de maio de 2013

NOBEL DA PAZ DIZ QUE BOLSA FAMÍLIA É ASSISTENCIALISTA

Nobel da Paz diz que Bolsa Família é assistencialista e que o assistencialismo deve dar espaço a soluções de longo prazo

O Nobel da Paz Muhammad Yunus está no Brasil nesta semana para para lançar um fundo de apoio aos negócios sociais, além de uma filial do Yunus Social Business Centre, o primeiro Centro Acadêmico de Negócios Sociais da América Latina. O objetivo da instituição será fomentar o conceito e a prática do “negócio social”. “Ao se enveredar para o mundo dos negócios, a pessoa deve escolher entre acumular dinheiro ou solucionar problemas”, explicou Yunus, em palestra nesta segunda-feira em São Paulo, para um público formado por estudantes, professores, empresários e jornalistas. “Caso opte pela segunda alternativa, é preciso criar metas anuais de alcance para seu projeto como incentivo, da mesma forma como as empresas tradicionais focam no lucro”, completou. O modelo já existe no Japão, Coreia, Itália, Alemanha, Estados Unidos, França e Turquia.
 
Ao ser questionado por um jornalista, “por que o Brasil?”, Yunus rebateu com outra pergunta: “por que não o Brasil?”. Segundo ele, o país tem se mostrado muito consciente sobre as questões sociais e interessado em achar soluções locais e mundiais. Mas Yunus também critica o modelo assistencialista adotado pelo governo brasileiro ao falar sobre programas como o Bolsa Família. “É importante ajudar as pessoas que precisam, mas é preciso tomar cuidado para que elas não se tornem dependentes dessa ajuda por um tempo longo demais. A Europa criou um problema nesse sentido, com várias gerações de pessoas desempregadas. É necessário pensar em ideias para tirar as pessoas dessa situação de dependência, a começar por um grupo pequeno. Esse é o desafio do negócio social”. Para Yunus, o assistencialismo deve dar espaço para soluções de longo prazo, tornando os cidadãos responsáveis e colaborando para a sua integração à sociedade.
 
Problemas e soluções – Vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2006 e conhecido como “banqueiro dos pobres”, Yunus é o fundador do Grameen Bank, em Bangladesh – o primeiro banco do mundo especializado em conceder microcrédito a pessoas de baixa renda. Sua história tem servido de inspiração para governos e pessoas de várias partes do mundo. “A diferença do negócio social para as contribuições de caridade é que estas não são parte de um processo de conscientização: elas fazem um ótimo trabalho, mas o dinheiro investido para ali. Para ajudar mais pessoas, é preciso começar do zero e fazer uma nova arrecadação. Já o negócio social permite que o mesmo dinheiro seja investido várias vezes”, explica. “Para todo problema que vejo, penso em um negócio que busque uma solução para ele. Se a encontro, crio novas instituições para alcançar outras pessoas que enfrentam o mesmo problema”.
 
Para diminuir o desemprego, por exemplo, é possível incentivar a formação de profissionais que estão em falta no mercado. “É preciso combinar demanda e oferta”, diz. Já o microcrédito é a maior prova de que a solução de um problema local pode ser usada em vários países do mundo, sejam eles desenvolvidos ou não, por mais diferentes que sejam suas realidades. “Às vezes os problemas parecem tão gigantes, que individualmente nos sentimos minúsculos. Meu conselho é: não se sintam ameaçados pela amplitude dos problemas em questão. Tente pensar em como ele reflete em cada indivíduo. Se você conseguir solucionar o problema para uma única pessoa, você amplia a solução para centenas, milhares, milhões: ele pode ser aplicado em qualquer lugar do mundo. A fome, o analfabetismo e o desemprego não são problemas de uma só cidade, mas de todo o país, de toda a região, de todo o planeta”, pontua.
 
Trajetória

Yunus estudou economia nos EUA e voltou a Bangladesh depois que o país se tornou independente do Paquistão (1971). Diante de uma situação desesperadora, em que a fome era protagonista, criou uma solução inusitada: emprestar pequenas quantias de dinheiro aos pobres, que jamais conseguiriam ajuda dos bancos convencionais. Em 1976, quando ainda era professor universitário, fez a primeira experiência desse tipo ao oferecer 27 dólares a um grupo de 42 artesãos em dificuldades, grande parte deles mulheres. A soma foi suficiente para que comprassem matéria-prima, vendessem sua produção de tamboretes de bambu e garantissem a continuidade do negócio. Animado com as possibilidades que a iniciativa apresentava, o intelectual virou banqueiro no ano seguinte. Fundou o banco Grameen, que significa “banco da aldeia” em bengali, e passou a fomentar a atividade econômica entre os pobres.
 
Em 2011, porém, Yunus foi demitido da direção do banco que fundou. Naquele ano, o banco já tinha cerca de 955 milhões de dólares em empréstimos a 8,3 milhões de tomadores de crédito. Segundo o governo, o Nobel da Paz deveria ter se aposentado das funções no banco aos 60 anos. O ministro bengali das finanças, A.M. Muhit, chegou a sugerir que Yunus era muito velho para dirigir o banco. Deixando de lado as questões legais, alguns bengalis não descartaram a possibilidade de o economista ser vítima de uma campanha política movida pela primeira-ministra, Sheikh Hasina Wajed. À época, Hasina declarou publicamente que os fornecedores de microcrédito estão “sugando o sangue dos pobres”. Os desentendimentos entre os dois começaram em 2007, quando Yunus sugeriu que criaria seu próprio partido político para limpar seu país da corrupção na administração pública.
 
28 de maio de 2013
Cecília Araújo, na VEJA.com

TRINTA SEGUNDOS QUE RESUMEM O BRASIL

 
Vocês têm de ver isto e espalhar país afora para o debate: são 30 segundos que resumem o Brasil. A sociedade tem de fazer isso porque as oposições têm medo de falar com quem paga a conta!

Quero que vocês vejam este vídeo, bem curtinho. Esta senhora que fala aí é uma assistida do Bolsa Família lá de Fortaleza. São só 30 segundos. Mas eles resumem o Brasil que aí está e também apontam para um futuro — não muito promissor. Assistam. Volto em seguida.
 

 
Voltei

Escrevi ontem à noite um post sobre a irresponsabilidade dupla da Caixa Econômica Federal — que alterou o sistema de pagamento do Bolsa Família sem avisar ninguém e depois negou que o tivesse feito, sendo desmentida por reportagem da Folha — e das autoridades do governo federal, que saíram a acusar ou as oposições, caso de Maria do Rosário (a ministra dos Direitos Humanos, de inumana compreensão), ou um complô conspiracionista, sugerindo que, no fundo, seriam mesmo as oposições: José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça e aspirante a disputar o governo de São Paulo pelo PT, e Dilma Rousseff. A governanta classificou a boataria sobre o Bolsa Família de “desumana e criminosa”. Tudo não passou de uma trapalhada da Caixa Econômica Federal, pela qual se desculpou Jorge Hereda, presidente da instituição. Só desculpas?
 
Pois é… O que antes era “desumano e criminoso” não merecerá da soberana, pelo visto, nem mesmo um puxão de orelha. Cardozo continua em busca de um bode expiatório. Quem sabe apareça alguém para confessar, não é?, e se descubra, então, que ele é vizinho da tia da cabeleireira que vem a ser prima da cunhada da faxineira do secretário-geral do PSDB de Arapiraca… É ridículo! Mais do que o boato do fim do Bolsa Família, o que se espalhou como rastilho de pólvora foi a informação de que havia uma graninha a mais na CEF, um bônus. As pessoas que lá iam constatavam: havia mesmo! Aí, meus caros, foi o que se viu… Como pergunta Silvio Santos — numa indagação que, suponho, toca universalmente o coração e o intelecto: “Quem quer dinheirooo?”. No post em questão, destaquei também o ar robusto, primaveril mesmo em alguns casos, dos assistidos do Bolsa Família. O valor médio do benefício pago a cada família está aí na casa dos R$ 150. Muita gente recebe menos, mas há quem receba mais: nunca menos de R$ 32, nunca mais de R$ 306 — é o que informa o governo. Muito bem. Agora volto à assistida do vídeo que está lá no alto. A entrevista foi concedida ao Jornal Nacional de sábado. Reproduzo a sua fala, uma das maiores contribuições jamais prestadas à compreensão sociológica destes dias.
 
“Eu fui na lotérica, como vou de costume, fazer um depósito na poupança do meu esposo. Fui depositar o dinheiro. Como eu já estava lá, eu tinha de ir fazer isso, eu aproveitei, levei o cartão e tirei o meu Bolsa Família. Quando eu tirei, saiu (sic) os dois meses”.
 
Entendi. Ela foi depositar, como faz habitualmente, um dinheiro na poupança do marido, certo? Já que estava lá, levou o cartão do Bolsa Família e pimba! Saíram os dois meses de uma vez só. Ai, ai, ai… Longe de mim querer cassar o benefício da distintíssima senhora Diane dos Santos — e espero que ninguém pegue no pé dela. Mas me parece que alguém que tem dinheiro para fazer poupança não precisa do… Bolsa Família, certo? Reitero: acusarei aqui perseguição caso queiram lhe cortar o benefício — porque, é fato, como ela, há uma legião, há milhões hoje em dia. O problema não é ela, mas o programa. Eu até confesso uma certa simpatia por Diane, uma brasileira brejeira, com o cabelo arrumado, brincos, pele boa… Ela desmoraliza os delírios dos bem-pensantes sobre o atavismo da fome no Brasil, que faz o coitadismo que embala as ideias de reparação social da esquerda universitária. Ela não! É, reitero, distinta! Ela nem fala “marido” — deve achar meio grosseiro. Prefere, como Daniela Mercury, mas mudando o gênero, a palavra “esposo”.
 
“Então Reinaldo Azevedo sustenta que não existem mais a fome, a miséria…” Aquela fome africana, que Lula dizia existir em 2002, que ele curaria com dois pratos de comida, não existe mais no Brasil há décadas, embora haja, é evidente, nichos de famélicos em algumas áreas do sertão e até nas periferias extremamente pobres das grandes cidades. Isso persiste. Da mesma sorte, há, sim, pessoas com renda abaixo de R$ 70 em áreas restritas do Brasil profundo. Mas os pobres — eu sei do que falo — somos duros de morrer, fiquem certos, sobretudo de fome. Sempre se arranja um bico pra fazer, um serviço extra, alguma coisa que garanta o sustento dos filhos. No mais das vezes, essa renda per capita entre R$ 70 e R$ 140 é uma fantasia estatística. Ou será que a distinta dona Diane está “depositando na poupança do marido” o dinheiro do Bolsa Família? Ela nem havia sacado ainda o de abril — e já era dia 17! Certamente, o depósito que fora fazer era uma sobra, não?, depois de satisfeitas as necessidades básicas. Sobra de que renda? Não era do Bolsa Família!
 
Sim, é possível que haja alguns milhões de brasileiros que precisam efetivamente de um Bolsa Família, mas serão mesmo 40 milhões, 45 milhões talvez, divididos em mais de 13 milhões de família? Não é só dona Diane dos Santos que prova que não. Vocês certamente se lembram desta senhora, que, diz, “só ganha R$ 134 há oito anos”, o que, segundo ela, não dá nem comprar uma calça para a filha, “uma jovem de 16 anos”, porque, afinal, uma calça para essa faixa etária custaria R$ 300…
 

 
De fato, ela não tem a menor dúvida de que comprar uma calça para a sua filha é, sim, um problema do governo brasileiro, não dela própria, do marido ou de sua família. “Ah, o Bolsa Família vai custar em 2013 apenas R$ 24,9 bilhões. Perto do que o governo gasta com o Bolsa BNDES ou com o Bolsa Juros… Reinaldo não quer dar grana para os pobres.” Nem para os ricos!!!
Eu não acho que governos tenham de dar dinheiro para ninguém. No caso dos pobres, tem é de criar programas sociais que os estimulem a buscar uma saída. E a injeção de recursos na conta do vivente só deve ser feita mesmo em último caso. E já está mais do que claro que o Bolsa Família, para muita gente, virou uma doação… O Nobel da Paz Muhammad Yunus está no Brasil (ver post na home). Ele criou o programa de microcrédito em Bangladesh que deu origem a um banco. Ele critica no Bolsa Família justamente seu caráter assistencialista.
 
O “andar de cima”, como quer Elio Gaspari, com essa categoria sociológica haurida da construção civil, consome bem mais do que os R$ 25 bilhões do Bolsa Família em subsídios, trapaças, aditamento de contratos etc.?
Certamente! Não deixa de ser uma forma de “bolsismo”, não é?, e das mais perversas. Os dois extremos — os ricos cuidadosamente selecionados para as prebendas e os pobres que recebem todo mês um dinheirinho — se tornaram pilares de um modo de fazer política. Uns são gratos ao governo de turno com doações eleitorais e outras que não aparecem nos registros do TSE; os outros expressam a sua gratidão com votos.
 
O Bolsa Família se tornou, assim, uma formidável máquina eleitoreira, e os que mais se entusiasmam com o governo nem são, suponho, os que realmente precisam, mas os que, não precisando, temem uma mudança de guarda e a perda de uma benefício de que, no fundo, sabem ser descabido. Assim, é melhor deixar tudo como está. 
 
Oposição
 

Compreendo que a oposição venha a público disputar a paternidade dos programas sociais porque, com efeito, o Bolsa Família nada mais é do que a reunião dos programas que existiam no governo FHC numa única rubrica. Já demonstrei faz alguns anos que isso é verdade. Faço-o de novo transcrevendo, em vermelho, trecho da Medida Provisória nº 132, que “criou” o Bolsa Família, no dia 20 de outubro de 2003. Essa MP foi depois convertida na Lei 10.836, de 9 de janeiro de 2004. O conteúdo era o mesmo. Prestem atenção:
 
(…) programa de que trata o caput tem por finalidade a unificação dos procedimentos de gestão e execução das ações de transferência de renda do Governo Federal, especialmente as do Programa Nacional de Renda Mínima vinculado à Educação – “Bolsa Escola”, instituído pela Lei n.° 10.219, de 11 de abril de 2001, do Programa Nacional de Acesso à Alimentação – PNAA, criado pela Lei n.° 10.689, de 13 de junho de 2003, do Programa Nacional de Renda Mínima vinculado à Saúde – “Bolsa Alimentação”, instituído pela medida provisória n.° 2.206-1, de 6 de setembro de 2001, do Programa Auxílio-Gás, instituído pelo Decreto n.° 4.102, de 24 de janeiro de 2002, e do Cadastramento Único do Governo Federal, instituído pelo Decreto n.° 3.877, de 24 de julho de 2001.
 
Retomo

Assim, é claro que os programas foram originalmente criados pelo governo FHC. A questão é saber se dá para disputar essa paternidade hoje. Parece-me que não! E a máquina de propaganda montada com o Bolsa Família tem, sim, um efeito eleitoral evidente, como ficou claro em 2006 e 2010. Menos do que fazer tal disputa, as oposições teriam de ter a coragem de perguntar quem paga a conta. É claro que os petistas partiriam pra cima, acusando-a de querer acabar com o programa. Ocorre que o eleitorado cativo, meus caros, cativo já está. Não será desse mato que vão sair tucanos. Não saem mesmo! Os que se apõem ao petismo, reitero, têm de aprender a falar com quem paga a conta — muito especialmente os trabalhadores.
 
Que país existe na outra ponta dessa forma de assistencialismo? Não tem outra ponta nenhuma! A outra ponta é esta que está aí. Está bom assim? É o que o modelo permite. As virtudes  já se esgotaram.  Com Bolsa BNDES e Bolsa Família, a gente vai ficando assim. Teremos um dia uma oposição capaz de politizar o que tem de ser politizado, fugindo do demônio do consenso, que é, numa democracia, o que é a censura na ditadura? Não sei. Se e enquanto não o fizer, pode ir brincar de outra coisa. Chegou a hora de conversar com quem, não tendo o Bolsa Família, não tem também uma sobra para depositar na poupança do “esposo”.
 
27 de maio de 2013
Blog Reinaldo Azevedo - Veja

"O MELHOR PROGRAMA SOCIAL QUE EXISTE CHAMA-SE EMPREGO"

 
A defesa da classe média.O melhor programa social que existe chama-se emprego. Ele garante dignidade ao ser humano, ao contrário de esmolas estatais, que criam uma perigosa dependência

Todos vimos, chocados, uma turba ensandecida invadindo agências da Caixa em diferentes estados, após rumore, s de suspensão do pagamento do Bolsa Família. Impressionou o fato de que a maioria ali era bem nutrida, em perfeitas condições de trabalho em um país com pleno emprego.
 
Uma das beneficiadas pelo programa, em entrevista, reclamou que a quantia não era suficiente para comprar uma calça para sua filha de 16 anos. O valor da calça: trezentos reais! Talvez seja parte do conceito de “justiça social” da esquerda progressista garantir que adolescentes tenham roupas de grife para bailes funk.
 
Não quero, naturalmente, alegar que todos aqueles agraciados pelas benesses estatais não precisam delas. Ainda há muita pobreza no Brasil, ao contrário do que o próprio governo diz, manipulando os dados. Mas essa pobreza tem forte ligação com esse modelo de governo inchado, intervencionista e paternalista.
 
O melhor programa social que existe chama-se emprego. Ele garante dignidade ao ser humano, ao contrário de esmolas estatais, que criam uma perigosa dependência. Para gerar melhores empregos, precisamos de menos burocracia, menos gastos públicos e impostos, mais flexibilidade nas leis trabalhistas, mais concorrência de livre mercado e um sistema melhor de educação (não confundir com jogar mais dinheiro público nesse modelo atual).
 
O ex-presidente Lula criticava, quando era oposição, o “voto de cabresto”, a compra de eleitores por meio de migalhas, esquema típico do coronelismo nordestino. Quão diferente é o Bolsa Família, que já contempla dezenas de milhões de pessoas, sem uma estratégia de saída? Um programa que comemora o crescimento do número de dependentes! O leitor vê tanta diferença assim?
 
A presidente Dilma disse que quem espalhou os boatos era “desumano”, “criminoso”, e garantiu que o programa era “definitivo”, para “sempre”. Isso diz muito. “Nada é tão permanente quanto uma medida temporária de governo”, sabia Milton Friedman. Não custa lembrar que o próprio PT costuma apelar para o “terrorismo eleitoral” em época de eleição, espalhando rumores de que a oposição pode encerrar o programa. Desumano? Criminoso?
 
Depois que o governo cria privilégios concentrados, com custos dispersos, quem tem coragem de ir contra? Seria suicídio político. Por isso ninguém toca no assunto, ninguém vem a público dizer o óbvio: essas esmolas prejudicam nossa democracia e não tiram essas pessoas da pobreza. As esmolas estimulam a preguiça, a passividade e a informalidade. Por que correr atrás quando o “papai” governo dá mesada?
 
O agravante disso tudo é que os recursos do governo não caem do céu. Para bancar as esmolas, tanto para os mais pobres como para os grandes empresários favorecidos pelo BNDES, o governo avança sobre a classe média. É esta que paga o preço mais alto desse modelo perverso. Ela tem seu couro esfolado para sustentar um estado paquidérmico e “benevolente”.
 
Para adicionar insulto à injúria, não recebe nada em troca. Paga impostos escandinavos para serviços africanos. Conta com escolas públicas terríveis, antros de doutrinação marxista. Os hospitais públicos também são péssimos. A infraestrutura e os meios de transporte são caóticos. A insegurança é total. Acabamos tendo que pagar tudo em dobro, fugindo para o setor privado, sempre mais eficiente.
 
Como se não bastasse tanto descaso, ainda somos obrigados a ver uma das representantes da esquerda, a filósofa Marilena Chauí, soltando sua verborragia em evento de lançamento de livro sobre Lula e Dilma. Chauí, aquela que diz que o mundo se ilumina quando Lula abre a boca, declarou na ocasião: “A classe média é um atraso de vida. A classe média é estupidez, é o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista.”
 
É fácil dizer isso quando ganha um belo salário na USP, pago pela classe média. Chauí não dá nome aos bois, pois é mais fácil tripudiar de uma abstração de classe. Mas não nos enganemos: a classe média que ela odeia somos nós, aqueles que simplesmente pretendem trabalhar e melhorar de vida, ter mais conforto material, em vez de se engajar em luta ideológica em nome dos proletários, representados pelos ricos petistas.
 
Pergunto: quem vai olhar por nós? Que partido representa a classe média? Com certeza, não é a esquerda das esmolas estatais bancadas com nosso suor, que depois ainda vem declarar todo seu ódio a quem paga a fatura.
 
 
Perdemos dois ícones da imprensa independente: Dr. Ruy Mesquita e Roberto Civita. Que a chama da liberdade de imprensa continue acesa!

27 de maio de 2013
Rodrigo Constantino é economista

ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS BATE RECORDE: 43,99% DA RENDA

Mas, sem considerar crédito habitacional, dívida dos brasileiros recuou 

 
BRASÍLIA – As famílias brasileiras nunca estiveram tão endividadas quanto no fim do primeiro trimestre deste ano. De acordo com o Banco Central (BC), o índice de endividamento subiu de 43,79% para 43,99% em março. Isso significa que as famílias devem às instituições financeiras quase a metade do que ganham durante o ano. O endividamento chegou ao maior nível desde quando a autoridade monetária começou a registrar os dados, em 2005. Naquela época, as famílias tinham um endividamento de 18,39% da renda bruta anual.

Para o economista-chefe do Conselho Federal de Economia, Júlio Miragaya, o aumento do endividamento das famílias é um reflexo da facilitação de acesso ao crédito bancário no país. De 2005 para cá, o volume dos empréstimos no país saltou de 28,1% para 54,1% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país). No entanto, segundo o especialista, essa alta não deve continuar. Pelo menos, não no mesmo ritmo.

— Houve um grande aumento por causa da facilitação do crédito vista nos últimos anos, mas chegou a um limite — aposta Miragaya, que explica que o crescimento da renda do trabalhador e a estabilidade do mercado de trabalho devem segurar o endividamento da população.

Segundo os dados do BC, se for excluído o crédito habitacional, o nível de endividamento caiu em março. Passou de 30,54% para 30,48%. Isso significa que a compra da casa própria foi a grande responsável pelo aumento do endividamento.
O número que não leva em conta o financiamento imobiliário é usado pelo governo como referência para saber se a população está muito endividada. Para o BC, o empréstimo para pagar a casa própria é visto como bons olhos, já que significa deixar o aluguel — uma despesa corrente — para investir em patrimônio.

Outro dado confirma que o brasileiro tem feito operações com prazos mais longo, como o financiamento imobiliário. Apesar da alta do endividamento, houve queda do comprometimento da renda, que, em março, passou de 21,84% para 21,66%. Isso significa que a parcela que as famílias comprometem da renda mensal para pagar dívidas voltou a cair, ou seja, mesmo devendo mais, as pessoas desembolsam menos durante o mês.

27 de maio de 2013
Gabriela Valente

CAVENDISH E EX-PREFEITO DE IGUABA GRANDE SÃO CONDENADOS A QUATRO ANOS E SEIS MESES DE PRISÃO POR DESVIO DE VERBAS

Delta cobrou R$ 191 mil por um serviço na despoluição da Lagoa de Araruama cujo valor de mercado era de R$ 14 mil


RIO - A Justiça Federal condenou o sócio da Delta Fernando Cavendish e o ex-prefeito de Iguaba Grande Hugo Canellas a quatro anos e seis meses de prisão, em regime semiaberto, por desvio de verba destinada à despoluição da Lagoa de Araruama, na Região dos Lagos. Somente para mobilizar e desmobilizar equipamentos para a obra a empresa cobrou R$ 191 mil, apesar de o valor de mercado para o serviço ser de R$ 14 mil. Ainda cabe recurso.

Mário Erly Aguiar Souza, secretário de fazenda de Iguaba Grande e responsável por acompanhar a execução financeira do contrato à época dos fatos , foi condenado também a 4 anos e 6 meses, em regime semiaberto.

O então diretor de Departamento do Meio Ambiente do município, Alípio Villa Nova do Nascimento, e a então chefe de Divisão de Obras Públicas, Márcia Betânia da Silva, foram condenados a 1 ano e 11 meses de reclusão por falsidade ideológica por atestarem que 75% do projeto teria sido executado pela Delta quando, na verdade, apenas 14% do serviço havia sido realizado. As penas de ambos foram substituídas pelo juiz em prestação de serviço à comunidade e na limitação de fim de semana.
Juntos, os réus serão obrigados a pagar R$ 248 mil para a reparação dos danos causados.

No final do ano passado, a Delta esteve envolvida no caso Carlinhos Cachoeira. Segundo a Polícia Federal, a empresa repassou dinheiro para empresas fantasmas ligadas ao esquema do bicheiro. Cavendish chegou a comparecer à CPI do Cachoeira no Congresso, mas permaneceu calado.

Em nota, Cavendish informa que, assessorado por seus advogados, vem prestando todos os esclarecimentos ao Judiciário. “Todos os recursos cabíveis estão sendo apresentados contra a decisão de primeiro grau, e agora se aguarda o posicionamento do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, segunda instância da Justiça Federal.”

Entenda o caso

Em dezembro de 1999, o então prefeito de Iguaba Grande, Hugo Canellas, realizou convênio com o governo federal para a despoluição da Lagoa de Araruama, cujo valor total foi de R$ 5,6 milhões, dos quais o município participaria com R$ 1,1 milhão. O governo federal aprovou apenas parte do projeto, liberando em janeiro de 2000 a quantia de R$ 272 mil para a elaboração do projeto executivo.

A prefeitura de Iguaba Grande realizou então licitação e contratou a Delta Construções para execução de toda a obra de despoluição da Lagoa de Araruama, firmando-se um contrato cujo preço total passava de R$ 22 milhões. Segundo o Ministério Público Federal, a Delta estava impedida de participar do processo licitatório.

Para realização dos serviços, executados entre 16 e 26 de junho de 2000, a Delta cobrou e recebeu do município a exata quantia repassada pela União no convênio (R$ 272 mil), o que causou estranheza.
Em inspeção do Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ), foi constatado que os serviços contratados não foram realizados pela construtora.

28 de maio de 2013
O Globo
 

"COM LULA, POLÍTICA BRASILEIRA VOLTOU À REPÚBLICA VELHA" DIZ FHC

Segundo o ex-presidente, ideia de coalizão praticamente desapareceu das práticas


SÃO PAULO - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou nesta segunda-feira, 27, em um evento em São Paulo que a práticas políticas do País "são deformadas". A declaração foi dada ao ser questionado se concordava com o novo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, segundo quem o julgamento do mensalão condenou uma maneira de fazer política no Brasil.


Veja também:
O tucano aproveitou, porém, para criticar seu sucessor no Planalto, o petista Luiz Inácio Lula da Silva. "Isso independe do presidente, vem de muitos anos (as práticas deformadas). (Mas), na verdade, houve uma regressão, principalmente no governo Lula, para a República Velha", disse FHC, segundo quem, nesse modelo reformado, a ideia de coalizão praticamente desapareceu. "Não há como chamar de presidencialismo de coalizão, há dois lados só, governo e oposição. Não é um bom sistema".



Um dos patrocinadores políticos da candidatura do senador Aécio Neves (PSDB-MG) à sucessão da presidente Dilma Rousseff, sucessora de Lula e pré-candidata à reeleição, FHC falou ao chegar cedo à Escola de Sociologia e Política, no centro paulistano, onde foi o convidado de honra do evento que marcou os 80 anos da instituição.

O ex-presidente comentou também a frase do governador Geraldo Alckmin (PSDB), na semana passada, segundo a qual o ex-governador José Serra "pode ser candidato" em 2014. "Temos muitos candidatos", avisou FHC. "Ele (Serra) pode ser candidato ou não. Tem muita contribuição a dar, de qualquer maneira". Repetiu que "ninguém resolve uma candidatura dois anos antes" e garantiu que Serra não deixará o PSDB: "Ele foi taxativo na convenção. Ele é um ser racional"

Notícias relacionadas:

28 de maio de 2013
Gabriel Manzano - O Estado de S. Paulo

PGR PEDE QUE SUPREMO ABSOLVA FELICIANO DE ACUSAÇÃO POR ESTELIONATO

Órgão diz que faltam provas para incriminar o deputado, que faltou a um evento religioso e teria dado prejuízo a produtores

 

Marco Feliciano é acusado de crime de estelionato por não comparecer a um evento religioso em 2008
Foto: Givaldo Barbosa / Arquivo O Globo
Marco Feliciano é acusado de crime de estelionato por não comparecer a um evento religioso em 2008 Givaldo Barbosa / Arquivo O Globo
BRASÍLIA — O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, encaminhou nesta segunda-feira documento ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a absolvição, por falta de provas, do deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), acusado de crime de estelionato por não comparecer a um evento religioso em 2008.

Feliciano foi acusado pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul, em 2009, de ter recebido de uma produtora de eventos religiosos R$ 13,3 mil, em valores corrigidos, e não ter ido ao evento. Pastor de uma igreja evangélica, o deputado se tornou alvo de manifestações e protestos depois de assumir a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Além de estelionato, ele é acusado de racismo e por supostas falas homofóbicas.


Segundo a denúncia, Feliciano teria simulado um contrato verbal com a vítima para comparecer ao evento. Em sete páginas de alegações finais, Gurgel disse que, interrogado, o deputado afirmou ter uma assessoria para o agendamento de seus eventos e que não administrava pessoalmente seus eventos.
O deputado alegou que, quando estava na cidade de Nova Friburgo, em 14 de março de 2008, ficou sabendo que não faria o evento de São Gabriel em decorrência de um descumprimento comercial.

De acordo com o documento, a assessoria teria desmarcado o evento porque o deposito não teria sido realizado a tempo e, quando foi efetuado, o deputado já estava em outro compromisso. O procurador-geral argumentou que, para caracterização do crime de estelionato, é necessário “que o agente obtenha vantagem ilícita, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante meio fraudulento, que deve ser a causa de entrega do bem”.

“A partir dos elementos dos autos, verifica-se que houve o inadimplemento do contrato firmado entre as partes, não se podendo afirmar sequer quem inicialmente o descumpriu”, afirmou.

28 de maio de 2913
Cristiane Bonfanti, O Globo

PARTIDOS DA BASE E DA OPOSIÇÃO IMPEDEM VOTAÇÃO DE MPs NA CÂMARA

 

Câmara busca enviar medidas ao Senado a 7 dias do vencimento.
Líderes pressionam para votar fim de adicional em multa por demissão


A obstrução de partidos da oposição e de algumas legendas da base aliada impediu a votação na noite desta segunda-feira (27) de duas medidas provisórias que perderão a validade no próximo dia 3 de junho. O governo vai fazer uma última tentativa de apreciação das MPs às 9h desta terça (28), para que a medida possa chegar com sete dias de antecedência ao Senado.

A antecedência de uma semana é uma exigência feita pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, que declarou que não admitirá mais a apreciação de MPs que cheguem “em cima da hora”.  Para garantir esse prazo, o governo tentou mobilizar a base aliada para que conseguissem reunir 257 deputados em plenário, o mínimo exigido para votar as medidas. O quórum foi alcançado, mas não se sustentou ao longo da sessão.



A maior preocupação do governo é aprovar a MP 605, que permite o uso de recursos da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) para compensar descontos concedidos a alguns setores na estrutura tarifária e viabilizar a redução da conta de luz. A outra medida em pauta é a 601, que estende os benefícios fiscais da desoneração da folha de pagamento a diversos segmentos da economia.
PSDB, PPS, DEM, PSC, PV e PSD se recusaram a registrar voto e fizeram cair o quórum em protesto pelo fato de o governo não ter sinalizado uma data para a votação do PLP 200/2012, que trata da extinção da contribuição adicional de 10% ao FGTS devida pelos empregadores à União em caso de demissão sem justa causa. A votação das medidas provisórias já havia sido adiada na semana passada, após acordo para que fosse definida uma data para apreciação do projeto que trata da multa do FGTS.

Diante da insistência dos líderes partidários, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), prometeu nesta segunda colocar o PLP 200/2012 em votação na primeira quinzena de agosto, após o recesso parlamentar. No entanto, a data escolhida não agradou aos parlamentares.“Dizer que a gente tem que aguardar até agosto, sem data definida, é um acordo muito elástico. Estamos aguardando desde o mês de junho”, afirmou o líder do PSC, André Moura.

O líder do governo, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), criticou a postura de dificultar a votação das propostas. “Quem defende o PLP 200 está defendendo apenas os empresários, se esquecendo dos trabalhadores. A medida 605 economizou para todos os brasileiros, além dos empresários que eles representam. Da mesma maneira, a medida 601 desonera para os empresários. Quero apelar para a oposição para que pense no Brasil”, disse.

O líder do PT na Câmara, José Guimarães (PT-CE), também lamentou o fato de as MPs não terem sido votadas nesta segunda. “Eu queria lamentar essa obstrução. Não tem nada que vincular uma coisa a outra. Uma obstrução dessa prejudica o país, prejudica os empresários.”


Por sua vez, o deputado Domingos Sávio (PSDB-MG) afirmou que a obstrução serve para que o governo se abra para o “diálogo”. “A edição de medida provisória após medida provisória é uma demonstração de que o governo pensa que é só montar uma maioria que não é preciso diálogo. Nosso gesto de obstrução é para abrir o país, para orientar o diálogo.”

O deputado Guilherme Campos (PSD-SP) também defendeu a obstrução como forma de forçar a aprovação do projeto que acaba com a multa de 10% do FGTS. “Pela ausência do diálogo, nós do PSD vamos entrar em obstrução.”

Após a tentativa de votação das MPs, Henrique Alves defendeu a proposta de votar o PLP 200 em agosto. O governo não concorda em colocar a proposta em pauta.

“Eu tenho o dever de fazer as coisas caminharem nesta Casa. É uma proposta razoável, equilibrada, de bom senso, que espero que o governo compreenda. Não estou pedindo licença ao governo. A Casa quer votar essa matéria. Agosto é um tempo razoável, até para o governo examinar as dificuldades que tem em relação ao tema. Vamos aguardar até amanhã [terça],” disse o presidente da Câmara.

Indagado sobre a promessa do presidente do Senado de não aceitar mais MPs que chegassem à Casa com menos de sete dias para discussão, Henrique Alves se limitou a dizer que esse impasse cabe aos senadores, e não à Câmara.

“Isso é uma tarefa que cabe ao presidente Renan [Calheiros] diante da importância da matéria. Ele tem de encontrar com as lideranças do Senado um meio termo. Se votarmos amanhã até uma hora razoável, acho que o presidente Renan poderá encontrar uma saída equilibrada e de bom senso para aquela Casa. Mas não posso falar por ele. Tenho de falar por essa Casa que hoje [segunda] não conseguiu alcançar o quórum”, argumentou Alves.

28 de maio de 2013
Nathalia Passarinho e Fabiano Costa Do G1, em Brasília

LULA DIZ QUE BOATOS SOBRE BOLSA FAMÍLIA SÃO OFENSA

Ex-presidente defendeu ainda que Brasil evite relação de colonizador com países da África



‘Só espero que se descubra quem fez isso porque brincar com as pessoas mais pobres deste país é uma ofensa’, disse Lula
Foto: Gustavo Miranda / Arquivo O Globo
‘Só espero que se descubra quem fez isso porque brincar com as pessoas mais pobres deste país é uma ofensa’, disse Lula Gustavo Miranda / Arquivo O Globo
 
SÃO PAULO - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou nesta segunda-feira os boatos sobre o fim do Bolsa Família de "atos de vandalismo", mas não comentou as mudanças feitas pela Caixa Econômica Federal no calendário de pagamento aos beneficiários do programa.
— Só espero que se descubra quem fez isso porque brincar com as pessoas mais pobres deste país é uma ofensa — afirmou Lula.


Segundo o ex-presidente, o Bolsa Família é responsável por parte do crescimento econômico do país.
— Eu não sei quem teria condições de fazer uma brincadeira estúpida dessa — disse Lula, depois de ser homenageado no evento Dia da África realizado pela prefeitura de São Paulo.
Em discurso, o ex-presidente criticou os países que se valem de métodos coloniais na relação com os países africanos.
— Nós não temos o direito, enquanto nação, de permitir que a prática colonizadora volte para os países do continente africano.
De acordo com Lula, o Brasil não pode agir como a China, que vai ao continente apenas em busca de minério de ferro e de terra para plantar soja.
— O Brasil não pode fazer assim porque se fizer, nós prestaremos um desserviço, porque estaremos voltando à idiotice da colonização.

28 de maio de 2013
in ricardo noblat

COPOM NO TABULEIRO

 

Os sinais que vieram da China, as palavras que foram ditas nos Estados Unidos, as previsões dos economistas, os indicadores do IBGE, tudo torna mais difícil a decisão do Banco Central a ser tomada na reunião que começa hoje e termina amanhã.

O PIB do primeiro trimestre sairá na manhã do dia da decisão, ajudando a orientar a decisão do Copom sobre os juros, hoje em 7,5%.

No mercado financeiro, há dúvidas. Há quem preveja uma alta de 0,5%, pelo fato de o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, ter falado em fazer “tudo o que for necessário” para reduzir a inflação.

Eu acho que têm mais chance de acertar os que acreditam que o ajuste será de mais 0,25%. E isso pela mistura que está no primeiro parágrafo.

A China está esquisita. O número que saiu na semana passada é apenas um indicador antecedente da indústria, mas, se o país estiver desacelerando mais rapidamente do que se imagina, é água fria no crescimento mundial.

Para nós, que somos fornecedores de insumos industriais, saber que a indústria chinesa pode ter encolhido em maio é para se levar em conta.

Isso derruba mais os preços das commodities que o Brasil exporta e pode ter um impacto de redução da inflação aqui.

É até espantoso que com tanta queda de preço ainda não tenha havido redução mais forte do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial.

Já nos EUA, o sinal dado pelo Fed foi de redução do ritmo do incentivo monetário. Nada de suspensão dos estímulos mensais. Apenas comprar menos títulos.

Mas o mundo anda com os nervos tão à flor da pele que isso e o dado das encomendas dos diretores de compras da indústria chinesa — PMI — foram o suficiente para derrubar os mercados.

Eles se preocupam com a China mais fraca e se preocupam com os EUA um pouco mais forte, porque isso pode significar retirada dos estímulos por parte do BC americano.

O PIB do Brasil no primeiro trimestre deve ser bom. Talvez pouco menor do que o 1,05% antecipado pelo IBC-Br, o índice de atividade econômica do Banco Central.

Até no governo esperam algo em torno de 0,9%, mas isso é crescimento que, anualizado, dá perto de 4%. Só que ontem, de novo, a pesquisa Focus — consulta feita pelo BC com instituições do mercado financeiro — mostrou nova queda na previsão do PIB de 2013, para 2,93%.

A atividade este ano está minguando, como já foi dito aqui na coluna, só que a inflação, mesmo com todos os truques do governo, continua alta. O último foi aumentar o subsídio e a desoneração às empresas de ônibus para que a tarifa não suba muito em São Paulo e, assim, junho tenha inflação menor.

Uma cambalhota foi dada no preço da energia. O governo reduziu as tarifas e, em seguida, a longa estiagem e o baixo nível de reservatórios obrigaram o uso de todas as térmicas do país por muito tempo. Algumas foram desligadas, mas a maioria permanece em atividade. Isso elevou o custo da energia.

Para o preço não chegar ao consumidor, o governo vai usar uma conta que estava marcada para ser extinta, a CDE. Desta vez, será alimentada não pelo consumidor, mas por dinheiro a ser pago nos próximos 10 anos por Itaipu ao governo.

A inflação permanece tinhosa, apesar da queda dos preços das matérias-primas no mercado internacional, da desaceleração da China, dos truques do governo e da primeira elevação da taxa de juros na última reunião. Mas a atividade está ficando mais fraca.

O número do primeiro trimestre será bom, mas nada exuberante, e pode não se manter nos trimestre seguintes.

Quando a atividade está fraca, a inflação alta, e o mundo incerto, é o momento difícil de fazer a reunião do Copom. O mercado faz suas apostas. Elas são a dinheiro. Um volume incalculável de reais circula no mercado futuro de juros. E desta vez há bancos grandes em lados diferentes.

28 de maio de 2013
Míriam Leitão, O Globo

NOVOS MUNICÍPIOS

 

Subir na vida é desejo óbvio e natural de qualquer cidadão — e isso também é verdade para vilas e vilarejos. Todos sonham com uma promoção para a condição de cidades.

Há quase 20 anos, uma emenda constitucional retirou dos estados brasileiros o poder de emancipar vilas e vilarejos.

O motivo era óbvio: a emancipação era exagerada. Atendia a motivos políticos, e deixava de lado a exigência essencial de que as comunidades tivessem recursos para enfrentar o aumento de despesas públicas indispensáveis no novo patamar.

A situação pode mudar novamente: está para ser votado na Câmara dos Deputados um projeto de lei complementar que devolve às Assembleias Legislativas o poder de criar novos municípios.

Se for aprovado e sancionado, nascerão, segundo um levantamento do jornal, mais de 400 municípios, elevando o total de 5.570 para quase seis mil.

O desejo de subir na vida, pelo visto, é comum tanto nas cidades como nos cidadãos. Mas subir na vida pode custar caro.

Entre 2001 e 2010 — bem recentemente, portanto — foi criada uma batelada de municípios com até oito mil habitantes, e cada um deles tem orçamento anual de cerca de R$ 20 milhões. Mas todos eles têm futuro incerto: os processos que os criaram estão para serem julgados pelo Supremo Tribunal Federal.

Os defensores da leva de promoções, reunidos na Frente Nacional de Apoio à Criação de Novos Municípios, que alega ter o apoio de 350 parlamentares de diversos partidos, afirmam, sem medo da decisão do STF, que Assembleias de diversos estados deverão votar sobre a criação de 250 novos municípios — e aprovar o pleito de 180. Mas, além do julgamento do Supremo, a questão também será decidida no Congresso, segundo uma emenda constitucional de 1996.

É natural que os políticos locais desejem a promoção. Mas a emenda de 96 criou condições severas para isso, baseadas no tamanho da população e na situação econômica da comunidade.

Ela também exige um plebiscito no qual os maiores interessados, ou seja, a população local, aprovem a transformação da cidade em município.

E há números a serem respeitados. Recentemente, uma pesquisa da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro estudou a situação de 58 prefeituras criadas recentemente. Nelas foram criados mais de 30 mil cargos públicos. E receberam um total de R$ 1,3 bilhão ao longo de cinco anos. Mas, na maioria das cidades, isso não significou melhoria de vida para a população.

Como lembrou uma fonte da Firjan, a criação do município não traz, por si só, aumento de recursos que beneficie os cidadãos: “Gerar novos municípios não implica necessariamente obter nova arrecadação”, disse ela.

O número de distritos promovidos a município já permite que os cidadãos que pensem em imitá-los avaliem, com cabeça fria, as vantagens da mudança — e, principalmente, os riscos de uma transformação que é mais complexa do que pode parecer.

28 de maio de 2013
Luiz Garcia, O Globo

O FIM DE UM MITO

 

A barbeiragem da Caixa, no pagamento do Bolsa Família, irritou a presidente Dilma. Um ministro, com gabinete no Planalto, diz que a presidente está brava com o presidente da CEF, Jorge Hereda.

É que o erro da instituição potencializou o boato do fim do programa e a corrida às agências do banco. Mas a oposição também está em cima da gestão Hereda.


Ocorre que, passados mais de 90 dias do fim do exercício de 2012, a Caixa não enviou à Comissão de Valores Mobiliários nem tornou pública, como prevê a lei, a prestação de contas das aplicações do Fundo de Investimento do FGTS.

O deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) vai notificar a CEF e a CVM para obter informações

28 de maio de 2013
Ilimar Franco, O Globo

FRASE DO DIA

"Esse boato foi uma jogada de marketing para promover a reestreia de um programa que, envelhecido, precisava se reapresentar."


Deputado José Agripino Maia (RN) presidente do DEM, sobre a corrida atrás da grana do Bolsa Família


28 de maio de 2013

UMA MENTIRA ENGOLE A OUTRA, QUE ENGOLE A OUTRA... (REPETINDO)

 



O que foi que na semana passada a ministra Maria do Rosário, dos Direitos Humanos, atribuiu à central de notícias da oposição?
O que Dilma, por sua vez, chamou de “desumano e criminoso”?
Lula, de ação praticada por “gente do mal”?
José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, de “manobra orquestrada”?
E Ruy Falcão, presidente nacional do PT, de “terrorismo eleitoral”?

No sábado 18, e no dia seguinte em 13 estados, um milhão de clientes do programa Bolsa Família invadiu agências lotéricas para sacar suas mesadas fora do dia marcado. Boatos davam conta de que o programa seria extinto ou suspenso. Ou que Dilma autorizara o pagamento de um bônus.
Houve quebra-quebra. A polícia foi acionada.

A ministra Maria do Rosário corrigiu-se poucas horas depois de ter pendurado na conta da oposição as consequências dos boatos. Qualificou de “singela” sua própria opinião — não mais do que "singela". E garantiu com a inocência que Deus lhe deu: “Não quero politizar”.



Ora, ora, ora…
Quem por meio de uma “manobra orquestrada” poderia fazer “terrorismo eleitoral”? Aliados do governo? Claro que não.
Uma vez politizado o episódio, politizado está. Só que aos poucos ameaça se voltar contra o governo. Na melhor das hipóteses teria sido um caso de má gestão polvilhado com mentiras.

Entre as tardes do sábado e do domingo, quando pessoas em desespero se empurraram e depredaram agências lotéricas na caça ao tesouro do Bolsa Família, dois gerentes regionais da Caixa Econômica sugeriram que um erro do sistema de pagamento seria o responsável pela liberação do dinheiro em desacordo com o calendário do programa. Um deles, Hélio Duranti, do Maranhão, foi preciso.

“Os boatos surgiram após um atraso no pagamento do benefício ocorrido em todo o país. A situação foi normalizada, mas muita gente procurou os caixas eletrônicos ao mesmo tempo e o dinheiro acabou”, disse ele. “Quem não encontrou ficou revoltado e quebrou os caixas”.

A ministra Tereza Campello, do Desenvolvimento Social, preferiu observar: “Não existe qualquer motivação para que a gente pudesse gerar esse tipo de intranquilidade para a população”.
Será?

A direção da Caixa Econômica atravessou a semana negando que tivesse mexido no calendário de pagamento. Até que na última sexta-feira, a Folha de S. Paulo encontrou em Caucaia, região metropolitana de Fortaleza, a dona de casa Diana dos Santos, 34 anos. Na sexta anterior ela fora a um caixa eletrônico sacar os R$ 32,00 do Bolsa Família referentes a abril. Ao inserir seu cartão, sacou os R$ 32,00 de abril e os R$ 32,00 de maio.

“Recebo o Bolsa Família há anos e nunca pagaram antecipadamente”, comentou Diana. “Acho que outras pessoas receberam também, avisaram aos conhecidos e virou essa confusão”.
A Caixa inventou então outra história depois que se desmanchou no ar a história que ela vinha contando. Soltou uma nota dizendo:

— A Caixa Econômica esclarece que vem realizando, desde março, diversas melhorias no Cadastro de Informações Sociais. Em consequência desse procedimento, na sexta-feira (17), primeiro dia do calendário de pagamentos de benefícios do Bolsa Família do mês de maio, o banco disponibilizou o saque independentemente do calendário individual.

O pagamento é feito levando-se em conta o último número do cartão magnético de cada bolsista. A Caixa liberou o dinheiro para pagar de vez a todo mundo, mas não avisou a ninguém. De resto, não explicou como uma operação dessa natureza pode melhorar seu Cadastro de Informações Sociais.
É razoável desconfiar que a Caixa mentiu outra vez.

Para mudar o sistema de pagamento do Bolsa Família permitindo saques em outras datas, o Conselho Deliberativo da Caixa teria de ser obrigatoriamente consultado — e não foi, segundo me contou um dos seus membros. Ou informado — e também não foi.
A Caixa esconde que houve uma falha no sistema, o que tornou possíveis os pagamentos fora de hora.

No dia em que a Folha pegou a mentira da Caixa, uma fonte da Polícia Federal, mediante a garantia prévia de anonimato, revelou ao O Globo em Brasília que fora localizada no Rio de Janeiro a central de telemarketing responsável pela difusão dos boatos.

Não disse o nome da central. Nem do seu proprietário. Não disse quem a contratou. Nem como a central teve acesso aos números de telefones de inscritos no Bolsa Família.

Sem acesso aos números de telefones como a central poderia disseminar boatos?
Enquanto a Polícia Federal não revelar o nome da empresa e não apresentar o criminoso que encomendou o serviço, sobreviverá a suspeita de que ela mente para livrar a cara da Caixa Econômica.

28 de maio de 2013
ricardo noblat
 

"REITERAMOS O COMPROMISSO QUE JÁ HAVÍAMOS ESTABELECIDO COM ELE, DE PERSEVERAR NA BUSCA DA VERDADE, NA MELHORIA DA QUALIDADE DE VIDA DOS BRASILEIROS E NO FORTALECIMENTO DAS INSTITUIÇÕES DEMOCRÁTICAS NO BRASIL".


 

Roberto Civita, diretor editorial e presidente do Conselho de Administração do Grupo Abril, foi velado nesta segunda-feira no Crematório Horto da Paz, em Itapecerica da Serra, São Paulo.
 
Em cerimônia privada, Giancarlo Civita, filho mais velho do editor, homenageou o pai:
“Nosso pai era um entusiasta do Brasil. Ele acreditava no Brasil. Durante toda a sua vida ele mostrou em atos e palavras que uma nação de verdade, viável e justa, não nasce ao acaso. Ela precisa ser construída.
Ele tinha certeza de que as ferramentas para isso são a educação e a liberdade de expressão. A esses dois fundamentos, que ele via como inseparáveis, nosso pai dedicou sua vida. Como seus filhos, reiteramos o compromisso que já havíamos estabelecido com ele, de perseverar na busca da verdade, na melhoria da qualidade de vida dos brasileiros e no fortalecimento das instituições democráticas no Brasil”.
 
Duas mil pessoas compareceram ao velório, entre políticos, empresários, amigos e familiares. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o prefeito da capital paulista, Fernando Haddad, e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foram alguns dos presentes.
 
“Era um homem de coragem e de vanguarda. Tinha amor pelo Brasil, obsessão pela verdade e crença inabalável na liberdade de imprensa”, afirmou o governador. “Era uma pessoa muito centrada na ideia de que a educação faria a diferença no desenvolvimento nacional”, disse o prefeito. 
”Roberto Civita foi a mais sofisticada combinação de empresário e editor que eu conheci”, afirmou o presidente do Grupo Folha, Luis Frias.
 
Roberto Civita morreu aos 76 anos, às 21h41 deste domingo, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, devido à falência de múltiplos órgãos, depois de três meses internado para a correção de um aneurisma abdominal. Ele deixa a mulher Maria Antonia, os filhos do primeiro casamento Giancarlo, Roberta e Victor, além de seis netos e enteados.
 
Memória
 
“Gosto de ser editor e o que eu sei fazer é revista”, dizia Roberto Civita. Mesmo depois de 1990, quando a morte de Victor Civita o levou a assumir o comando da Abril e a chefiar o processo de diversificação do grupo fundado pelo pai, ele nunca se afastou da atividade que o seduziu definitivamente na década de 60, quando começou a pôr em prática os conhecimentos assimilados anos antes, na sua segunda temporada nos Estados Unidos.
 
Nascido em Milão, Roberto Civita morou em Nova York de 1939 a 1949, quando veio para São Paulo.

O bom desempenho no Colégio Graded garantiu-lhe uma bolsa de estudos nos EUA, onde percorreu, ao longo da década de 50, caminhos que o levariam à descoberta da vocação profissional e à volta definitiva ao Brasil.
 
Depois de interromper o curso de Física Nuclear na Universidade Rice, no Texas, para diplomar-se em jornalismo e economia na Universidade da Pensilvânia, Roberto Civita conseguiu um estágio na editora Time Inc, que controlava as revistas Time, Life e Sports Illustrated. Durante um ano e meio, familiarizou-se com todos os setores da empresa, da redação à contabilidade.
 
Em 1958, quando Victor Civita perguntou ao filho que acabara de voltar o que pretendia fazer, ouviu a resposta que apressaria a entrada da Abril no universo jornalístico: “Quero fazer uma revista de informação semanal, como a Time, uma revista de negócios como a Fortune e uma revista como a Playboy”, respondeu.
 
Pioneirismo

O pai prometeu preparar a empresa para o passo audacioso, consumado em 11 de setembro de 1968, quando chegou às bancas a primeira edição de VEJA. Roberto Civita participou intensamente das experiências pioneiras que resultaram no lançamento de Realidade, Exame, Quatro Rodas e Playboy.
 
Mas nada o deixava mais emocionado que recordar a trajetória descrita pela primeira revista semanal de informação do Brasil. Foi ele quem a criou. E foi ele o primeiro e único editor de VEJA, hoje a maior publicação do gênero fora dos Estados Unidos.
 
“Ninguém é mais importante que o leitor, e ele merece saber o que está acontecendo”, lembrava aos recém-chegados. “VEJA existe para contar a verdade. A fórmula é muito simples. Difícil é aplicá-la o tempo todo.”
 
Sobretudo em ambientes hostis à liberdade de expressão, aprendeu Roberto Civita três meses depois do parto da revista. Em 13 de dezembro de 1968, a decretação do Ato Institucional n° 5 transformou o que era um governo autoritário numa ditadura militar sem disfarces.
A capa da edição que noticiou o endurecimento do regime exibiu uma foto do general-presidente Arthur da Costa e Silva sentado, sozinho, no plenário do Congresso que o AI-5 havia fechado. Os chefes militares não gostaram da imagem e ordenaram a apreensão de todos os exemplares. A essa violência seguiu-se a instauração da censura prévia, que só em meados da década seguinte deixaria de tolher os passos de VEJA.
 
Risonho, cordial, otimista, Roberto Civita sempre acreditou que nenhuma atividade vale a pena se não for praticada com prazer. “Você está se divertindo?”, perguntava insistentemente aos profissionais com quem convivia. Mantinha-se otimista mesmo quando contemplava a face sombria do país. Para ele, o Brasil só conseguiria atacar com eficácia seus muitos problemas se antes aperfeiçoasse o sistema educacional, modernizasse o capitalismo nativo, removesse os entraves à livre iniciativa e consolidasse o estado democrático de direito.
 
“O que VEJA defende, em essência, é o cumprimento da Constituição e das leis”, repetia. Também essa fórmula parece simples. Difícil é colocá-la em prática. Foi o que o editor de VEJA sempre soube fazer.
 
28 de maio de 2013
Reinaldo Azevedo